Brasil

Abel tirou o próprio direito de ficar calado sobre pré-contrato para deixar Palmeiras

Técnico do Palmeiras precisa se portar com a mesma correção que exige de tudo e todos que o cercam

Abel Ferreira se notabilizou no Brasil por dois motivos. O primeiro e mais óbvio, por seu brilhantismo como treinador.

Nenhum outro técnico na história do Palmeiras e do esporte nacional ganhou dez títulos profissionais de futebol, sendo pelo menos cinco de primeira linha — dois Campeonatos Brasileiros, duas Copas Libertadores e uma Copa do Brasil — em quatro anos.

O segundo foi por se posicionar ativa e verbalmente contra diversos problemas esportivos e sociais do país que adotou. Disparou contra o calendário de jogos, fórmulas de disputa, qualidade dos gramados, arbitragem, formação dos atletas, educação dos jovens, imprensa, governantes, desigualdade social, preços de ingressos, a Arena Barueri e tantos outros temas.

Nada que ele considerou errado passou incólume por sua metralhadora. Além de um palestrino, Abel se mostrou também um palestrinha.

Um diapasão moral tão calibrado é uma ferramenta ótima para alguém numa posição de liderança e renome como ele. Abel é um exemplo para os jovens. Tanto para aqueles com quem ele trabalha no clube, quanto para os que o assistem na TV, nos estádios e nos smartphones.

Mas, ao mesmo tempo, tantas reclamações fizeram com que ele construísse para si um extenso telhado de vidro. Quem aponta tantos dedos, tem de estar preparado para ter tantos outros apontados em sua direção ao primeiro deslize.

Renovou o contrato

É por esse motivo que Abel Ferreira tem a obrigação de explicar o que significa a informação de que ele havia negociado um contrato com outro clube na época em que o Palmeiras lutava por uma vaga na final da Copa Libertadores.

Clube com o qual se comprometeu, segundo as alegações, em 15 de novembro do ano passado — quatro dias depois de o Palmeiras, heroicamente, assumir a liderança do Campeonato Brasileiro que viria a conquistar.

Estourou como uma bomba de efeito moral a informação de que a Fifa o havia intimado a se explicar sobre um documento com força de pré-contrato, assinado por ele com o Al Sadd, do Qatar.

Diz o clube que Abel, pela assinatura, se desligaria do Palmeiras em 27 de dezembro do ano passado. Algo que, como sabemos, não aconteceu. Em vez disso, Abel esticou seu contrato com o Verdão para dezembro do ano que vem.

O clima entre os palmeirenses, nas redes sociais, oscilou entre a incredulidade, a decepção e a revolta (também houve quem o defendesse).

Já os torcedores dos outros times esfregaram as mãos. Tal bomba pode significar um abalo na simbiose perfeita entre o Palmeiras e o seu técnico. Sem o qual, ninguém há de negar, o Alviverde cai muito de patamar.

Não tem direito de se calar

Pela imagem que construiu para si e, principalmente, pelo tanto de erros alheios que apontou, Abel perdeu o direito de se calar sobre o tema. Perdeu até o direito de falar sobre o assunto com superficialidade, na linha “Essa é uma questão para os meus advogados” e tal.

Abel deve ao Palmeiras, aos seus comandados — de quem cobra foco total — e, acima de tudo, aos palmeirenses que o idolatram, uma explicação clara e direta sobre o assunto.

Abel teria decidido sair e depois se arrependido? Teria avisado o Palmeiras e, posteriormente, resolvido ficar? Não teria avisado ninguém no Palmeiras, que foi surpreendido com a notificação da Fifa? Ou teria assinado um documento imaginando ser algo diferente? (De todas as hipóteses, essa é a mais implausível).

Seja o que for, Abel Ferreira tem a obrigação moral de deixar tudo em pratos limpos. Bem explicado. Claro. Com todas as escusas e justificativas bem colocadas.

Como ele certamente exigiria, se fosse pego de surpresa por um parceiro de trabalho em situação semelhante.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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