Palmeiras sai da liderança, mas tem que se preocupar mesmo é com o paradeiro do seu futebol
O Campeonato Brasileiro tem um novo líder. Na base da sua indefectível regularidade, o Corinthians assumiu a primeira posição. O Palmeiras, que passou nove rodadas na ponta, caiu para terceiro, depois de perder para o Botafogo no último domingo. Com mais da metade do torneio a ser disputada, a tabela não é irrelevante, mas tem pouco peso neste momento. O palmeirense tem que se preocupar mesmo é com a resposta da seguinte pergunta: onde foi parar o futebol do seu time?
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O Palmeiras foi a melhor equipe do primeiro terço do Campeonato Brasileiro, tanto na pontuação, quanto no futebol apresentado em campo. No entanto, teve uma acentuada queda de rendimento nas últimas quatro rodadas, o que naturalmente se traduziu em resultados. Conquistou quatro pontos em 12, o pior desempenho entre os postulantes ao título: Santos (10), Flamengo (10) Atlético Mineiro (9), Corinthians (8) e Grêmio (7).
Não foi uma sequência fácil, com dois confrontos diretos em casa e um jogo no Beira-Rio, onde sempre teve dificuldades. Mas também não foi das mais difíceis. Se quiser conquistar o título, como o Palmeiras se propôs a fazer antes mesmo da primeira rodada, precisa superar obstáculos espinhosos. E o problema não foram os resultados, mas o futebol pobre, principalmente no sistema ofensivo, que vinha sendo um dos pilares da boa campanha – o Palmeiras ainda tem o melhor ataque, com 32 gols, empatado com o Santos.
Nessas quatro rodadas, marcou apenas três vezes: em uma cobrança de escanteio, em um rebote e, no que foi o mais próximo de uma jogada trabalhada, aproveitando a bobeada de William, sem a qual o gol de Erik provavelmente não teria saído. A defesa até que segurou bem a bronca, mas Cuca sabe que não pode contar sempre com ela. Ele não tem jogadores, não tem a filosofia, e muito menos monta a proteção necessária para vencer com base na defesa.
Precisa dos gols. E não é coincidência que Gabriel Jesus tenha atuado em apenas 90 desses 360 minutos. Ele é o artilheiro do Brasileirão e o fim da jogada ofensiva. O Palmeiras tem um bom elenco, mas ninguém que combine faro de gol com velocidade e habilidade como ele. Que entre em diagonal e ataque os espaços tão bem. Também não é coincidência que a contagem de Moisés nesse período seja apenas 103 minutos. Ele foi a grande sacada de Cuca, junto com Tchê Tchê, para solucionar a débil saída de bola do primeiro semestre: o meia com qualidade no passe que arma o jogo desde trás. O começo da jogada ofensiva.
Sem o pé e sem a cabeça do ataque, o Palmeiras sofre, mas os desfalques não são suficientes para explicar a queda de rendimento. O Santos ficou sem três jogadores, por causa da Olimpíada, e segue em forma, mesmo tendo um elenco menos profundo que o palmeirense. Há opções, o que nos leva aos próximos dois problemas: alguns jogadores passam por má fase técnica, e Cuca tem tomado decisões ruins.
Entre os que estão longe do desempenho apresentado no primeiro terço do Brasileiro, os que mais chamam a atenção são Róger Guedes, forçando muita jogada individual, Cleiton Xavier, que não consegue dar ritmo ao meio-campo, e Dudu, longe do seu melhor. Quando o time decai coletivamente, as individualidades seguem o mesmo caminho, mas, se Guedes foi uma surpresa e recebe desconto, os últimos dois são cobrados a assumirem a liderança técnica da equipe nos momentos difíceis.
Ainda não chegou ao ponto em que Dudu deveria ser reserva, embora tenha sido contra Internacional e Botafogo, mas Cuca poderia guardar a vitalidade de Guedes para o segundo tempo. Cleiton Xavier tem o luxo de ser o único capacitado para a função de armador, embora isso não seja tão importante se ele não conseguir exercê-la bem. Zé Roberto na lateral esquerda exige um esforço coletivo do time para suprir a falta de fôlego natural para um jogador de 42 anos e nem sempre isso funciona. Ele foi pego no contrapé no primeiro gol do Botafogo, mas Neílton o deixou comendo poeira.
E há a questão Lucas Barrios. Sem Gabriel Jesus, a estratégia de ter três atacantes rápidos na frente perde força, e Cuca indica mais tentativas com um centroavante. Mas Barrios, que é caro e, com todos seus problemas, melhor tecnicamente que os outros camisas 9 do elenco, tem jogado pouco. Contra o Botafogo, foi preterido entre os titulares por Leandro Pereira, que acabou de voltar ao Palmeiras e ainda não fez o bastante para furar a fila. Não marca um gol desde julho do ano passado. Lembrando que Cuca e Barrios trocaram indiretas pela imprensa.
O melhor momento recente do Palmeiras foi contra o Internacional, um jogo travado, que poderia ir para qualquer um dos lados e cujo resultado parece cada vez menos especial – o Colorado está há nove rodadas sem vencer. Se fez um bom primeiro tempo contra o Santos, foi muito mau no segundo. E, contra Botafogo e Atlético Mineiro, foi mal indiscriminadamente, com escassos lapsos de qualidade.
No decorrer de um campeonato tão longo, oscilar é natural. O Palmeiras, para continuar firme na briga pelo título, precisa mostrar que a má fase é realmente momentânea, minimizar os danos em termos de resultados e trabalhar os seus problemas – vale ver esta análise tática da ESPN Brasil – para que ela passe rápido.



