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O Tião Macalé além do humor: Tricolor doente, alvo do Botafogo e lenda do futebol de praia

Na ausência do atacante, o técnico vestiu a nove. Nem era tão veterano assim, mas preferia comandar o time (que ele mesmo fundou nas areias de Copacabana) do lado de fora da quadra. Desta vez, porém, não havia muita escolha. E lá foi Tião para a areia. Logo no primeiro lance, matou no peito, chapelou dois marcadores e meteu a bola no ângulo. Categoria pura. Não havia dúvidas de quem era o dono do time. De quem era apaixonado por futebol, de tantas maneiras quanto fosse possível.

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Tião Macalé nasceu em Salvador, em 17 de outubro de 1926, mas poucos ousavam duvidar de seu DNA carioca. Chegou aos 18 anos ao Rio de Janeiro, para trabalhar no circo, e se tornou um cidadão-símbolo. Teve os seus momentos de dificuldades. Viveu de favor nos fundos de uma igreja, na qual trabalhava como faxineiro, até sua carreira começar a engrenar quando passou a trabalhar no rádio com Ary Barroso. Ao mesmo tempo, sua válvula de escape estava na praia. O baiano fundou, nos anos 1940, um dos clubes mais tradicionais do futebol de Copacabana: o Dinamo.

“Quando vim para o Rio, imediatamente fundei o time em Copacabana. Queria um nome de praia, como Miami ou Havana. Um amigo, contudo, me falou sobre um time que arrebentava na Europa: o Dynamo de Kiev. Estava escolhido o nome”, contou, em entrevista ao Jornal do Brasil em 1988. Os campeonatos na praia de Copacabana ganharam aura lendária. Revelavam jovens talentos, muitos deles decolando para o futebol de campo – e não apenas jogadores, mas até árbitros, como Armando Marques, Arnaldo César Coelho e Margarida. Enquanto isso, os times eram dirigidos e presididos por membros do folclore local. Tião Macalé era um deles, assim como o “filósofo” Neném Prancha. E o Dínamo quase sempre aparecia entre as principais forças.

Durante a primeira metade dos anos 1950, Tião Macalé quase se juntou aos que migraram para os gramados. Observado por Carlito Rocha, um dos mais emblemáticos dirigentes do Botafogo, o baiano ganhou uma oportunidade no alvinegro. Entretanto, seu santo não bateu com o de Gentil Cardoso, técnico igualmente folclórico, e um bate-boca nos primeiros treinos encurtou sua empreitada. Os pés que faziam mágica na areia não serviam para calçar chuteiras. Curiosamente, os botafoguenses contratariam um homônimo pouco tempo depois: o Tião Macalé trazido da Portuguesa carioca e que jogou no meio-campo do esquadrão dos anos 1960.

Não ir para o Botafogo, aliás, respeitou o coração do humorista por duas vezes. Além de ser um entusiasta do futebol de areia, Tião Macalé também torcia doentiamente pelo Fluminense. Frequentava as arquibancadas com assiduidade. Até xingava qualquer um que ousasse provocá-lo falando sobre o Flamengo ao seu lado. “Nojento é o Flamengo. Sou tricolor desde o tempo em que crioulo não podia passar na porta das Laranjeiras”, declarou, também ao JB em 1988.

O fanatismo, de qualquer forma, não impediu que Macalé escalasse flamenguistas ilustres em seu Dinamo. Júnior e até Jorge Ben passaram por seu velho time nas areias. O humorista fazia um pouco de tudo para que a equipe decolasse. Servia de cartola a roupeiro, embora se encontrasse mesmo como técnico, realizando treinos e tudo. “Sou um disciplinador. Comigo não tem essa, se o sujeito não correr, eu xingo, brigo, faço o diabo. Futebol de areia é o meu hobby e faço por amor. Até baliza já carreguei nas costas e hoje banco o material”, afirmou.

Do romantismo inicial, Tião Macalé permaneceu à frente do Dinamo mesmo quando os interesses financeiros se tornaram mais comuns nas areias de Copacabana, especialmente nos anos 1980. Enquanto isso, chegava ao auge de sua carreira artística, fazendo troça com os Trapalhões. Era o escada perfeito para o humor simples, que não precisava nem decorar o texto para ser engraçado. Em 1992, porém, o baiano precisou se afastar de suas funções ao sofrer um derrame. Faleceu poucos meses depois, em outubro de 1993, aos 67 anos, vítima de uma infecção pulmonar. Se ainda estivesse vivo, completaria 90 anos nesta segunda. Um craque do riso fácil que também deixou sua marca no futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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