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‘WTorre vai ter que pagar’: idealizador do Allianz Parque, ex-presidente Belluzzo não vê saída para a construtora seguir com calote

Na visão de Luiz Gonzaga Belluzzo, dirigente que costurou o acordo com a WTorre, não há saída para a companhia

Luiz Gonzaga Belluzzo, 81, calcula que não pisa no Allianz Parque há cerca de oito meses. Presidente do Palmeiras entre 2009 e 2011, o dirigente segue fanático pelo clube e assiste a todos os jogos – sozinho, porque os filhos se incomodam com o nervosismo dele durante as partidas. Mas tem preferido o sofá às cadeiras do estádio que ajudou a idealizar.

Dois domingos atrás, por exemplo, ele se levantou a desligou a televisão quando a Supercopa Rei terminou empatada no tempo normal, no Mineirão. Assim como a maior parte dos palmeirenses, ele já imaginava um resultado negativo na disputa por pênaltis.

É também de longe, e como mero espectador, que o advogado, economista e professor emérito da Unicamp, interluctor de todos os presidentes recentes do Brasil, exceto Bolsonaro, acompanha o imbróglio entre o Palmeiras e a WTorre. Beluzzo não tem contato com ninguém da construtora desde a morte de Walter Torre, em dezembro de 2020, com quem mantinha uma relação muito amigável.

— O Walter Torre tinha paixão pelo projeto do estádio e foi se apaixonando mais com o tempo — disse ele, em entrevista exclusiva à Trivela.

Pelo lado do Palmeiras, tampouco há contato sobre a questão. Embora a sua corrente política, à qual pertence o quarto vice-presidente Tarso Gouveia, seja da base aliada de Leila Pereira, Belluzzo não opina sobre o tema. Algo que ele prefere que siga assim.

— Agora, eles que cuidem — diz ele.

“Palmeiras precisava de um salto”

Allianz Parque, estádio do Palmeiras, tem sido centro de polêmica por conta da má qualidade de seu gramado sintético

Mas, se fosse questionado pela atual presidente do clube, Belluzzo, educadamente, discordaria da mandatária. Leila afirmou que o Allianz foi um “péssimo negócio”, em entrevista concedida ao ge, em junho do ano passado.

— O Palmeiras não colocou nenhum dinheiro, nem na construção do estádio, nem na reforma e construção dos prédios do clube, ao contrário do Corinthians, por exemplo. O Palmeiras precisava de um salto para geração de receitas, e esse foi o melhor caminho. O valor do acordo é imensurável — afirma o ex-dirigente.

— É nesse sentido que eu já afirmei antes que o contrato é leonino a favor do Palmeiras. O clube não investiu nada, apenas cedeu a superfície para exploração comercial por um tempo determinado (30 anos). E eu não enganei ninguém. O Walter Torre (fundador da construtora) tinha tudo bem calculado, sabia bem o que estava fazendo e o que tinha de fazer para recuperar o investimento.

Contudo, Belluzzo reconhece que, na época da celebração do contrato, alguns aspectos não puderam ser vislumbrados por todos os envolvidos. E nem havia muito como.

— Pensando no que está acontecendo hoje, eu talvez me apegasse mais à algumas questões relativas à obrigatoriedade de realização de manutenção no estádio. Embora, na última vez em que lá estive, tenha visto um estádio em bom estado de conservação — diz ele.

Quando fala de conservação, o economista não se refere ao gramado sintético. De “composto termoplástico” e “cortiça”, embora versado em diversos temas, como filosofia, administração pública e política externa, Belluzzo reconhece não entender nada.

— O que me parece claro é que não teria como haver grama natural com o volume de eventos realizados por lá. Um tempo atrás (nota da reportagem: 2018), o Allianz Parque foi a arena com mais eventos no mundo. Teria de haver uma troca de grama por semana — diz ele.

