
As imagens seguem vivas na memória. Aquele gol contra a Argentina, no último lance do jogo. O drible fantástico com a camisa da Internazionale pela Liga dos Campeões. Os gols decisivos pelo Flamengo no Brasileirão de 2009. Esqueça-se das constantes quedas fora de campo: considerando apenas o que aconteceu entre as quatro linhas, Adriano foi um dos melhores jogadores de sua geração. Ou ainda é. Porque, mesmo que pareça caso perdido, a pontinha de esperança persiste, nele e em nós. Do retorno do velho Imperador, nem que seja na segundona do Campeonato Francês. De ver mais uma vez aqueles lances fantásticos do ótimo atacante. Por mais que isso pareça só uma autoenganação.
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Adriano acertou nesta sexta-feira o acerto com o Le Havre, que ocupa o meio da tabela da Ligue 2. Vai jogar no interior da França, escapando de todas as tentações do Brasil. Mais uma tentativa de recomeço, talvez a definitiva, do centroavante de 32 anos. Talento, como se sabe, ele tem de sobra. Na forma física dá-se um jeito, por mais que o Imperador tenha lutado contra a balança nos últimos anos. A questão maior é a própria cabeça, longe da Vila Cruzeiro. Tão adversária quanto todas as desconfianças que o cercam.
Nenhum outro craque se expôs tão humano quanto Adriano nos últimos anos. Se no passado os fantasmas perseguiram Heleno ou Garrincha, o Imperador se tornou uma versão moderna do gênio que se perde na vida. Teve os seus problemas pessoais, claro. Mas nem sempre sua felicidade esteve no campo de futebol. Por isso, o atacante abriu mão de ser ainda mais idolatrado para viver a sua vida, por mais condenada que seja por quem vê de fora. Para ele, foi o certo. Assim como agora parece certo insistir com o futebol mais uma vez.
As escolhas de Adriano dizem respeito apenas a ele mesmo. Se desperdiçou o sucesso na Europa, o carinho da torcida de seu clube de coração, milhões de euros na conta bancária ou a camisa 9 da Seleção em uma Copa do Mundo em casa, o problema é só dele. O centroavante escreveu uma grande história no futebol, que poderia ser muito maior. Resta agora olhar para frente. Adriano teve tempo suficiente para se reencontrar. Agora, depois das chances de reabilitação no Corinthians, Flamengo e Atlético Paranaense, quer reencontrar o seu futebol. E nem precisa ser o melhor.
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Na Libertadores deste ano, o Imperador pareceu apenas um rascunho do craque que fora um dia. Pesado demais, sem mobilidade alguma. Que, ainda assim, conseguia levar perigo nas poucas vezes em que tinha a bola nos pés por um pouco mais de tempo. Talvez seja impossível rever suas grandes arrancadas pela ponta esquerda, os dribles de efeito que conseguia dar, os chutes potentíssimos de fora da área. Porém, se reinventando como jogador, o atacante tenta voltar a brilhar de novo. Ainda que as chances de revermos isso sejam mínimas.
Tal qual Garrincha, Adriano é uma revisita a Macunaíma, uma versão futebolística moderna da história mais brasileira. A simplicidade errante minou o talento evidente. Mesmo assim, é muito difícil não se apegar ao anti-herói. Desejar o sucesso que parece perdido. Ele terá mais uma oportunidade de tentar. E quem gosta de futebol, de torcer. Por mais que Adriano tenha errado, se alguém se prejudicou, foi ele mesmo. Nós apenas perdemos a oportunidade de ver um grande jogador fazer aquilo que mais sabe: encantar o público.



