‘Não tem políticos’: Diretor traz principal diferença entre Red Bull Bragantino e outros clubes que trabalhou
Em entrevista exclusiva à Trivela, Diego Cerri projeta o 2026 do Massa Bruta e detalha como é trabalhar no clube
Diego Cerri está prestes a completar três anos como diretor executivo de futebol do Red Bull Bragantino. Três anos em que ele pôde ver de perto e viver na pele as diferenças de se trabalhar em um clube empresa que, de fato, funciona como uma empresa.
O executivo, aliás, fala com propriedade sobre o contraste que encontrou no Grupo Red Bull, em relação aos clubes associativos em que trabalhou por quase uma década antes de chegar ao Massa Bruta.
Com longas passagens por Grêmio, Ceará e Bahia, Cerri não se opõe ao modelo associativo. Mas ele deixa claro que trabalha com mais autonomia e liberdade para seguir os planos de gestão, sem a interferência de agentes políticos no ambiente do clube.
— A minha atuação aqui no Red Bull é diferente, porque aqui a gente não tem a presença de políticos dentro do clube. Eu saio com a autonomia total para desenvolver o trabalho todo e já com as minhas condições financeiras. Eu sei mais ou menos o que eu vou ter que fazer a cada ano, e aí é muito mais fácil de trabalhar com tudo isso posto. Eu não tenho problema nenhum com clube político, mas desde que o clube reme todo para a mesma direção, porque senão acaba atrapalhando.
— Se você também começa a trabalhar de uma certa forma num populismo, vamos dizer, você tem que toda hora dar satisfação, tem que fazer alguma coisa que às vezes nem é o que você acredita, mas é o que tem que fazer naquele momento para acalmar o ambiente, aí você muitas vezes se deixa de lado o que você podia fazer de estruturação do clube pensando na consolidação de um projeto e em colher frutos sempre mais na frente — Diego Cerri.

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Cerri conversou com a reportagem da Trivela em uma longa e sincera entrevista às vésperas do final da temporada de 2025 para o Red Bull Bragantino. Sem fugir das respostas, o executivo passou a limpo o ano do Massa Bruta e também projetou o que será o 2026 do clube.
Mas mais do que isso, o dirigente traçou um panorama de como é trabalhar para um dos maiores grupos empresariais do mundo com braços no futebol. As diferenças passam por questões administrativas e também desportivas e escancaram um abismo de gestão entre um clube empresa organizado e (alguns) clubes associativos do futebol brasileiro.
Principais pontos da entrevista:
- Desenvolver a base e revelar jogadores são as principais metas do Bragantino;
- “Inflação” do mercado no futebol brasileiro tornou clube menos competitivo;
- Klopp trabalha para desenvolver e identidade comum a todos os clubes do grupo;
- Clube ambiciona títulos, mas sabe que conquista não mudará patamar;
- Clube quer dar salto a partir da conclusão da nova Arena
- Meta de vendas do Bragantino em 2026 será de 23 milhões de euros.
Confira a entrevista com Diego Cerri
Avaliação da temporada 2025
A gente fez o campeonato inteiro dentro da primeira página, que é o nosso objetivo. Ficar na primeira página, em torno do décimo lugar. Essa é uma meta inegociável. Dentro disso, do que a gente tem de convicção no trabalho que a gente desenvolve, a gente sempre vai lutar para chegar mais alto. Mesmo que a questão de investimento direto na equipe… A nossa é muito abaixo da elite do futebol brasileiro. Em termos de estrutura física, temos um centro de treinamento dos melhores das Américas, que ficou pronto, foi recém inaugurado. Em termos de estrutura física, tecnologia, ideias, modernidade de gestão, estamos à frente. Agora, investimento direto que a gente tem na equipe, não.
O Grupo Red Bull tem uma expectativa diferente do clube Red Bull Bragantino em termos esportivos?
Na verdade, a gente fica sempre muito próximo. Um dos responsáveis diretos pelo futebol global é o Mário Gomez. E o Klopp também, que encabeça o processo do futebol global. Nas nossas discussões, tendo por base tudo que a gente tem à disposição aqui, o investimento, a nossa folha salarial, quanto a gente tem de orçamento para a contratação de atletas e também o que a gente tem de meta de venda de atletas, que é muito agressiva. No ano que vem, por exemplo, a gente tem uma meta de 23 milhões de euros de venda de atletas.
