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Torcedor brasileiro não quer SAF, quer seu clube na Liga Saudita

Torcedor por aqui acha que qualquer time quando comprado se transformará numa seleção mundial de grandes contratações. A vida real é diferente.

A venda de 90% da participação de Ronaldo Fenômeno na SAF do Cruzeiro agitou o mercado da bola no Brasil. Paralelamente ao negócio concretizado em Minas, cresce a insatisfação do torcedor do Vasco com os rumos que o time tomou desde a venda para a SAF 777 Partners.

Pelo que circula de manifestações em arquibancadas, redes sociais e até mesmo entre muitos colegas, jornalistas e ou influenciadores, a ideia gerada sobre as SAFs no Brasil está equivocada. A expectativa da maioria está mais para uma versão tropicalizada da Liga Saudita. Aquela competição usada pela ditadura árabe saudita para amenizar a percepção do mundo em relação ao país. Além de proporcionar uma rivalidade de clubinho entre os quatro maiores times do campeonato. Cada um é ligado a um príncipe, e os quatro ficam com a maioria do dinheiro do Fundo Soberano do governo saudita que banca a jogada de marketing.

O torcedor brasileiro imagina que, quando seu time é vendido para um grupo ou indivíduo cheio da nota, automaticamente se transformará num Manchester City, um PSG da vida. Cria expectativa de grandes contratações e montagem de esquadrões imbatíveis. Quando acorda para o mundo real, é um choque.

Ronaldo, goste-se ou não de seu trabalho, reposicionou o Cruzeiro dentro das possibilidades que hoje são possíveis para o clube. O Fenômeno tem grande apreço por sua imagem e é ela seu maior ativo econômico. Certamente ficou assustado com bandeirões com sua imagem sendo queimados e faixas pedindo sua saída. Craque de bola e dos negócios, resolveu puxar o carro antes de ver sua preciosa credibilidade chamuscada. Para ele, ser antiaderente é ponto facultativo em sua imagem pública.

A curiosidade que envolve as SAFs no Brasil é de que há um movimento de compra dos clubes por grandes empresários que são torcedores. Obviamente que não é o mesmo, mas remete aos velhos tempos em que dirigentes amadores endinheirados faziam aportes financeiros. Muito dessa relação segue vigente, mas sob novas regras.

Há situações distintas, como projetos de futebol empresarial muito bem desenhados e definidos, como o Red Bull Bragantino. O ambiente está quase que totalmente imunizado da ação dos cartolas e de pressão da torcida, embora a cidade de Bragança Paulista siga apoiando como nos tempos do velho Massa Bruta.

O Botafogo de John Textor, apesar da pipocada de 2023, navega em águas mais tranquilas que Vasco e Cruzeiro. Assim como o Fortaleza, que se organizou para dar o passo de virar Sociedade Anônima de Futebol.

A grande dúvida paira sobre o Vasco. À falta de resultados soma-se a ausência de transparência sobre a origem dos recursos e os rumos da SAF. A gestão de futebol fez uma aposta em alguns nomes que estão no ocaso da carreira, entregou um time desequilibrado e reservou suas fichas mais valiosas no francês Payet.

O problema das SAFs no Brasil está no que não se sabe sobre elas.

Enquanto isso, os torcedores vivem a ilusão de uma espécie de primavera saudita no veranico brasileiro. 

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela

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