O técnico que levou o Brasil ao topo do mundo no basquete também descobriu o melhor zagueiro do futebol nacional

Se o Chile marca a conquista do bicampeonato mundial de futebol à seleção brasileira, ele também possui um simbolismo enorme ao basquete do país. Santiago se tornou palco de uma façanha nas quadras há 60 anos: em 31 de janeiro de 1959, a equipe nacional faturou o seu primeiro título mundial com a bola laranja. Os brasileiros fecharam sua campanha contra os próprios chilenos, em vitória por 73 a 49, que os permitiu terminarem à frente dos Estados Unidos e da desclassificada União Soviética na fase final. O triunfo que consagrou uma geração dourada, estrelada por Amaury Pasos, Wlamir Marques, Rosa Branca, Algodão, Edson Bispo e outros craques. Também seriam bicampeões quatro anos mais tarde, na competição realizada no Rio de Janeiro.
Em partes, tais lendas do basquete brasileiro possuem sua ligação com o futebol. Afinal, escreveram sua história em quadra vestindo a camisa de clubes tradicionais nos gramados – a exemplo de Flamengo, Vasco, Corinthians, Palmeiras e XV de Piracicaba. Além do mais, o comandante dos maiores sucessos do Brasil no basquete tinha raízes no futebol. Togo Renan Soares, o Kanela, não foi treinador apenas nas quadras. Na realidade, ele começou sua carreira à beira do campo, nas categorias de base do Botafogo. Chegou a acumular funções em três modalidades distintas, incluindo também o pólo aquático, enquanto trabalhava com os alvinegros. Já a dedicação total à bola laranja aconteceu a partir da década de 1940, quando se mudou ao Flamengo e acumulou taças, despontando à direção da equipe nacional.
Aproveitando a deixa, celebramos os 60 anos do Mundial de 1959 resgatando um texto de 2014, em que falamos sobre a relação de Kanela com o futebol. E contamos como ele, durante sua rápida passagem pelo Bangu, também foi responsável por descobrir o maior zagueiro brasileiro de todos os tempos: um tal de Domingos da Guia.
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Técnico bi mundial de basquete, Kanela descobriu o melhor zagueiro da história da Seleção
Se hoje em dia o Brasil não se coloca entre os favoritos às principais competições do basquete internacional, a realidade da seleção décadas atrás era bastante distinta. Entre os anos 1950 e 1960, os brasileiros foram bicampeões mundiais e duas vezes vice-campeões, além de ficarem com o bronze olímpico em 1960. Sucesso construído sob as ordens de Togo Renan Soares, o Kanela, um técnico bastante ligado ao futebol.
Paraibano radicado no Rio de Janeiro, Kanela foi um poliesportista. Chegou a ser jogador de futebol e polo aquático no Botafogo, mas a carreira como atleta não foi para frente. Então, começou a trabalhar como técnico nos juvenis alvinegros, se sagrando campeão carioca invicto quando tinha apenas 19 anos. Também chegou a comandar equipes no remo e no polo aquático, mas o maior legado antes de partir às quadras foi mesmo nos gramados.
O grande feito de Kanela aconteceu em 1929, quando trabalhava no Bangu. O clube de Moça Bonita era um dos poucos abertos a jogadores negros e mulatos, em uma época na qual o racismo era escancarado dentro da estrutura do futebol brasileiro. E, nos alvirrubros, o técnico teve a chance de lapidar um craque. Prodígio em uma família de outros ídolos banguenses, Domingos da Guia tinha apenas 17 anos quando Kanela promoveu uma mudança essencial em sua carreira.
O treinador percebeu a aptidão do garoto na marcação e o convenceu a deixar o meio-campo para atuar na zaga. Kanela via a importância do estilo firme daquele jovem Domingos. Era “um apolíneo entre os dionisíacos”, como definia Gilberto Freyre, comparando a força física e a concentração do defensor com a ginga de outros de sua época. A partir de então, o rapaz que trabalhava como mata-mosquito no departamento de Saúde Pública do Rio de Janeiro começou a se tornar o Divino, fazendo sucesso principalmente a partir de 1932, depois de grandes atuações com a seleção brasileira no Uruguai.
Após deixar o Bangu, Kanela voltaria a trabalhar com os juvenis do Botafogo, treinando também a equipe principal em algumas excursões. Ao mesmo tempo, acumulava funções no basquete e no polo aquático, se sagrando campeão carioca nas duas modalidades. O técnico seguiu em General Severiano até 1947, quando uma briga com dirigentes o afastou do clube.
Rumou ao Flamengo e assumiu o time de futebol em um período difícil, em que os rubro-negros ainda tentavam renovar o elenco que havia sido tricampeão carioca entre 1942 e 1944. Dirigiu a equipe entre novembro de 1948 e setembro de 1949, com aproveitamento de 71,4% – o segundo melhor da história entre técnicos com mais de 40 jogos no clube. A derrota contra os três rivais no início do Carioca, no entanto, minou seu espaço. Seu último jogo no cargo foi justamente um revés por 2 a 1 ante os botafoguenses.
A partir de então, Kanela passou a se dedicar exclusivamente ao basquete, com o qual já trabalhava na Gávea. Entre 1948 e 1960, só perdeu um Campeonato Carioca com o Fla, sucesso que o levou à seleção. Famoso pela ótima leitura de jogo, pelos métodos de treinamento e pelo estilo motivador, o técnico teve em mãos a melhor geração do basquete brasileiro. O bicampeonato mundial eternizou de vez a mente brilhante de Kanela, que também deixou sua história no futebol.



