Brasil

Pouco se falou, mas o futebol brasileiro perdeu um de seus maiores reveladores de talentos

O trabalho nas categorias de base depende de uma sensibilidade imensa. Não apenas para observar jogadores e lapidar o seu talento, mas também para lidar com seres humanos em uma fase decisiva e um tanto quanto complicada da vida. Mais do que treinador, é preciso também ser educador. E assim Pupo Gimenez costumava ser visto por muitos atletas que cresceram sob os seus cuidados. Como técnico, observador e coordenador de categorias de base, tornou-se um dos profissionais mais respeitados do país. Ajudou a revelar uma geração de craques, muitos deles com passagem pela seleção brasileira.

Nascido no interior de São Paulo, Gimenez iniciou sua carreira na várzea e treinou clubes modestos antes de chegar ao Marília. Por lá, permaneceu por oito anos em diferentes funções, quase sempre atreladas à base. Ajudou a equipe a conquistar a Copa São Paulo em 1979 e formou promessas como Márcio Rossini e Jorginho. Sucesso reconhecido que o levou ao Guarani em 1982. A partir daquele momento, aprimorou uma das divisões inferiores mais prolíficas do Brasil.

Em diferentes passagens pelo Brinco de Ouro, Gimenez treinou até mesmo a equipe principal. Mas seu principal trabalho era na base. Por suas mãos, passaram nomes como Zetti, Evair, João Paulo, Mauro Silva e Amoroso. Em 1994, era o treinador da equipe que conquistou a Copa São Paulo com Pitarelli e Luizão entre os destaques, e que depois renderia frutos ao time principal do Bugre – semifinalista e dono da segunda melhor campanha geral no Brasileiro daquele mesmo ano.

Além disso, tinha um carinho especial por Neto. Foi um dos maiores incentivadores do camisa 10, trabalhando o seu talento. Nos tempos de juvenis, chegou a dar fotos de Puskás ao garoto, para tentar contornar seu problema com o peso e ter uma inspiração. “O Neto era muito genioso, mas sempre foi autêntico. É claro que deixava alguns técnicos de cabeça quente. Mas comigo ele se portava bem. Aliás, orgulho-me de dizer que ele me considera seu segundo pai. Quem não o conhece pessoalmente, não sabe a magnífica figura que é. O Neto tem o coração maior que o peito”, declarou em 2009, ao Jornal Diário de Marília.

Pupo Gimenez também passou por São Paulo, Bragantino e Corinthians – com o qual ganhou a Copinha em 1995, fato que o levou a treinar a seleção brasileira sub-20 nos Jogos Pan-Americanos de 1995. Nestes clubes, lapidou Cafu, Antônio Carlos, Doriva, Sylvinho, entre outros. Também serviu de olhar apurado na base a técnicos de renome, a exemplo de Ênio Andrade, Vanderlei Luxemburgo, Carlos Alberto Parreira e Cilinho. Respaldo que o manteve na ativa até meados da década passada. Neste sábado, no entanto, a vida do mestre chegou ao fim. Aos 84 anos, sofrendo com depressão, o respeitado profissional se suicidou. Deixou sua lembrança e uma enorme contribuição para o futebol nacional, com tantos craques que passaram por seus cuidados.

Pauta sugerida por Leandro Paulo Bernardo. Obrigado!

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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