Brasil

O que queremos da seleção brasileira, afinal?

Sensação de vazio é dominante durante uma Data Fifa, e há muito o que se possa fazer para amenizá-la

Os mais rigorosos vão voltar a Frankfurt, junho de 2005, na jogada cantada bola a bola por Galvão Bueno, pontuando no ritmo do toque de bola brasileiro, reforçando o encanto da torcida alemã, pedindo para Ronaldinho inverter o jogo, inverteu, só o Brasil toca na bola, e vai levando a narração que já prevê a eternidade, como se pudesse sintetizar a euforia no ar, e o torcedor aplaude, e está feliz da vida, para Adriano, para fazer o gol! Gol do Brasil.

Quatro a zero sobre a Argentina, nem vinte do segundo tempo, um totó daqueles, o melhor time do mundo, difícil de contestar.

Houve grandes jogos no caminho, fora de Copa do Mundo, claro, vitórias enfáticas com o eficiente time de Dunga, a arrebatadora (um tanto enganosa?) Copa das Confederações na pressão do hino à capela com Scolari, o início impactante e fluido da equipe de Tite, que ganhou duelo grande aqui e ali também.

Mas que sensação é essa de incompletude, essa falta, essa projeção inalcançável que parece ser colocada à seleção brasileira sempre que ela entra em campo desde que fomos reis pela última vez, há vinte anos?

Do 7 a 1 para cá, entrou em debate uma certa ideia de identidade do nosso futebol. É um bom papo, difícil de dar numa resposta direta, objetiva, e que não resolve o problema do campo ao mesmo tempo que não pode ser algo menor, banal.

Porque são muitas formas de se jogar bola, são infinitas as maneiras de se vencer um jogo, de convencer o torcedor ou de gerar empatia para além do resultado, e é legal saber o que se quer da vida.

Não se explica com os gols feitos pelo Brasil nas Copas do Mundo, nem apenas por preferências táticas das escolas de futebol, mas por um pouco de tudo, um amálgama que é empírico e treinado, prático e imaginado, sensível e variável, contextual e atravessado.

Tem alguma coisa que se quer dizer quando se pensa que, não, o time vestindo a amarelinha não tem jogado o que a gente gostaria que jogasse, sabe-se lá o que se mira.

Uma hipótese é a excelência técnica. Se a seleção brasileira não for um lugar possível para que os melhores jogadores nascidos no país que mais corre atrás de bola no mundo mostrem seu melhor futebol, para que serviria?

A ideia do time nacional foi forjada com um ambiente que se via tudo que o craque poderia oferecer. A seleção teve o melhor Pelé, o melhor Romário, o melhor Ronaldo, e isso aconteceu com vários deles, sendo o time da vida de Taffarel, de Dunga, de Rivaldo, e alguém vai achar que é porque ganharam, faz parte, mas também porque ali viveram o melhor jogo de suas vidas.

Isso passou a acontecer menos: pensemos em Marcelo, por exemplo, unanimidade no Real Madrid e agora jogando aqui. Neymar até flerta com isso, Endrick tem uma amostra inicial neste nível de relação. O espectador é atento. Ele quer o melhor jogando o melhor. A régua é alta, como deve ser.

Outro ponto é o distanciamento. Às vezes a gente perde a perspectiva de que o Brasil nunca ganhou uma Copa do Mundo com elenco majoritariamente jogando no estrangeiro.

Então se consolida o êxodo e se firma a lonjura – vale lembrar que na Copa América 2004, auge da seleção como marca internacional (jogo no Haiti, propagandas da Nike, título com equipe alternativa, melhor jogador do planeta, campeão do mundo na Ásia etc), jogadores convocados do Brasileirão tinham a venda praticamente certa para largarem seus times no meio do campeonato, caso de gente como Renato, Luís Fabiano, Maicon, Alex, Cris, Diego e Vagner Love, que nem voltaram.

Quanto mais o quadro parece “estrangeiro”, inclusive jogando mais em Londres que no Rio e chegando ao ponto de convocar completos desconhecidos por aqui, menos se torce, menos se compra a briga, menos se tolera. É urgente a reaproximação.

Tem também uma ideia de criatividade que se reconhece para além das combinações e funcionamentos pensados previamente. As unanimidades do futebol brasileiro nessas últimas duas décadas passam por aí, como o Cruzeiro de Alex, o Santos de Neymar ou o Flamengo comandado por Jorge Jesus, aquela sensação de que vale a pena parar para ver o jogo porque, sim, alguma coisa bastante impressionante pode acontecer quando esses caras pegam na bola.

Isso foi a suposição do quarteto mágico, naufragado na má forma, e houve uma justa confiança com Neymar e Coutinho no caminho à Copa da Rússia. Mas Tite endureceu no seu choque de futebol internacional para enfrentar os europeus, o time nos Mundiais surge com menos leveza que nas vésperas, e a torcida se frustra com certa previsibilidade e falta de invenção ou de cumprimento de expectativa.

As pessoas tendem a reconhecer e bancar a liberdade ao talento. O torcedor enxerga o jogo melhor do que técnicos e dirigentes consideram. Ele sabe o que é uma dupla entrosada, uma tabela que é bonita e também útil. Sabe talvez mais do que ninguém.

São alguns pensamentos, até desgastados, repetitivos, para elaborar um pouco nessa relação. Daria para falar ainda de um momento de reestruturação dos clubes enquanto gestão de negócios, já que hoje o torcedor acredita que o futebol de seleções é uma perda de tempo, um dinheiro desperdiçado diante do alto investimento que seu time faz no atleta de primeira.

Há ainda o excesso de partidas, todas as dez rodadas da Série A, mais as dez da Série B, e as dez do Campeonato Inglês, e Saudita, e sub-20, e feminino, e toda a sorte de todo jogo de futebol, fazendo a seleção perder a aura de um grande momento, um horário importante, um dia especial.

Sem falar, e aí vale todo um debate à parte, dos efeitos da globalização e do encurtamento das fronteiras numa perda de importância desse esporte entre países, confrontando suas identidades e raízes num modelo que hoje provavelmente nem faz mais sentido.

No fim das contas, eu tentaria responder dizendo que se quer uma seleção que jogue a preços mais populares e em estádios brasileiros (que se crie um ambiente, por favor!), que de alguma forma tenha uma liga local que possa segurar os fora de série tipo Vinicius Junior por mais tempo no país, e cujo time volte suas forças para acomodar e tirar o máximo dos mais diferentes, acima da ideia de plano de jogo do treinador. Uma concepção de um futebol mais criativo e menos pasteurizado, mais técnico que físico ou tático, mais popular que codificado ao modelo que assistimos só pela televisão.

Não é fácil, insisto, pelo contrário, no fundo, é tudo coisa da nossa cabeça, uma subjetividade afetiva e utópica, mas que é parte fundamental do porquê disso tudo. Nascemos no Brasil, deu bom para o futebol, e é preciso conviver, não negar, esse tamanho todo.

Não somos arrogantes, mas nos importamos e queremos muito. Então, ainda que sem a concretude do porquê, nos interessa refletir sobre o que tanto nos incomoda quando chega a Data Fifa, essa insuficiência, às vezes com ares de estorvo, mas com espaço para ser, em tese, o que gostaríamos que fosse.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
Botão Voltar ao topo