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Os 70 anos de Tadeu Ricci, o meia cerebral que livrou os gremistas de suas penúrias em 77

Por Emmanuel do Valle, do Flamengo Alternativo, e Leandro Stein, da Trivela

Para quem vê de longe a história do Grêmio, o nome de Tadeu Ricci costuma ser pouco lembrado entre os maiores jogadores que vestiram a camisa tricolor. Afinal, foram menos de dois anos completos no Olímpico. No entanto, o meio-campista teve papel cabal em um dos principais títulos gremistas. Tornou-se o homem de confiança de Telê Santana na conquista do emblemático Campeonato Gaúcho de 1977, que levou a taça de volta ao clube após oito anos de domínio do Internacional. Personagem que merece ser mais mencionado e que completa 70 anos neste domingo.

Tadeu era um jogador diferente, e em várias acepções da palavra. Meio-campista polivalente, de excelente preparo físico, chegou a jogar em múltiplas posições ao longo da carreira. Combinava essa virtude com ótima qualidade técnica. Também tinha uma inteligência bem acima da média, tanto com no campo quanto em suas entrevistas. Era de uma classe superior entre os futebolistas e até mesmo entre os seres humanos. Certa vez, conforme palavras de seu irmão à revista Placar, Tadeu encontrou um mendigo deficiente na rua e o levou para casa. Cuidou do homem por quatro meses, até encontrar uma banca de revistas para que ele tocasse. Benevolência que, não por menos, rendeu o apelido de “Santo” junto aos gremistas, por sua humildade e sua religiosidade.

Os primórdios em Ribeirão e a chegada ao America

tadeu ricci - figurinhas

Nascido na região de Ribeirão Preto, Tadeu Ricci começou a carreira no futebol amador. Entretanto, não demoraria para que vestisse a camisa do Comercial, com o qual tinha laços sanguíneos. Seu pai, Mário Ricci, chegou a ser treinador do Leão e presidente em duas oportunidades. Ainda assim, não foram as costas quentes que abriram caminho para o jovem talento. Iniciou no infanto-juvenil e subiu, passo a passo, das categorias de base ao profissional. Assinou seu primeiro contrato em 1966, embora sua a passagem pelo clube tenha sido breve. Foi emprestado ao Batatais e, meses depois, em setembro de 1967, negociado com o America.

Chegou à equipe carioca apenas por empréstimo, assinando contrato até o final do ano. Contudo, os dirigentes rubros logo perceberam o prodígio que tinham em mãos, contratando-o em definitivo. O America foi o clube que Tadeu defendeu por mais tempo: quase oito anos, até meados de 1975. Veio num momento em que o elenco se rejuvenescia, promovendo jogadores da base, como Edu, Renato, Mareco, Zé Carlos e Eduardo, e trazendo garotos de outros cantos do país, como Alex, Badeco e o próprio Tadeu. Até mesmo o técnico Evaristo de Macedo era então um novato, iniciando a carreira um ano depois de pendurar as chuteiras no Flamengo.

Com Flávio Costa, entre 1968 e 1969, Tadeu passou a ser utilizado muitas vezes como ponta-direita, recuando para formar um trio de meio-campo com Badeco e Renato. Assim, ora como armador, ora como extrema, ou até mais à frente, como ponta-de-lança, Tadeu participou integralmente da ótima campanha do America no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969, quando os rubros terminaram na sétima colocação. Ganhou oportunidades na seleção carioca e vivia a expectativa de dar um salto à seleção brasileira.

O ano de 1970, porém, foi marcado por muitas lesões, não só do meia, mas de várias peças-chave do elenco americano, como o zagueiro Alex e o atacante Edu. Tadeu ficou de fora de toda a Taça Guanabara, que preencheu o calendário do primeiro semestre, e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, nos últimos meses do ano. Assim, participou apenas do Campeonato Carioca, jogado entre julho e setembro.  Outra contusão que o afastou por um longo período veio no início de 1972, quando se descobriu que o meia vinha jogando com uma fratura mal curada no pé, e que já começava a calcificar. Tadeu chegou a passar alguns meses na cadeira de rodas durante a recuperação, que durou todo o primeiro semestre daquele ano.

A recuperação na Tijuca

tadeu foto 1970

Quando voltou, continuou não só como um jogador muito útil à equipe e querido pelos torcedores, como também cobiçado pelos rivais, que viam suas propostas serem constantemente recusadas pelos dirigentes rubros. Na excelente campanha do America na primeira fase do Brasileiro de 1974 (terceiro lugar na classificação geral entre 40 clubes), Tadeu começou como titular em meio a uma disputa acirrada pelas posições do meio-campo (além dele, Ivo, Bráulio, Edu e Renato disputavam as três vagas).

Na reta final, quando a equipe perdeu a forma, passou à reserva e, em fim de contrato, entrou em litígio com o clube. No segundo semestre, enquanto o clube partiria para uma campanha histórica no Campeonato Carioca, que incluiria o título da Taça Guanabara, o meia treinava sozinho no Alto da Boa Vista para manter a forma.

