O time feminino da Vila Vintém que enfrentou a “brutalidade” dos homens
“Como só tem homem nesse bagulho…”, disse o ator Thiago Martins, vocalista da banda que embalou a edição do Rio de Janeiro da Batalha das Quadras, um torneio de futebol de rua amador promovido pela Nike, antes de começar a cantar “Vira-Vira”, dos Mamonas Assassinas. Ele estava enganado. Entre mais de 280 jovens, havia Aline, Thamires, Cristiane, Marta, Livia, Rayla e Taiane representando a Vila Vintém, na zona oeste da capital carioca, na a única equipe feminina do evento.
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As meninas jogam juntas no time de campo feminino da Taça das Favelas, que faz a distinção entre os gêneros no seu regulamento. Mas elas não são estranhas a bater bola com homens. Vira e mexe, treinam contra eles. Marta, vascaína de 19 anos, começou a jogar futebol na rua e logo descobriu que era mais habilidosa que os colegas masculinos. “Estamos achando um pouco de brutalidade”, afirma à Trivela, sobre os adversários da Batalha das Quadras. “Mas já estamos acostumadas. Nenhum problema jogar com homem”.
Os jogos na Batalha das Quadras são intensos e pegados. São quatro para cada lado, em um campo de jogo pequeno. O gol, menor ainda, pode ser facilmente bloqueado pelo corpo de uma pessoa adulta. O sucesso exige habilidade, velocidade e muita correria. O time da Vila Vintém não tem craques, e a aposta no coletivo se pagou: ganharam os três primeiros jogos, defendendo-se com afinco e garra, entrando em todas as divididas. A terceira vitória saiu com um golaço de Cristiane, com um chute de canhota cheio de curva, desde o seu próprio campo de defesa.
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As garotas aproveitam qualquer oportunidade para mostrar o que podem fazer. Afirmam que há poucas oportunidades para o futebol feminino no Rio de Janeiro. “Apenas torneios como esse e o da Favela. Na maioria dos clubes, tem que pagar para jogar”, explica Marta. O sonho é um dia receber a Bola de Ouro, como a sua xará. Ou usar a braçadeira de capitã ostentada por Formiga. “Melhor capitã do Brasil”, opina Aline, flamenguista de 18 anos. “Dá para chegar nelas, mas precisamos de estrutura. Aqui no Rio não tem nada. Precisa de alguém forte que te coloque dentro”.
Marta chegou perto disso. Segundo ela, uma prima ex-jogadora que mora nos EUA conseguiu atrair o interesse da Juventus pelo seu futebol. Ela viajaria para a América do Norte e seguiria para a Itália. A mãe não deixou. “Ela não gostava porque achava que era coisa de homem”, conta. “Mas eu nunca dei a mínima”. Aline fez peneira na seleção brasileira sub-15. Também não conseguiu avançar na carreira profissional. Nenhuma delas desistiu do sonho, mas têm planos B na manga. Terminando o ensino médio, Marta pensa em ser bombeira; Aline quer entrar na Marinha e fazer carreira no exército depois de completar sua educação.
Ao fim da terceira vitória seguida, com aquele golaço, o público invadiu a quadra e fez a festa. Torcia pela Vila Vintém. Depois da arrancada inicial, o time empatou dois jogos e perdeu o outro. Foi o bastante, porém, para ficar em primeiro lugar na bateria, ao lado de duas outras equipes. Os dois melhores passariam às semifinais, e as meninas conseguiram a vaga por terem feito mais gols. Acabaram eliminadas, sem vencer mais nenhuma partida, e impedidas de disputar a final. Mas lidaram sem problemas com a “brutalidade” dos homens e voltaram para suas casas, prontas para continuar sonhando.
O repórter viajou a convite da Nike.
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