Brasil

Está tudo muito bem, mas todos no Palmeiras sabem que não dá nem para sonhar com derrota para o São Paulo

Palmeiras não pode se dar ao luxo de não encarar o Choque-Rei como uma decisão - ainda que a vida do time dependa pouco do resultado

Vaga garantida, melhor campanha geral do Campeonato Paulista, Aníbal Moreno jogando muito e o futebol do time se encaixando. A paz está reinando novamente na Academia de Futebol. Mas até o termoplástico removido do campo do Allianz Parque sabe que o time não pode perder para o São Paulo no domingo (3).

Não adianta tentar teorizar ou emplacar a ideia de que o jogo não vale tanto, pelo contexto. Primeiro porque Choque-Rei vale muito, em qualquer circunstância. Depois, porque a derrocada na Supercopa Rei, somada ao empate patético no Dérbi, tiraram do Palmeiras o direito de descartar esse resultado.

Para tranquilidade do palmeirense, a comissão técnica sabe disso. Nada que Abel e a legião portuguesa fazem é desprovido de planejamento, análise e avaliação estritamente racional. Mas, com o tempo, eles passsaram a entender que, na prática e no Palmeiras, há aspectos que burlam as questões, digamos, mais racionais.

O aprendizado veio na marra.

Racional demais

O plano estava traçado. Em 27 de novembro de 2021, o Palmeiras iria encarar o Flamengo, na final da Copa Libertadores, em Montevidéu. A decisão no Campeonato Brasileiro era poupar os titulares, faltando dez dias. Jogar completo, uma semana antes. E poupar, de novo, faltando quatro dias para a decisão.

O problema é que a tabela acabou fazendo com que o Verdão jogasse com os titulares contra o Fortaleza. E acabasse poupando diante do São Paulo, que corria risco altíssimo de rebaixamento.

O resultado foi o Palmeiras reserva praticamente salvando os tricolores da queda, em um Allianz Parque com mais de 35 mil torcedores, que lá estiveram para se despedir dos atletas que jogariam a decisão, além de ver o seu time afundar um arquirrival.

Na entrevista coletiva após aquele jogo, Abel bancou a decisão.

— Me pagam para tomar decisões difíceis. Era mais fácil jogar contra o São Paulo com o melhor elenco? Vocês estão é malucos. Eu sei o que estou fazendo. Vamos seguir o nosso plano, aconteça o que acontecer — disse.

Com essa derrota, Abel jogou uma tonelada de água fria no time e baixou o moral da torcida substancialmente. Até hoje, muita gente não engole a decisão que, somada à admiração dele por Telê Santana, fazem com que muitos palmeirenses e são-paulinos afirmem, categoricamente, que o português é torcedor do clube do Morumbis.

Também não foram poucos os que disseram que o técnico não soubera ler o momento e avaliar o peso que aquele jogo tinha no contexto histórico da rivalidade. Abel teria sido racional demais.

No livro “Cabeça Fria, Coração Quente”, Abel abordou o tema de novo, e repetiu que voltaria a tomar uma decisão semelhante contra um rivall, se preciso fosse. Disse que entendia sim o peso do clássico, já que há também muitos clássicos de peso em Portugal. Mas a verdade é que jamais tornou a fazê-lo.

Sorte da Portuguesa

Até houve Dérbis, Choque-Reis, confrontos com o Santos e com o Flamengo, nessa neo-rivalidade nascida do fato de os dois times brigarem pelos maiores títulos, em que uma peça ou outra foi preservada. Mas um time inteiramente formado por reservas, em jogos deste tamanho, nunca mais.

No último sábado, depois de bater o Mirassol por 3 a 1, ao falar sobre um causo do passado, de quando era técnico do Braga, ele assumiu:

— Eu sou, não muito, mas um bocadinho teimoso.

Mas a teimosia de poupar um time inteiro em um clássico, ele não voltou a ter. E é por isso que a tendência é o Palmeiras ter um time misto para reserva diante da Portuguesa, para ter força total contra o São Paulo. Que está longe de ter classificação assegurada para as quartas de final.

Sorte dos patrícios. E se alguém disser que Abel está a puxar a sardinha para o time da colônia de sua terra natal, aí sim, pouco importa.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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