A conciliação viria no Campeonato Carioca do ano seguinte, agora no primeiro semestre. Mesmo com as boas atuações jogando no lugar de Edu, emprestado ao Vasco, e com os 10 gols marcados que lhe valeram a vice-artilharia do time no torneio, não conseguiu levar os rubros às finais: o Fluminense deu o troco na decisão da Taça Guanabara, ficando com o título graças a um gol de Rivelino cobrando falta no último minuto da prorrogação, enquanto Botafogo e Vasco levaram os outros dois turnos.

Ao fim do torneio, desgastado, pediu para ser negociado. Era visto como uma “má influência” ao grupo por alguns dirigentes. Embora não fosse um jogador abertamente politizado, Tadeu era sempre muito lúcido em suas considerações sobre o jogo, dentro e fora de campo. Além de participar de sindicatos de atletas, em 1976 o meia esteve presente na cerimônia em que foi assinada a regulamentação da profissão de jogador de futebol, instituindo direitos e garantias fundamentais aos atletas. Também iniciara a faculdade de Direito, conciliando com as obrigações como atleta.

“Tive uma infinidade de problemas e atritos com a diretoria do America. Os salários atrasavam. Tínhamos aborrecimentos sucessivos. Mas foi tudo isso que me deu a vivência que hoje tenho. As experiência, as dificuldades acabaram me fortalecendo moralmente, porque todos se sentiam fracos e procuravam se unir. E foi no America que comecei a ter minhas primeiras noções de grupo, de comunidade. A vida do Gessi, encarregado da rouparia, e do Natalino, o enfermeiro, me ensinaram muito”, avaliaria, tempos depois, em entrevista ao Diário de Pernambuco.

A passagem pelo Fla

tadeu

Após longas conversas, acabaria indo para o Flamengo no fim de setembro, já com o Brasileiro em andamento, juntamente com Edu e Caio Cambalhota. Estreou saindo do banco na vitória do Fla sobre o Internacional (que seria campeão naquele ano) por 2 a 1 no Maracanã, tendo boa atuação. Sobre seu período na Gávea, ainda que o clube tivesse Geraldo como dono da camisa 8 na maior parte do tempo, vale destacar a regularidade impressionante de Tadeu: entre sua estreia e sua última partida, em dezembro de 1976, o Flamengo disputou 106 jogos, entre amistosos e oficiais. Desse total, o meia só não participou de três. Marcou ainda 14 gols, bom número para um jogador de sua posição.

Na Flamengo, se não chegou a ser ídolo como no America, sua passagem é lembrada de maneira positiva pela torcida, mesmo sem ter conquistado títulos importantes em seus 15 meses de clube. O meia era bastante elogiado por sua inteligência, qualidade técnica e disciplina tática.  Na virada do ano, no entanto, seus dias com a camisa rubro-negra estavam contados, já que o Flamengo tinha o Adílio subindo (já vinha sendo usado com frequência durante o Brasileiro de 76) e os dirigentes queriam contratar o Carpegiani.

“Na Gávea, ninguém falava as coisas claramente. Cláudio Coutinho havia assumido a direção técnica e estava cheio de ideias novas, importantes, de futebol-força. Ele não me procurou, mas senti que a minha idade não se enquadrava muito nos seus planos. Além do mais, a diretoria nova precisava contratar nomes famosos e não tinha dinheiro. Vender Tadeu era uma solução. Como estava sendo desrespeitado, disse aos dirigentes que só sairia se me dessem 30% do valor de meu passe”, contou.

O santo gremista

Em janeiro de 1977, Tadeu Ricci assinou com o Grêmio. Era um pedido pessoal de Telê Santana, que via no experiente meio-campista, às vésperas de completar 30 anos, uma peça importante para o seu primeiro objetivo no Olímpico: encerrar o jejum de títulos no Campeonato Gaúcho. O camisa 8 logo se tornaria referência em um elenco parcialmente renovado. No novo clube, reencontrou o ponta-direita Tarciso, de quem acompanhara os primeiros passos como profissional no America, em 1969, e com quem formara a “ala direita” do ataque no clube carioca em vários momentos no início da década seguinte.

E uma das primeiras partidas do reforço não poderia ser mais iluminada: em 17 abril, teria logo o Gre-Nal pela frente. O jogo certo para conquistar a confiança dos tricolores de imediato. Tadeu marcou dois gols na vitória por 3 a 0, com o veterano Alcindo completando o placar. Já uma mostra do que faria naquele Gauchão. Em um meio-campo de pegada, ao lado de dois jogadores muito intensos como Iúra e Vitor Hugo, o incansável camisa 8 desempenhava papéis múltiplos – como ele mesmo analisava, um “missionário”. Ajudava na marcação, era fundamental na organização das jogadas e aparecia na área para concluir. Em suma, se colocava como o cérebro por trás do funcionamento do time. Não à toa, recebia elogios rasgados de Telê, por sua disciplina tática, por seu profissionalismo ao cuidar do físico e por sua inteligência com a bola nos pés.

