Quais os reflexos que a virada histórica pode ter no Ba-Vi decisivo?
No jogo de ida da final do Campeonato Baiano, o Vitória conseguiu uma virada histórica e largou na frente contra o arquirrival Bahia
Reviravoltas, entretenimento e emoção. O primeiro jogo da final do Campeonato Baiano não só prendeu a atenção dos torcedores, bem como deixou tudo em aberto para a partida de volta. No Barradão, o Bahia parecia ter aberto uma excelente vantagem. Só parecia. A equipe de Rogério Ceni arrefeceu em campo e o Vitória soube se aproveitar disso. O técnico Léo Condé mexeu cirurgicamente no time, o Leão foi empurrado pela massa rubro-negra presente nas arquibancadas e atropelou o arquirrival nos últimos minutos. 3 a 2 para os donos da casa, que jogarão pelo empate na Fonte Nova, neste domingo (7), às 16h (horário de Brasília).
O maior vilão do Ba-Vi 496 foi Rogério Ceni. Já o herói, Léo Condé. Assim como no clássico válido pela primeira fase da competição, o triunfo do Vitória foi construído a partir de dois fatores: erros sucessivos do técnico do Bahia, que sentou no resultado parcial e recolocou o adversário no jogo, e os muitos acertos do treinador rubro-negro, que enxergou as dificuldades apresentadas pelo seu time e realizou as correções a tempo de buscar mais uma virada.
Mais do que o duelo tático, o Vitória superou o Bahia na parte física e mental. Os visitantes abriram 2 a 0 e, como citado, abdicaram de jogar o restante do clássico. Melhor para o Leão. A equipe rubro-negra melhorou após as substituições e reagiu. A cada gol marcado, o Vitória aumentava mais o volume ofensivo e encurralava o arquirrival contra seu campo. Tudo isso em meio a uma atmosfera pulsante. A torcida da casa protagonizou um verdadeiro espetáculo no Barradão e foi peça fundamental para o resultado da partida de ida.
VITÓRIA DO VITÓRIAAAAA!!!!!!!!!!! ❤️🖤🦁 COM GOLS DE MATEUS GONÇALVES (2x) E IURY CASTILHO, O LEÃO VENCEU O BAHIA NA PARTIDA DE IDA DA FINAL DO BAIANÃO. VAMO LEÃO!!!!!!
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— EC Vitória (@ECVitoria) March 31, 2024
Como Ceni e Condé montaram Bahia e Vitória?
Todo jogo de futebol requer atenção e estratégias. Em um clássico, entretanto, isso é ainda mais necessário. Afinal, mexe com rivalidade e com o ambiente de determinada cidade ou país. No Ba-Vi 496, por exemplo, os dois técnicos tinham escolhas importantes para fazer. E as decisões de ambos impactaram diretamente no roteiro e resultado da partida no Barradão.
Léo Condé optou por uma escalação que priorizasse pegada na marcação. Por isso, o treinador do Vitória escalou três volantes no meio-campo (Willian Oliveira, Dudu e Rodrigo Andrade), com intuito de preencher e resguardar o setor. Matheusinho partiu do lado esquerdo, enquanto Osvaldo ocupou o direito. Alerrandro, centralizado, foi a referência de ataque rubro-negra.
Rogério Ceni, por sua vez, reforçou a marcação pelo lado esquerdo ao iniciar o clássico com Luciano Juba, substituto do lesionado Everaldo. O camisa 46 fez dupla de ataque com Thaciano. Os dois tinham o papel de recompor pelos lados em momentos defensivos do clássico. No meio-campo, Caio Alexandre e Jean Lucas cuidavam da sustentação do setor, enquanto Everton Ribeiro e Cauly eram os responsáveis pela articulação das jogadas.
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Como o Vitória conseguiu a virada sobre o Bahia?
1º tempo morno enganou muita gente
Ao apostarem em escolhas mais conservadoras, Condé e Ceni deixaram a partida um tanto quanto truncada, com poucos lances de perigo no 1º tempo. Disputas intensas no meio-campo, embates físicos, defesas sólidas e ataques inoperantes marcaram os 45′ iniciais no Barradão. Apesar da atmosfera adversa, o Bahia foi ligeiramente superior. É bem verdade que o Tricolor encontrou dificuldades para se livrar da forte marcação do Vitória. Todavia, em virtude do talento de seus jogadores de meio-campo, cresceu no jogo e teve um começo mais promissor.
Na etapa inicial, o Vitória só levou perigo uma vez, quando Marcos Felipe tocou errado e deu a bola de presente para Alerrandro. Mesmo com a meta vazia, o atacante rubro-negro errou o alvo. Já o Bahia teve duas chances de balançar as redes. Após falha do goleiro Lucas Arcanjo, Wagner Leonardo salvou em cima da linha um gol certo de Thacianio. Posteriormente, o arqueiro do Leão se redimiu e fez boa defesa em chute de Jean Lucas.
No geral, foi isso que aconteceu nos primeiros 45 minutos da decisão. A impressão que ficou é que nenhum dos dois times queria arriscar, já pensando na segunda e derradeira partida. Vitória e Bahia adotaram cautela e as defesas acabaram se sobressaindo sobre os ataques. No entanto, isso mudou por completo no 2º tempo.
Em 2º insano, Vitória forja virada arrebatadora
Logo no início da etapa complementar, a superioridade do Bahia até aquele momento da partida virou vantagem no placar. Willian Oliveira errou passe na saída de jogo e condicionou o ataque tricolor com a defesa rubro-negra completamente desorganizada. Em três toques rápidos, a equipe visitante deixou Thaciano com o gol aberto para inaugurar o marcador.
