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Paulo Bento é apenas mais uma vítima da falta de planejamento do Cruzeiro

A passagem de Paulo Bento pelo Cruzeiro acabou, depois de menos de três meses, sem que ele desse um sorriso em público. Não tinha mesmo motivos para ficar feliz. Enfrentou uma maratona de 17 partidas em 75 dias, média de duas por semana, uma semana atrás da outra. Teve que entender o futebol brasileiro e montar o time ao mesmo tempo, durante o campeonato, com jogadores sendo contratados e estreando toda hora. Se o desempenho em campo não foi tão ruim, os resultados foram: seis vitórias, apenas uma em casa pelo Brasileirão, três empates e oito derrotas.

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O Cruzeiro é o penúltimo colocado e teme entrar naquele redemoinho negativo do qual um clube grande tem muita dificuldade de sair. Na tentativa de buscar uma reação, em vez de mostrar convicção na escolha que tomou praticamente outro dia, foi outra vez na solução mais fácil: trocar de técnico. E, assim, mais uma tentativa interessante de trazer um profissional diferente para o futebol brasileiro termina sem nem começar.

O questionamento, no entanto, é: o que a diretoria do Cruzeiro esperava? Um feiticeiro? Paulo Bento foi anunciado em 12 de maio. Ainda observou de longe a derrota para o Coritiba, dois dias depois, e estreou no banco de reservas contra o Figueirense, no dia 21 daquele mês. Começou a aprender todas as peculiaridades do futebol brasileiro, como o ritmo acelerado e intermitente de dois jogos por semana, o que é mais raro em Portugal e na Europa. O Porto, com Champions League, Liga Europa, Copa da Liga e Taça de Portugal, teve 17 semanas cheias na última temporada inteira. No Cruzeiro, só com Brasileirão e na Copa do Brasil, Paulo Bento enfrentou sete.

Cenário que se agrava com nossa resistência cultural, de dirigentes, torcedores e imprensa, ao rodízio de titulares e porque, diferente das primeiras fases das taças nacionais de Portugal, o Cruzeiro não pode enfrentar o Vitória com um time misto ou reserva e ter certeza (ou quase) que sairá vencedor. E se as taças são títulos secundários na Europa, viram muitas vezes o principal objetivo da temporada no Brasil, graças ao prêmio da vaga na Libertadores.

Requer tempo para os jogadores acostumarem-se a uma nova metodologia de trabalho e também para Paulo Bento conhecê-los profundamente, por mais que tivesse um conhecimento superficial do elenco do Cruzeiro. Precisa aprender outras peculiaridades do futebol brasileiro, como a logística de longas viagens. No final de maio, o Cruzeiro jogou no Recife, na quarta-feira, em Belo Horizonte, no sábado, e em Brasília na quarta seguinte. Um deslocamento total de 5.400 kms em uma semana, o suficiente para ir de Lisboa até a cidade do Porto e voltar nove vezes.

Tudo isso para dizer que sempre foi claro que Paulo Bento precisaria de um tempo de adaptação. Mas ele foi vítima da confusão que impera na diretoria celeste, que demitiu Deivid, em 24 de abril, e tinha apenas dois jogos mais tranquilos de Copa do Brasil até o começo do Brasileirão, mas anunciou seu novo treinador dois dias antes da primeira rodada. Queimou um período que seria essencial para o português se ambientar por aqui.

Foi apenas mais uma decisão ruim do comando do Cruzeiro, que as vem colecionando desde que demitiu Marcelo Oliveira, no meio do ano passado. A contratação de Luxemburgo era uma tragédia anunciada. E, se acertou com Mano Menezes, errou ao apostar em Deivid sem a convicção de que ele poderia fazer um bom trabalho. Ou, pelo menos, com uma convicção tão frágil que não aguentou a eliminação na semifinal do Campeonato Mineiro.

A formação do elenco é um trabalho eternamente inacabado. Sóbis e Edimar estrearam na 14ª rodada, Rafinha, Ábila e Ezequiel, na 15ª. Denilson foi apresentado na última sexta-feira e ainda nem jogou. Difícil montar um time com jogadores chegando a todo momento. E, às vezes, até mesmo saindo. Allano era bastante utilizado pelo português – até exageradamente, segundo alguns críticos – e foi cedido por empréstimo para o Bahia. Se ele via o jogador como peça importante, mesmo que estivesse errado, a sua saída não é exatamente uma demonstração de respaldo da diretoria. E ainda tem as lesões: no começo de julho, Mayke, Dedé, Alisson, Alex, Élber, Judivan, Marciel e Marcos Vinícus estavam fora de combate.

A dúvida na hora de considerar a demissão do treinador é se o time mostra sinais de que o trabalho dará certo. E o Cruzeiro mostrou. Teve alguns ótimos momentos, como a vitória sobre o Atlético Mineiro, no Independência, e sobre o Palmeiras, líder do Brasileiro, no Mineirão. Goleou a Ponte Preta no Moisés Lucarelli, onde a Macaca só perdeu um outro jogo, para o Flamengo. De Arrascaeta teve ótimos momentos atuando sob o seu comando.

E mesmo jogos em que o time foi derrotado ou terminaram em empate, não foi jogando terrivelmente mal. Muitas vezes, atuou até mesmo bem, mas sofreu com frequentes panes defensivas – o que está acontecendo com o Bruno Rodrigo? – e com a ineficiência dos atacantes. A principal pauta da última entrevista coletiva de Paulo Bento como treinador do Cruzeiro, depois da derrota para o Sport, no domingo, foi sobre o pé torto do ataque da Raposa, que chutou 30 vezes a gol, acertou 11 e só marcou uma vez. O português respondeu que a única solução para o problema era continuar trabalhando finalizações para buscar mais eficácia.

Como Bento também disse, uma das tarefas mais difíceis de uma equipe é criar oportunidades, e isso o Cruzeiro está fazendo. É o terceiro time que mais chuta a gol no Brasileiro (média de 15.1 por jogo), o quarto que mais acerta as finalizações (5.1) e o quinto que mais arremata de dentro da área (7.3). Tem o terceiro índice de posse de bola (53,5%) e o sexto de passes certos (80%). A missão é transformar isso em gols e vencer os jogos, e obviamente faltam ajustes para concretizá-la, mas o técnico não pode colocar a bola dentro do gol sozinho.

O português cometeu erros? Provavelmente, considerando que eles fazem parte do processo de montagem de qualquer time – e que ninguém está isento de cometê-los. A insistência com Allano foi bastante criticada pela torcida. Suas substituições nem sempre foram as mais astutas, e é seu trabalho fazer com que os jogadores mantenham a concentração para evitar os apagões do sistema defesensivo. A maioria dos problemas, porém, é inerente a todo começo de trabalho e pode ser corrigido com o tempo, um luxo que Paulo Bento não teve no Cruzeiro, graças à falta de organização e planejamento da diretoria do clube.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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