De 2020 para cá, houve um crescimento absurdo no investimento dos clube. E a Red Bull que iniciou esse processo lá em 2020, naquela época, tinha uma folha e um valor para o investimento muito competitivo, muito bom no mercado. A gente seguiu com aquele mesmo valor, só que todos os outros clubes subiram.
— Cada projeto tem os seus objetivos. O do Brasil é permanecer na Série A. Procurar ficar na primeira página e desenvolver em paralelo a base, ser a equipe mais jovem do Campeonato Brasileiro, cumprir as metas de venda. E em paralelo, ainda continuar com os investimentos estruturais, que foi o centro de treinamento, e a nova arena agora, que deve ficar pronta em quatro anos — Diego Cerri.
O próximo passo do projeto é formar esses jogadores em casa?
Até 2020, 2021, com um investimento de 3, 4, 5 milhões de euros, você trazia jogadores que estavam iniciando uma carreira nas equipes profissionais dos clubes grandes do Brasil, com certo destaque. Você citou o exemplo do Praxedes. Teve o Helinho e outros jogadores. O Arthur, por exemplo. Ele veio para o Red Bull a um custo de 5 para 6 milhões de euros. Você imagina hoje um jogador dos principais times do país, nessa faixa etária, sendo um dos principais destaques do Campeonato Brasileiro, mínimo que se pede hoje, de 15 a 20 milhões de euros.
A gente não tem mais como competir nesse mercado, dado que o nosso investimento não é compatível com isso. E só existe uma solução para médio e longo prazo, que é a gente conseguir formar em casa esses jogadores. E que a gente possa, no mercado, atuar pontualmente, principalmente com jogadores que possam ser uma espinha dorsal para a equipe, porque o Campeonato Brasileiro é muito competitivo também.
O Bragantino não faz muito foi vice da Sul-Americana. É algo que se cobra internamente para dar esse “salto”?
Hoje o Red Bull Bragantino não está pronto para ser campeão brasileiro. Enquanto a gente não mudar um pouco esse investimento, enquanto a nossa base não se desenvolver muito, nós não vamos ser candidatos ainda ao título. Uma Copa em que você tem jogos eliminatórios é o jeito mais viável de uma equipe com o nosso tipo de investimento, e tantas outras no Brasil, poderem aspirar a ganhar uma competição importante. O Red Bull Bragantino bateu na trave com a Sul-Americana em 2021, foi um ano muito bom aqui também.
Eu não acho que isso seja determinante para mudar um clube. Eu não acho que o clube, chegando em uma final de Sul-Americana, ou mesmo sendo campeão, muda em virtude de uma vez você chegar ali. Acho que a consistência é que faz o clube ir mudando aos poucos e ganhando mais porte. O campeonato principal que a gente tem é o brasileiro. Seria uma conquista. E como profissionais do esporte, a gente gostaria muito e tem a aspiração de conseguir conquistar uma Copa como essa e, ao mesmo tempo, seguir crescendo o clube de uma maneira sustentável.
— Mesmo uma conquista como essa, não vai fazer com que o clube mude inteiro. É isso que eu quero dizer. A gente tem que continuar se preocupando com crescimento, sustentável e consistente, mas também não faz mal nenhum você ter uma conquista como essa, que é a coisa que a gente sempre sonha também — afirma Diego Cerri.
Isso é uma imagem de que, às vezes, aqui é um clube frio. O fato de ter uma boa administração e um planejamento consistente, não significa que nós também não sejamos profissionais do esporte e que aspiram conquistas, porque isso é a coisa que a gente mais prega aqui, a lavagem cerebral que a gente faz. A minha conversa com os jogadores e com a comissão técnica é em cima de conquista de título, de performance, de superar metas esportivas.

Diferenças de trabalhar em um clube empresa, na comparação com um clube associativo
A minha atuação aqui no Red Bull é diferente, porque aqui a gente não tem a presença de políticos dentro do clube. Eu sou o diretor esportivo-presidente e eu tenho um diretor administrativo-presidente também. Nós dois tocamos o clube junto com a diretoria que fica fora do Brasil. A gente dialoga, estabelece as premissas, o que a gente tem que ter de resultados na parte esportiva, de metas na parte financeira. Então, eu saio dessas reuniões em que a gente tem a apresentação do que foi o ano anterior e a do que vai ser o ano seguinte.
— Na minha área esportiva, eu saio com a autonomia total para desenvolver o trabalho todo e já com as minhas condições financeiras, o que eu tenho para folha de salário, o que eu tenho para contratação de atletas, como é que vai ser essa montagem, o que eu tenho de meta de venda. Então eu sei mais ou menos o que eu vou ter que fazer a cada ano, e aí é muito mais fácil de trabalhar com tudo isso posto — Diego Cerri.