— Mas eu também não sei se teria havido tantos shows no fim do ano passado, se o clube e a empresa tivessem uma relação melhor, de mais parceria, de sentar juntos e avaliar o calendário e dar mais espaço entre os eventos. Se bem que, com o calendário do futebol brasileiro, é difícil fazer qualquer tipo de planejamento — reconhece.

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“Vão ter que pagar”

Allianz Parque durante enrega da taça do Brasileiro de 2022 (Goto: Cesar Greco/Palmeiras/By Canon)

Quando disse que o Allianz Parque era um péssimo negócio, Leila falava do atraso nos repasses de percentuais arrecadados com a exploração do estádio para além do futebol – que é 100% do Palmeiras.

A cada cinco anos, aumenta em 5% o valor a que o clube tem direito sobre tudo que a WTorre ganha com o Allianz – lojas, restaurantes, naming rights, etc.

Hoje, o percentual já está em 10%. Mas, desde 2015, a construtora não faz repasses. O Palmeiras calcula a dívida em cerca de R$ 160 milhões.

— Eu não tenho nenhuma dúvida de que eles vão ter de pagar. A única razão para eles ainda não terem pago é o processo da arbitragem — afirma.

Há quase oito anos, Palmeiras e WTorre discutem, extrajudicialmente, em um processo mediado pela FGV, maneiras de chegar a acordos sobre alguns pontos, como o número e o local das cadeiras que a construtora tem direito de negociar diretamente para torcedores, pelo programa “Passaporte Allianz Parque”.

— Não é fazer uma crítica ao Paulo Nobre, mas os juristas que consulto sobre o tema apontam que a abertura do processo de arbitragem, que ele iniciou, é o que permite à companhia seguir postergando os pagamentos. Abriu-se uma porta para que eles também dissessem que o clube devia dinheiro a eles e, desse modo, eles se protegem de sanções— explicou.

O entendimento de Leila Pereira é diferente. Tanto é, que o Palmeiras entrou com um processo na esfera cível, cobrando a construtora. O clube chegou a conquistar o direito de a WTorre ter de comprovar capacidade de pagamento da dívida, mas a empresa conseguiu derrubar a decisão.

— Hoje, o Allianz Parque, tenho certeza, é o maior gerador de receita da WTorre. Eles podem até empurrar esse pagamento, mas está tudo em contrato, a dívida é confessa. Em algum momento, a WTorre vai ter que pagar, mesmo que fazendo algum acordo, para continuar gerando receita — acredita Belluzzo.

“Orgulho, não”

Belluzo, em seu escritório, no bairro de Pinheiros (Foto: Diego Iwata Lima/ Trivela)

Indagado pela reportagem se ainda entende que o Allianz Parque foi o melhor caminho para o clube, Belluzzo garante que sim. Mas nega ter orgulho sobre o tema.

— Orgulho, não. Mas sei que foi ótimo para o Palmeiras e que eu trabalhei para que ele acontecesse e atendesse, do melhor modo possível, aos interesses do clube — diz, com a autoridade de quem também foi o principal responsável para que a Parmalat chegasse ao Alviverde nos anos 1990.

Mas essa é outra história, de outro acordo. Que, assim como acontece com a WTorre, entre imbróglios e outras questões, ajudou o clube conquistar títulos: uma Copa Libertadores (1999), dois Campeonatos Brasileiros (1993-94), uma Copa do Brasil (1998) e três Campeonatos Paulistas (1993-94 e 1996), entre outros.

Como presidente, Belluzzo não conquistou nenhum troféu, é verdade. Mas basta conhecer a história do Palmeiras para rapidamente se concluir que as taças levantadas nas gestões Mustafá Contursi (1993 a 2005), Affonso Della Monica (2005 a 2009), Arnaldo Tirone (2011 a 2013), Paulo Nobre (2013 a 2016), Mauricio Galiotte (2016 a 2021) e Leila Pereira (desde 2022) foram, em muito, impulsionadas pelas mãos de Luiz Gonzaga Belluzzo.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.

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