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Em dado momento, Tadeu Ricci chegou a ser artilheiro da equipe no Gauchão, especialmente por sua maestria nas bolas paradas. E a campanha não ia deixando pedra sobre pedra. O Tricolor foi praticamente perfeito no primeiro turno: ganhou 12 de seus 13 jogos. Só que perdeu justamente na decisão desta etapa inicial, que assegurou o Inter como primeiro finalista. Já no segundo turno, mais um desempenho assombroso dos gremistas, ganhando 13 partidas e perdendo apenas uma. A liderança do decagonal valeu o duelo definitivo contra o Internacional.

Então, em 25 de setembro de 1977, aconteceu o jogo que expurgou os fantasmas gremistas e encerrou a hegemonia colorada no Rio Grande do Sul. André Catimba tornou-se uma lenda no Olímpico. E Tadeu também participou do lance histórico. O relógio marcava 42 minutos do primeiro tempo. O camisa 8 deu um corta-luz, abrindo um clarão na defesa colorada. Iúra recebeu a bola e enfiou para Catimba bater no ângulo de Benítez, em tento imortalizado também pela comemoração desastrada do baiano, sofrendo uma distensão enquanto pairava no ar para um mortal.

Naquele momento, Tadeu era um dos nomes mais respeitados do Grêmio. Colocava-se como um líder entre os mais jovens, também conciliando problemas internos. Contudo, não conseguiu ajudar o clube a alçar voos maiores. No bagunçado calendário da época, disputou as etapas finais do Campeonato Brasileiro de 1977 já no início de 1978. Os tricolores não passaram às semifinais, atrás do campeão São Paulo em sua chave na terceira fase. Em maio, teve a honra de defender a seleção gaúcha, em amistoso contra o Brasil de seu ex-comandante, Cláudio Coutinho. Foi titular no empate por 2 a 2. Já nos meses seguintes, o Grêmio chegou às quartas de final do Brasileirão de 1978, eliminado pelo Vasco após dois empates.

O final da carreira

Quando muito se esperava de Tadeu, veio a notícia surpreendente: em acordo com a diretoria, o meio-campista se despediu do Tricolor, em agosto de 1978. Na renovação de seu contrato, em dezembro do ano anterior, ele havia proposto que ficaria apenas até a disputa da Copa Libertadores, caso o Grêmio se classificasse. Como a participação continental não aconteceu, o veterano recebeu carta branca para tocar sua vida em frente, em anúncio inesperado até mesmo aos seus companheiros.

Prestes a se casar, naquele momento seu desejo era voltar para Ribeirão Preto e administrar a empresa de fertilizantes da família – segundo suas próprias palavras, seu pai colocou o Comercial como prioridade à frente dos negócios pessoais, o que prejudicou o sucesso da firma, recuperada a partir dos investimentos de Tadeu com seus ganhos como jogador. Além disso, o veterano também pretendia terminar o curso de Direito e se graduar em comunicação social.

“O trabalho na empresa é ligado aos meus princípios filosóficos, de contato permanente com a natureza. Já trabalhava com isso há algum tempo, mas não me dedicava da maneira que desejava. Havia uma meta a cumprir: só deixar o futebol quando me sentisse plenamente realizado”, declarou, na época. “Como jogador de futebol, eu sinto que fui uma espécie de estranho no meio, porque nunca consegui afastar o espírito amador que me dominava, fruto da minha formação. Mas mesmo assim precisava, tinha quase uma necessidade orgânica de viver fora do futebol. Não me bastava ser um profissional diferente, porque no fundo eu não tinha tantas diferenças dos outros”.

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A distância do Olímpico não durou muito tempo: em novembro, Tadeu já estava de volta, atendendo a um pedido para reforçar o time de Telê Santana no hexagonal final do Campeonato Gaúcho. “Bem, eu não pretendo fazer propaganda para a Pepsi ou para a Coca. Daí que essa importância que se dá à imagem é relativa. Claro, há o perigo de que eu me dê mal, mas não sou um dos que envelhecem se gabando. Se perdermos o título, vai demorar um pouco para as pessoas compreenderem meu gesto. Se ganharmos, como espero, compreenderão na hora. Assim é a vida, não é?”, declarou à Placar.

O Grêmio avançou com a melhor campanha da fase final no Gaúchão de 1978, mas desta vez perdeu a decisão para o Inter, deixando o bicampeonato escapar. Na sequência, o meio-campista chegou mesmo a ser cogitado como técnico, depois que Telê encerrou o seu contrato para cuidar de problemas pessoais em Belo Horizonte. A mudança de função, porém, não se concretizou, com experiente Orlando Fantoni trazido pelo Tricolor.

De volta a Ribeirão Preto, Tadeu Ricci ainda vestiria a camisa de seu estimado Comercial em duas oportunidades: em 1979 e em 1982. A categoria e a visão de jogo privilegiada o mantinham como o destaque do time, mesmo que o ritmo não fosse dos melhores. Depois, seguiu trabalhando com o agronegócio. E a gratidão em Porto Alegre permanece até hoje. Não poderia ser diferente, para quem, em nove meses, ajudou a encerrar uma espera que já durava nove anos.

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