E eu não tenho problema nenhum com o clube político, mas desde que o clube reme todo para a mesma direção, porque senão isso acaba atrapalhando. Se você também começa a trabalhar de uma certa forma num populismo, vamos dizer, você tem que toda hora dar satisfação, tem que fazer alguma coisa que às vezes nem é o que você acredita, mas é o que tem que fazer naquele momento para acalmar o ambiente, aí você muitas vezes se deixa de lado o que você podia fazer de estruturação do clube pensando na consolidação de um projeto e em colher frutos sempre mais na frente.
Estrutura do Red Bull Bragantino dá mais autonomia?
É verdade. Agora nós estamos num processo de estruturação do trabalho para 2026. Agora a gente tem falado muito sobre metodologia, sobre como as equipes em geral do Red Bull vão jogar. Pelo menos no que sejam pontos cruciais e inegociáveis da metodologia do Red Bull. E nisso, o Klopp tem um papel fundamental porque é a área dele. É o que ele tem que desenvolver e vai começar a ser feito cada vez mais a partir de agora. Nós estamos inseridos nesse contexto, nesse processo, sendo um dos braços do projeto aqui no Brasil.
E o que a gente quer no final das contas? A gente quer ter uma identidade. Em que pese que cada país pode ter um tempero autêntico, cultural levando em conta tudo que se passa dentro daquele ambiente e a liga que joga. Porque eu não posso comparar o Brasil aqui com a Áustria, que são realidades totalmente diferentes. Agora, tem coisas que não podem ser diferentes, que têm que ser no mínimo parecidas. Que você, de fora, olha e fala, bom, o Red Bull tem essa característica. Aqui no Brasil é assim, é assim na Europa também, na equipe do Japão, na equipe dos Estados Unidos.

Critérios para contratações
— No final das contas, praticamente a diretriz é: se o jogador tem ali até os seus 23 anos, eu consigo investir um pouco na parte financeira, dentro do que eu tenho de orçamento para fazer a contratação. E normalmente eu te digo que não tem um obstáculo para isso. Tem uma liberdade muito grande dentro disso — Diego Cerri.
Se um dia, eu virar e falar, poxa, quero trazer um cara já mais experiente… Vou te dar um exemplo: o Carlos Vinicius é um jogador que praticamente colocou o pé aqui no ano passado, no momento que a gente estava precisando do centroavante. Um bom jogador já não com o perfil do Red Bull de idade, mas foi discutido isso com o global, e a gente chegou no consenso que valia a pena naquele momento. Foi uma exceção.
Vai acontecer toda hora isso? Não, a cara do projeto não é essa, mas em alguns momentos a gente precisa disso, e eu tenho que ter um feeling aqui dentro de perceber quando a gente precisa ter um cara um pouco mais experiente para dar um equilíbrio na equipe. Eu tenho que ter esse feeling e uma certa liberdade para poder atuar dessa maneira porque eu estou aqui dentro, estou sentindo o dia a dia vendo como as coisas estão, então isso tem sido bastante respeitado também.

O Bragantino terá orçamento maior para 2026?
Uma coisa que já foi uma conquista é que eu argumentei que a gente precisava de um pouquinho mais de verba para investir na nossa categoria de base, e eu consegui isso. Esse ano aqui a gente já investiu um pouco mais, inclusive trazendo alguns jogadores já para o Sub-20, mais próximos do profissional. A gente já conseguiu um investimento maior para as categorias de base que eu acho que estão ajudando a impulsionar esse trabalho.
No profissional, o nosso investimento vai continuar o mesmo por enquanto. A gente não tem ainda uma perspectiva de aumentar muito esse investimento para agora. As nossas metas vão continuar parecidas. Aqui no Brasil, falando de profissional e de primeira divisão, o Campeonato Brasileiro é muito competitivo, é muito difícil.
Quando acabar a construção do estádio, os investimentos que estão sendo feitos, que são investimentos em estrutura, pode ser que tenha um pouco mais também, nesse momento, de verba para a gente começar a ter investimento maior no futebol e aspirar coisas maiores.
E a verba para o ano que vem não vai ser aumentada, ela vai ser essa. E a gente tem que dar um passinho à frente para ir crescendo e desenvolvendo o clube a cada ano. E, de repente, se tudo der certo, dar esse salto quando tiver o estádio pronto, toda a estrutura aí completa. Aí, de repente, dá para dar esse salto mesmo.



