Neymar sem foco? Realidade do Santos na temporada pode influenciar em motivação?
Psicólogos explicam que pouca ambição do Peixe atrapalha, mas é uma oportunidade para o camisa 10
A segunda passagem de Neymar pelo Santos não tem sido como o imaginado pelo torcedor, pelo Clube, tampouco pelo próprio jogador. As seguidas lesões musculares têm atrapalhado o futebol do atacante, que ainda sonha em defender a seleção brasileira na próxima Copa do Mundo, que será disputada em 2026.
Além das lesões, o desempenho de Neymar, quando à disposição da comissão técnica, também tem deixado a desejar. E isso faz surgir diferentes especulações em relação ao seu comportamento extracampo. Até mesmo durante o período de recuperação de problemas musculares.
Neymar fatura R$ 529 mil em torneio de pôquer.
— Planeta do Futebol 🌎 (@futebol_info) September 23, 2025
Segundo a plataforma organizadora, o camisa 10 jogou boa parte do primeiro dia de competição diretamente do camarote da Vila Belmiro, onde acompanhou Santos 1×0 São Paulo, no último domingo.
Neymar terminou o torneio em 2º lugar,… pic.twitter.com/6IREoBgbWq
Extremamente competitivo, o camisa 10 do Peixe passou a carreira toda brigando pelos principais títulos que disputou com Santos, Barcelona, Paris Saint Germain e Seleção. Mais do que isso: um dos melhores jogadores do mundo, Neymar é referência para toda uma geração de atletas.
A realidade, no entanto, já não é mais essa. Apesar das diversas contratações, o Santos não é postulante ao título do Campeonato Brasileiro deste ano e foi precocemente eliminado da Copa do Brasil para o modesto CRB.
Diante dessa mudança de cenário esportivo, a Trivela procurou psicólogos do esporte para entender se os objetivos medianos do Peixe na temporada poderiam afetar a motivação de Neymar.
Realidade atrapalha, mas pode ser ótima oportunidade para Neymar
Bruno Vieira, psicólogo com vasta experiência com profissionais do esporte, clubes e confederações, explica que o fato de o Santos não oferecer, neste momento, grandes desafios ambições em campo podem atrapalhar, de fato, a disciplina de Neymar.
— O Neymar sempre foi um atleta de altíssimo rendimento, acostumado a disputar títulos e estar no centro das maiores competições do mundo. Quando um jogador desse nível passa a viver uma realidade esportiva diferente — em que a equipe já não disputa os principais títulos —, é natural que surjam desafios emocionais e de motivação. Isso acontece porque o contexto influencia muito a performance: a energia de estar em grandes decisões, a cobrança por resultados e a visibilidade constante são fatores que mantêm o atleta em estado de alerta e foco. Quando essa intensidade diminui, pode haver um impacto psicológico, como a queda de motivação, dificuldade em manter a mesma disciplina e até comportamentos que fogem do padrão de quem está no auge — fala o psicólogo.
Mas, ainda segundo Vieira, essa também pode ser uma grande oportunidade para o atacante do Peixe.
— Essa nova fase pode permitir ao atleta ressignificar sua carreira, encontrar novos objetivos, assumir papel de liderança e inspiração para outros jogadores. Tudo depende de como ele e sua equipe de suporte — familiares, comissão técnica e psicólogos — vão trabalhar essa transição. Em resumo: não é a ausência de títulos que tira a grandeza de um atleta, mas sim como ele lida com os novos cenários que a carreira impõe. O psicológico é peça-chave para que Neymar mantenha o foco, adapte-se a essa nova realidade e continue escrevendo sua história no futebol — acrescenta.
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‘Sensação de vazio existencial no esporte’
Pós doutor em Psicologia do Esporte e com 10 livros publicados, João Ricardo Cozac compartilha de visão semelhante e afirma que tudo isso pode trazer uma “sensação de vazio existencial dentro do esporte”.
— É importante entendermos que a trajetória de atletas como Neymar é marcada por conquistas grandiosas, pressão constante e visibilidade global. Durante muitos anos, ele esteve no topo do futebol mundial, convivendo diariamente com o desafio de disputar títulos, ser protagonista e corresponder às expectativas de torcedores, imprensa e patrocinadores. Essa experiência molda não apenas o jogador em campo, mas também sua identidade como pessoa e profissional — inicia o profissional.
— Quando ocorre uma mudança drástica de cenário – como deixar de disputar títulos de expressão internacional e passar a viver uma realidade esportiva de menor visibilidade e competitividade –, o impacto psicológico pode ser bastante significativo. O atleta passa a se deparar com a quebra de uma narrativa construída ao longo da carreira: a de sempre estar entre os melhores. E essa ruptura, se não for bem trabalhada, pode gerar frustração, desmotivação e até uma sensação de vazio existencial dentro do esporte — completa.
De acordo com Cozac, a literatura em Psicologia do Esporte aponta que a motivação de um atleta é fortemente sustentada por metas claras, desafios compatíveis ao seu nível de habilidade e pela percepção de progresso contínuo. Quando esses elementos deixam de estar presentes, pode surgir um desajuste motivacional.
— No caso de Neymar, que construiu sua carreira em torno de grandes conquistas, há uma dificuldade natural em ressignificar o prazer do jogo quando os objetivos parecem menores do que aquilo que já foi vivido. Atletas de elite costumam vincular grande parte do seu valor pessoal às conquistas e ao reconhecimento público. Quando esse ambiente se altera, podem aparecer comportamentos que fogem do padrão profissional esperado, justamente como uma forma de compensação emocional — diz o psicólogo.

‘Neymar não precisa medir a carreira em troféus’
Assim como Vieira, Cozac também ressalta que essa mudança de contexto não significa que Neymar está fadado à perda definitiva do foco ou motivação.
— A motivação no esporte não é estática; ela é dinâmica e flutuante. Neymar pode viver fases de maior ou menor engajamento, dependendo do projeto esportivo, do ambiente que o cerca e do quanto ele consegue alinhar sua vida pessoal com a profissional. Trabalhar com técnicas de intervenção psicológica, como o foco em metas de processo, a resiliência emocional e a busca de novos significados para a prática, pode ajudá-lo a manter a performance e o comprometimento — explica.
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— Diante disso, sim, a mudança de realidade esportiva pode ser um fator de risco para a perda de foco e o surgimento de comportamentos inadequados. Mas também pode representar uma oportunidade de crescimento pessoal, se bem conduzida. O grande desafio, neste momento, é auxiliar Neymar a compreender que sua carreira não precisa ser apenas medida em troféus conquistados, mas também no legado que deixa, no impacto que tem sobre outros jogadores e na capacidade de continuar encontrando prazer no jogo, mesmo em contextos diferentes dos vividos no auge — finaliza.
Diagnosticado com uma lesão no músculo reto femoral da coxa direita, Neymar segue em tratamento e ainda não tem um prazo definido para voltar a defender o Santos neste Campeonato Brasileiro.






