Brasil

Sob risco de fechar as portas, Paraná tenta se reerguer com apoio impressionante de sua torcida

Na segunda divisão do Campeonato Paranaense, Tricolor da Vila Capanema tem a nona maior média de público do futebol brasileiro em 2024

Uma das sensações do futebol brasileiro na década de 1990, quando foi pentacampeão paranaense e campeão da Série B nacional, o Paraná Clube vive o momento mais delicado de sua história de 34 anos. Uma sequência de rebaixamentos fez com que, de 2018 a 2022, o Tricolor da Vila Capanema saísse da Série A do Campeonato Brasileiro para não ter calendário nacional, além de estar na segunda divisão estadual.

Em 2023, o Paraná entrou em campo apenas nove vezes, e sequer conseguiu passar da primeira fase da Divisão de Acesso do Campeonato Paranaense. Além disso, com dívida total na casa dos R$ 174 milhões, o clube teve homologada pela Justiça a recuperação judicial, que precisa começar a pagar em setembro.

Para eventual migração para a SAF e/ou a chegada de investidor que possibilite a quitação da dívida, os atuais dirigentes do Paraná sabem que necessitam de resultados de campo urgentemente.

— É um momento extremamente delicado pela necessidade do clube de se reerguer esportivamente e, automaticamente, também acaba de alguma forma atingindo a parte financeira e as possibilidades de autossustentação do clube, seja ele em modelo associativo, seja ele em modelo de SAF. A gente entende e sabe da responsabilidade que tudo isso passa. O primeiro passo acaba sendo o acesso à Série A paranaense — reconhece Carlos Bonatelli, gerente de futebol do Paraná, em entrevista exclusiva à Trivela.

Carlos Bonatelli, gerente de futebol do Paraná. Foto: Nícolas Wagner/Trivela

Paraná lançou campanha de marketing para convocar sua torcida

Para que isso aconteça, o clube também tem consciência da importância da torcida paranista. Por isso, antes da segunda divisão estadual de 2024 começar, foi lançada expressiva campanha de marketing, com o lema ‘o coração tricolor vai voltar a bater’ e a hashtag #ChoquePRC.

O vídeo de divulgação da campanha, produzido por profissionais identificados com o clube, faz analogia do Paraná a um paciente que morre. Mas, por meio de choques, o coração volta a bater.

Dois primeiros jogos foram na Ligga Arena e no Couto Pereira

Os ‘choques’ em questão seriam o apoio da torcida nos três primeiros jogos do Paraná como mandante na Divisão de Acesso. A confiança em grandes públicos era tamanha que a diretoria do Tricolor Paranaense levou as duas primeiras partidas para a Ligga Arena e para o Couto Pereira, estádios com maior capacidade do que a Vila Capanema.

— Quando estávamos ainda em uma fase de elaboração da campanha, chegamos à conclusão de que a mobilização seria muito além da capacidade de público. Então já trabalhávamos com a possibilidade internamente com os jogadores, dos dois primeiros jogos não serem na Vila Capanema. Os atletas já tinham plena ciência algumas semanas antes de iniciarmos a campanha, porque sabíamos que precisávamos transmitir esse clima que seria criado, e toda essa mobilização — conta Bonatelli.

A estratégia deu muito certo. 36.981 tricolores estiveram no estádio do Athletico-PR na estreia com vitória por 1 a 0 diante do Nacional, no dia 4 de maio; 24.362 no estádio do Coritiba na goleada por 3 a 0 sobre o Apucarana, no dia 11; e 15.871 no triunfo por 1 a 0 em cima do Laranja Mecânica, no dia 25, no retorno do público à Vila Capanema depois de 657 dias.

Paraná tem a 9ª maior média de público do futebol brasileiro em 2024

A expressiva presença da torcida nessas três partidas fazem do Paraná o nono time com maior média de público no Brasil em 2024, mesmo disputando a segunda divisão estadual e sem série nacional. O Tricolor da Vila está à frente do rival Coritiba e de gigantes do futebol brasileiro.

Top-10 médias de público do futebol brasileiro em 2024

1º – Flamengo – 48.980 pagantes

2º – São Paulo – 46.546 pagantes

3º – Corinthians – 40.754 pagantes

4º – Atlético-MG – 31.230 pagantes

5º – Bahia – 30.927 pagantes

6º – Internacional – 30.653 pagantes

7º – Cruzeiro – 25.676 pagantes

8º – Athletico – 25.481 pagantes

9º – Paraná Clube – 25.441 pagantes

10º – Fluminense – 25.240 pagantes

Participação da torcida impressiona dirigente e o técnico Tcheco

— Eu já tinha um pouco do espírito do torcedor paranista, já conhecia aquilo que ele era capaz de fazer, a gente tentava expor para os atletas aquilo que eles poderiam encontrar, mas sem dúvida nenhuma, vai totalmente fora da curva. Toda essa mobilização, em uma segunda divisão estadual, mostra a força da instituição, mostra a grandeza da sua torcida — destaca Bonatelli, que já havia trabalhado no clube em outras duas oportunidades.

A resposta da torcida do Paraná também é saudada pelo técnico Tcheco, outro que conhece bem a instituição. O ex-meia, com passagens marcantes por Coritiba e Grêmio, iniciou sua carreira no Tricolor da Vila.

— O torcedor, não só aqui no Paraná, mas em todas as equipes grandes do futebol brasileiro, é o maior patrimônio do clube. É o que mantém o clube ativo ainda. Posso te falar isso tranquilamente. Eu acho que se fosse outro clube… às vezes surge como um cometa e desaparece da mesma forma, são clubes que vivem aquele momento, mas não têm torcida e acabam saindo do foco. E não é o caso do Paraná. É um clube em que sua maior força para voltar a subir é a torcida — ressalta à Trivela.

Paraná tem meta de chegar a 100 mil torcedores somente na 1ª fase

Com 77.214 na soma dos três primeiros jogos, a meta do Paraná é chegar a 100 mil torcedores nos cinco jogos como mandante na fase classificatória da Divisão de Acesso paranaense. Bonatelli tem confiança de que a marca será atingida.

— Acredito que a gente tem a capacidade de bater essa meta. Essa meta para muitos soava como absurda. Claro que o resultado de campo impacta na presença de público também, mas a gente vê a torcida muito mobilizada e a acreditamos que esse número vai ser alcançado — projeta.

Além do apoio para a equipe dentro de campo, naturalmente a presença maciça da torcida impacta positivamente nos cofres do clube. Somadas, as rendas dos três primeiros jogos do Paraná como dono da casa nesta temporada ultrapassaram R$ 3,3 milhões.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas Wagner

Gaúcho, formado em jornalismo pela PUC-RS e especializado em análise de desempenho e mercado pelo Futebol Interativo. Antes da Trivela, passou pela Rádio Grenal e pela RDC TV. Também é coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.
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