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Robinho não é mercenário, mas trocou o amor pelo Santos (e a Seleção) por dinheiro

Pela terceira vez, o torcedor santista sentiu o amargo gosto da despedida. A noite do domingo que ele não queria que terminasse. Robinho desempenhou impecavelmente seu papel de capitão e referência do Santos durante a vigência de um ano do seu contrato. Chegou até a encantar novamente em alguns momentos e voltou à seleção brasileira. Mas foi embora. Não quis ficar. Preferiu deixar o amor pelo clube para trás por um provável contrato milionário com o Guanghzou Evergrande. Ninguém discute o forte sentimento que ele tem pelo clube da Vila Belmiro. Tudo indica que é genuíno, e a recíproca não poderia ser mais verdadeira. Fica cada vez mais claro, porém, qual lado faz concessões para o bem do relacionamento e qual pensa apenas em si mesmo.

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A temporada anterior ao segundo retorno do jogador à Baixada foi ruim. Era reserva do Milan. Havia começado jogando apenas 15 dos 31 jogos que disputou pelo Campeonato Italiano, mais três pela Champions League e dois pela Copa Itália. Não tinha muito mercado, nem era convocado à seleção brasileira. Queria o tal do carinho, que encontra apenas nos arredores do Canal 2. Assinalou com a volta e foi atendido. Seria bom para o clube também, claro, que conseguiu dar um jeito para R$ 1 milhão caírem na conta dele por mês, mesmo com as contas em acelerado processo de deterioração. O primeiro retorno também foi um pouco assim. Havia se machucado e voltou sem muito espaço no Manchester City. A Copa do Mundo se avizinhava, e mesmo sendo um dos favoritos de Dunga, precisava de ritmo para retribuir a confiança. Passou seis meses, conquistou dois títulos, viajou à África do Sul e se mandou para o Milan.

O padrão está óbvio. Quando o Menino das Pedaladas precisa ressuscitar a carreira, o clube da Vila Belmiro realiza todos os esforços possíveis para recebê-lo, paga altos salários e busca patrocínios. Quando o Santos, com um elenco jovem e mediano, em situação financeira complicada, precisa de Robinho, ele vai para a China. E não adianta dizer que o projeto era mesmo de um ano ou que ele não era tão essencial assim. O presidente Modesto Roma Jr até chorou quando anunciou que não dava mesmo para renovar o contrato dele.

Robinho não é mercenário. É um profissional que troca o seu serviço por dinheiro, como muitos outros. Decide onde trabalhará de acordo com as leis do mercado, de oferta e procura, condições para desempenhar sua função e salário. Na China, ganhará R$ 3,5 milhões por mês, em dia, e é absolutamente compreensível que tenha ficado tentado. Qualquer um ficaria. Mas, se sua relação com o futebol e com os clubes que defende é estritamente profissional, deveria abandonar o discurso de amor, paixão e sonho quando sua vontade for defender o Santos novamente. Afinal, foi embora já falando que quer voltar mais uma vez.

E o futebol envolve, sim, o sentimento, a adrenalina de ouvir o seu nome ser gritado, de defender uma camisa histórica, marcar gols importantes e conquistar títulos que muitas vezes significam mais que um número na conta bancária. Um dos poucos ofícios que lhe permitem fazer parte de algo maior do que ele mesmo. Não falo em trabalhar por amor, mas não é uma relação empregatícia simples como todas as outras.

Sem falar que a transferência afasta Robinho da seleção brasileira justamente no momento em que ele estava começando a se firmar novamente. Quase excluído do ciclo de Copa do Mundo anterior, ganhou uma nova chance com Dunga e fez uma Copa América das mais honestas, um dos poucos que se salvou. Aos 31 anos, teria idade para disputar o Mundial da Rússia. O treinador dá indícios, com a convocação de Diego Tardelli, de que jogar na China não necessariamente influencia a decisão dele. Mas Ricardo Goulart perdeu espaço. E, para um jogador mais velho como Robinho, trocar um centro visível e importante por outro menos competitivo faz mais diferença para se manter em alto nível.

A primeira saída de Robinho era absolutamente natural. O futebol brasileiro havia ficado pequeno para ele, financeira e tecnicamente. Havia ambição e a necessidade real de fazer um pé de meia. A segunda, um pouco menos, também é bastante compreensível. Mas, depois de três contratos milionários com Real Madrid, Manchester City, além de alguns bicos pelo Santos os milhões do Guanghzou fazem, de fato, uma diferença substancial na sua vida? Não precisava tratar a questão tão friamente porque nunca foi tratado com frieza na Vila Belmiro.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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