O tento de Thaciano obrigou o Vitória a adiantar suas linhas e sair mais para o jogo. Léo Condé sacou Willian Oliveira e lançou Mateus Gonçalves. A ideia era ganhar poder de fogo, com dois pontas agudos pelos lados e Matheusinho solto para criar pelo meio. O Bahia ‘respeitou’ a resposta rubro-negra e passou a jogar no contra-ataque. Acuado, o time tricolor encontrava dificuldades para manter a bola no setor ofensivo. Porém, na primeira vez que conseguiu fazer isso com mais clareza, aumentou a contagem. Luciano Juba descolou cruzamento preciso na direção de Cauly, que não perdoou.
Mesmo com um 2 a 0 nas costas e uma torcida insatisfeita, que já não demonstrava o mesmo otimismo de antes, o Vitória soube ser resiliente e forjou uma virada épica no maior clássico da Bahia. Aposta de Léo Condé, Mateus Gonçalves diminuiu para os rubro-negros quatro minutos depois do segundo gol tricolor. A jogada contou com importantes participações de Matheusinho e Dudu. O volante do Leão, inclusive, foi um dos grandes personagens da partida. Com muita gana e determinação, o camisa 21 neutralizou as ações do meio-campo adversário e ajudou sua equipe na transição ofensiva.
A partir do gol de Mateus Gonçalves, tudo começou a ruir para o Bahia. Preocupado com a intensa pressão do Vitória, Rogério Ceni resolveu mexer na equipe. Ele tirou Caio Alexandre, Thaciano, Everton Ribeiro e Luciano Juba e adicionou mais dois zagueiros em campo — David Duarte e Caio Roque. Escolhas equivocadas, que fizeram o Tricolor de Aço desmoronar. Do outro lado, Léo Condé, com intuito de incendiar o clássico, lançou Zé Hugo, Iury Castilho, Lucas Esteves e Léo Gamalho. Deu muito certo e o Leão rugiu alto.
Apático e completamente perdido, o Bahia se tornou presa fácil de um Vitória que, mais uma vez, estava decidido a virar o clássico. Postado em campo em um 4-2-4, o Leão mostrou suas garras e partiu com tudo em busca da remontada. E ela veio. Autor do primeiro gol rubro-negro, Mateus Gonçalves se redimiu da expulsão infantil no segundo Ba-Vi do ano e balançou as redes mais uma vez. Era o empate.
Se aproveitando de uma defesa atônita do Bahia, o Vitória conquistou o triunfo no apagar das luzes, com gol de Iuri Castilho. Virada justa de um time que superou o arquirrival em dois pontos-chave dentro do futebol: força física e mental.
As lições de Bahia e Vitória para o jogo da volta
Vitória
Para o Vitória, que triunfou no jogo de ida da decisão, fica a lição de começar a partida na Fonte Nova ligado no 220. O ambiente será completamente diferente. Se a torcida rubro-negra exerceu forte pressão no Barradão, os adeptos tricolores prometem fazer o mesmo no duelo de volta. Atrás no placar agregado, o Bahia precisa correr atrás do prejuízo e, empurrado pelos fãs, tentará infernizar a vida do arquirrival. Cabe a Léo Condé passar a tranquilidade e confiança necessária aos jogadores.
Algo que deu muito certo no Barradão e deve ser mantido na Fonte Nova é a marcação encaixada do Vitória no setor de meio-campo. Por outro lado, erros como o de Willian Oliveira na saída de bola podem ser fatais e precisam ser evitados, já que a vantagem do Leão é mínima e todo cuidado é pouco.
Além disso, outra característica do jogo rubro-negro que merece atenção é o ímpeto exacerbado dos jogadores. Em parte, isso é positivo. Inclusive, é um dos motivos pelos quais o time de Condé consegue ‘anular’ a ação ofensiva do Bahia. A vontade que os atletas chegam nas jogadas, tirando o espaço das cabeças pensantes do adversário, compromete a estratégia de Ceni. Porém, em determinados lances no último domingo (31), o árbitro poderia muito bem ter expulsado Rodrigo Andrade e Dudu. É necessário dosar essa vontade excessiva em divididas no duelo da volta.
Bahia
Já o Bahia terá de rever muita coisa. Para começo de conversa, Rogério Ceni não pode simplesmente se desesperar quando vê o adversário crescendo no jogo. Como citado, as mudanças no Barradão não só não surtiram efeito, bem como foram determinantes para a virada do Vitória. O comandante tricolor deve melhorar o entendimento do que fazer em momentos cruciais da partida.
As escolhas de Ceni em substituições costumam ser — e se provam muitas vezes — bem equivocadas. Nos dois Ba-Vis no Barradão em 2024, ele se comportou da mesma maneira: demorou para mudar e mexeu mal. Mais do que isso, modificou o posicionamento e encaixe de peças importantes e ‘quebrou’ todo o sistema de marcação.
No último domingo, por exemplo, Rezende fez a lateral esquerda e anulou completamente as ações ofensivas do Vitória por aquele lado. Osvaldo não teve espaço, muito menos Zeca. Quando Rogério resolveu mudar o time, puxou Rezende para o meio, colocou Caio Roque na ala esquerda e botou David Duarte em campo, formando um esquema de três zagueiros. Com o time mal posicionado, o Rubro-Negro passou a achar espaços e marcou os dois gols da virada em jogadas por ali.
Em síntese, o elenco do Bahia é muito superior ao do arquirrival, e a ‘obrigação’ do título está do lado tricolor da força. Na prática, Rogério Ceni precisa entender o plantel que tem em mãos e saber como gerenciar as opções.



