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Osório teve o mérito de ignorar os que defendiam a mesmice e ser fiel a si próprio

Juan Carlos Osório deixou o São Paulo do jeito que chegou: educado, tentando falar português e sem um traço de arrogância. Fez um rápido pronunciamento, em que agradeceu todos que trabalharam com ele nos últimos meses (menos o presidente Carlos Miguel Aidar) e explicou que tentou terminar a temporada no Morumbi antes de assumir o México, mas não foi possível. E assim, sem se abrir às perguntas dos repórteres, com os quais sempre foi muito atencioso, encerrou sua passagem pelo futebol brasileiro, pelo menos por enquanto.

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A maneira como Osório manteve-se fiel aos seus princípios nos últimos quatro meses foi além das palavras de adeus, e para ele, esse processo deve ter sido muito simples e natural. Construiu uma ideia de futebol durante a sua carreira e tentou aplicá-la ao São Paulo: posse de bola, intensidade para recuperá-la e nos treinamentos do dia a dia, disciplina tática, os 11 jogadores participando ativamente da partida, ocupação de espaços e rodízio do elenco para deixar todos na ponta dos cascos.

A filosofia de Osório pode ser boa ou ruim, dar certo ou dar errado, de acordo com a execução dos jogadores, mas incontestavelmente precisa de mais do que quatro meses para ser desenvolvida plenamente. Mas, mesmo antes de sua saída, a oscilação da equipe causou resultados ruins e o treinador colombiano foi imediatamente colocado em xeque, pela diretoria do São Paulo e pela própria imprensa.

Antes de perder por 2 a 1 para o Flamengo, a terceira derrota seguida naquela época após ser batido por Goiás e Ceará, em casa, Osório recebeu uma mensagem de um diretor ainda anônimo do clube criticando o seu trabalho e ficou bastante incomodado. Ouvia-se, dentro e fora do São Paulo, que ele estava sendo radical nos seus princípios, o futebol brasileiro era “diferente” e o colombiano deveria se adaptar a ele.

Um raciocínio que não faz muito sentido. O principal argumento a favor de um técnico estrangeiro e estudioso foi arejar o ambiente de um futebol que certamente não encabeça as últimas inovações táticas, embora muitas vezes pareça mais atrasado do que realmente é. Cobrar que Osório adote os mesmos métodos atrasados que motivaram a sua contratação seria um contrassenso. A ideia era justamente que ele fizesse coisas diferentes, e quanto a isso, ninguém pode culpá-lo.

A curta história de Osório no São Paulo serviu para mostrar que um técnico com novas e boas ideias não basta para montar uma grande equipe ou mudar qualquer coisa no futebol brasileiro, se não houver paciência e compreensão no ambiente que o cerca, dos dirigentes aos jornalistas, passando pelos torcedores. E isso independe do local aonde o profissional nasceu: Diego Aguirre, uruguaio, foi demitido mesmo chegando às semifinais da Libertadores; Milton Mendes, brasileiro, chegou a colocar o Atlético Paranaense nas primeiras posições e caiu por causa de uma previsível queda de rendimento.

"Alexander", como era chamado por Osório, despede-se do treinador (Foto: Divulgação)
“Alexander”, como era chamado por Osório, despede-se do treinador (Foto: Divulgação)

Osório não foi perfeito no São Paulo e cometeu os seus erros. Com os jogadores que tem em mãos, nada justifica uma derrota para o Ceará com time reserva, à época na lanterna da segunda divisão, no Morumbi. Assume o México com aproveitamento de 51% em 28 partidas – 12 vitórias, sete empates e nove derrotas. Mas os pontos positivos superam tudo isso. Ele tirou de Alexandre Pato um futebol que não esperávamos ver novamente. Outros, como Carlinhos e Thiago Mendes, também subiram de nível. De um jeito ou de outro, chegou às semifinais da Copa do Brasil e briga por vaga na Libertadores por meio do Campeonato Brasileiro, um pequeno milagre diante da bagunça interna do São Paulo, que inclui a diluição do elenco, sopapos e demissões em massa.

O maior mérito foi ter ignorado as interferências externas para colocar em prática o que acredita e o que havia combinado com os seus chefes antes de assumir a equipe. Não teve aquele apego exagerado ao emprego, tão constante em outros profissionais, a ponto de dizer em público que não confiava na direção do São Paulo. Por tudo isso, é muito bem-vindo para voltar ao Brasil quando seu trabalho na seleção mexicana terminar.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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