Por baixo da fumaça de Drogba, Corinthians reforçou-se muito bem para a temporada
O Corinthians não vai contratar Didier Drogba. Encerrou sua paixão platônica de verão por um dos melhores atacantes de sua geração com uma nota oficial que tornou uma negociação que já era bastante confusa em um momento constrangedor. “Valeu, Drogba”, como se o marfinense fosse alguém tão importante que reservar algumas horas para ouvir a proposta de um clube tão grande como o Corinthians merecesse agradecimentos, quando foi meramente profissionalismo.
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Durante todo esse tempo, a chegada de Drogba ao Parque São Jorge teve a consistência de fumaça, e o clube teve pelo menos a sensatez de dissipá-la antes de começar a temporada. A tentativa poderia até ter sido válida se tivesse sido conduzida com mais rapidez e mais organização. Houve um racha entre os departamentos de marketing – entusiasta da contratação – e de futebol, o contato alvinegro era um ex-dirigente do Vasco que mentiu no seu currículo e tentou levar Christian Vieri ao Botafogo de Ribeirão Preto, e o presidente Roberto de Andrade, eventualmente, recebeu o projeto de braços abertos para desviar a atenção de um processo de impeachment e da renegociação de dívidas do estádio de Itaquera.
A busca por Drogba foi a busca por esperança para os corintianos, em um ano que se promete difícil, enquanto palmeirenses comemoram o título brasileiro, santistas aproveitam um excelente time e são-paulinos imaginam o que Rogério Ceni pode fazer. O problema é que isso foi feito de forma irresponsável: ao prolongar a negociação durante quase um mês, torcedores do Corinthians criaram expectativas – quem tem que ter noção das possibilidades reais do clube são os dirigentes – e muitos ficaram, compreensivelmente, decepcionados. A negociação deveria ter sido mais rápida e sigilosa. Afinal, a ação de marketing seria Drogba jogando pelo Corinthians ou foi a tentativa de contratá-lo?
O corintiano, porém, ainda tem motivos para pensar que a temporada será melhor do que o esperado. Por baixo dessa cortina de fumaça marfinense, o clube se reforçou bem de acordo com os recursos que têm à disposição, sem precisar correr atrás de patrocínio ou comprar carro blindado. Trouxe Jô, Kazim, Pablo, Gabriel, Fellipe Bastos e encaminhou William Pottker para depois do Paulistão. A cereja do bolo deve ser Jadson, que já tem acordo verbal com o clube e aguarda a confecção do contrato para oficializar seu retorno.
Todos esses nomes são acompanhados por pontos de interrogação: Jô estará afim desta vez? Como Jadson voltará da China? Gabriel está em boas condições físicas, depois de suas lesões pelo Palmeiras? E Pablo, que não joga desde maio? Todas as respostas virão em campo, e não tinha como o Corinthians fugir das perguntas. As contratações mais certeiras são também as mais caras. Sem muito dinheiro para gastar, o Timão precisava mesmo arriscar um pouco mais. E arriscou bem.
Gabriel, por exemplo, era uma das chaves do meio-campo do Palmeiras antes de se machucar, em 2015. Sua saída forçada do time foi uma das explicações da queda de rendimento no segundo semestre daquele ano, junto com a deterioração do trabalho de Marcelo Oliveira. Deixou o clube apenas pelo excesso de jogadores para a posição e o preço elevado por alguém que provavelmente seria reserva. O setor também foi reforçado por Fellipe Bastos, que teve bons momentos com a camisa do Vasco.
A defesa recebeu Pablo. O jogador de 25 anos teve um bom começo no Bordeaux, sendo titular nas sete primeiras rodadas da Ligue 1 de 2015/16. Mas se machucou e ficou três meses no estaleiro. Ainda começou jogando as últimas partidas daquele campeonato, mas perdeu espaço no clube francês e não atuou na atual temporada.
A posição mais carente era o ataque, para o qual vieram três jogadores – Drogba seria o quarto. O último grande momento de Jô não foi há muito tempo, na Libertadores de 2013, e ele ainda tem 29 anos. Dar certo é uma questão mais física e psicológica do que técnica. William Pottker, se realmente vier, parece o melhor nome, um dos destaques do último Brasileirão. Kazim é o que parece sobrar um pouco, mas contribui para a profundidade do elenco.
E Jadson dispensa apresentações. Foi, ao lado de Renato Augusto, o craque do Corinthians no título brasileiro de 2015 e uma das principais perdas do desmanche que ocorreu depois do campeonato. Aos 33 anos, ainda tem lenha para queima e pode ser o pilar em torno do qual Fábio Carille montará o seu time.
Os reforços somam-se a outros jogadores talentosos que já estão no elenco, como Rodriguinho, Marlone, Guilherme, Giovanni Augusto, Fágner, Guilherme Arana e Marquinhos Gabriel. Carille, agora, tem que transformar todas essas peças em um grande time, e sua missão ficou muito mais fácil agora que não tem mais que lidar com a paixonite corintiana por Drogba.