Brasil

O que o relatório da Comissão Nacional da Verdade revela sobre o futebol

Documentos sobre a ditadura militar brasileira relatam como o Caio Martins e o Estádio Nacional de Santiago foram usados como prisões em massa

Há 50 anos, a ditadura militar se instaurou no Brasil. E, 29 anos depois da redemocratização do país, muitas cicatrizes deixadas no período continuam abertas. Assassinatos, torturas, perseguições e desaparecimentos que se revelaram ao longo das últimas décadas, mas também se esconderam em arquivos e memórias perdidas. Uma história que, no entanto, passou a ser revisitada com mais vigor a partir de 2012. A Comissão Nacional da Verdade se instituiu para apurar graves violações de Direitos Humanos. Nesta semana, divulgou o seu relatório final, detalhando muitos episódios de repressão.

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Em um país fortemente ligado com o futebol, o esporte também apareceu nos documentos. Principalmente, citando histórias ocorridas em dois estádios que se tornaram centros de detenção em massa: o Caio Martins, em Niterói, e o Nacional de Santiago, no Chile, que também abrigou presos políticos a partir da instauração da ditadura de Augusto Pinochet. No mais, o relatório da CNV também reconta o assassinato do militante Jeová Assis Gomes, baleado enquanto fugia de militares em um pequeno campo de futebol na cidade de Guaraí, no interior de Goiás.

A utilização do Caio Martins e do Estádio Nacional do Chile, sobretudo, ressaltam a forma como o futebol acabou se tornando instrumento das ditaduras militares na América do Sul. Uma utilização do esporte que foi muito além das prisões realizadas nos dois locais, e que se aprofundou bem mais na coerção, no jogo de interesses e na manipulação da população. O relatório da CNV, entretanto, se aprofunda em dois momentos nos quais as violências se evidenciaram mais. Abaixo, trechos retirados dos documentos oficiais:

Caio Martins

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Os relatórios da Comissão Nacional da Verdade não se aprofundam nos depoimentos dos presos políticos do Caio Martins. No entanto, apresenta um panorama geral sobre como algumas instalações esportivas foram utilizadas como prisões coletivas logo após o golpe militar, em 1964.

Um dos aspectos mais reveladores das prisões coletivas realizadas em 1964 pelas forças de segurança da ditadura – incluindo-se agentes militares e policiais civis e militares – diz respeito aos locais utilizados para as prisões. Ultrapassando os limites dos quartéis, das delegacias e do sistema penitenciário, os trabalhadores foram mantidos presos em estádios de futebol e navios: em Niterói (RJ), no Ginásio Caio Martins; em Macaé (RJ), no Clube Ypiranga; em Criciúma (SC), no Esporte Clube Comerciários. Esses espaços apresentam-se como consequência lógica do que revelou a investigação de Marcelo Jasmin, realizada com base em 1.114 processos da Comissão de Reparações do Estado do Rio de Janeiro na qual 43,68% dos casos pesquisados de graves violações dos direitos humanos ocorreram nos três primeiros anos da ditadura – entre 1964 e 1966.

Destaque especial deve ser dado ao primeiro estádio da América Latina, o Ginásio Caio Martins, em Niterói, que funcionou como prisão desde abril de 1964 ou, nas palavras de ex-presos políticos, um verdadeiro “campo de concentração”. A despeito de o DOPS do Rio de Janeiro registrar que nesse estádio de futebol estiveram detidos apenas 339 pessoas, por ali passaram mais de mil presos políticos, conforme depoimentos de vítimas e advogados. As principais categorias de vítimas de prisão naquele local foram a dos bancários, dos ferroviários, dos operários navais e de trabalhadores do campo.

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Estádio Nacional de Santiago

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Em 1973, a ditadura de Augusto Pinochet considerou suspeitos todos os estrangeiros que migraram ao país durante o governo de Salvador Allende. Ao todo, 108 brasileiros foram detidos no Estádio Nacional do Chile. Um dos presos, Wânio José de Mattos, faleceu nas instalações, em “situação deliberada de omissão de socorro”. Sua esposa e sua filha de colo, rejeitados pela diplomacia brasileira, acabaram deportados a Paris.

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Aqueles que desejavam regressar ao Brasil tiveram a deportação tratada pelo Ministério das Relações Exteriores. Contudo, segundo as comunicações da época, “não só o MRE não tomou medidas que estavam ao seu alcance e que eram necessárias para que isso ocorresse, mas chegou mesmo a tomar iniciativas no sentido de impedi-lo”.

A realização da partida entre Chile e União Soviética, pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, gerou uma “séria preocupação esvaziar o Estádio Nacional” no Ministro da Defesa chileno.  As autoridades chilenas solicitaram a colaboração no “sentido de resolver rapidamente a situação dos brasileiros, já que devem deixar livres o mais rápido possível as dependências do estádio, e as prisões se encontram superlotadas”.

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Ao invés de providenciar o auxílio, no entanto, o governo Médici enviou ao Chile uma equipe de militares e policiais brasileiros, para interrogar e torturar os detidos no Estádio Nacional. “Osni Geraldo Gomes relata como foi interrogado – pendurado no pau de arara e submetido a choques elétricos – por três agentes brasileiros, que falavam em português e perguntavam sobre suas atividades e ligações no Brasil. A sessão de tortura foi presenciada por um grupo de oficiais chilenos que assistiam a tudo por uma parede de vidro, e de um dos quais o depoente ouviu o seguinte comentário, dirigido aos demais: ‘esses são profissionais, prestem atenção’”.

O regime brasileiro manteve-se passivo sobre a situação dos presos, interessado apenas nos interrogatórios. Os documentos revelados não apresentaram qual a situação final das negociações, apenas de alguns casos nos quais o MRE ignorou os pedidos de deportação. Nos arquivos da chancelaria chilena há um único pedido de expedição de salvo-conduto, apresentado pelas autoridades brasileiras, para três cidadãos brasileiros detidos no Estádio Nacional. Monitorados de perto em seus deslocamentos, alguns desses brasileiros vieram a tornar-se desaparecidos políticos.

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Na sequência, leia o depoimento de Luiz Carlos Vieira, preso político no Chile que, após sobreviver, foi acolhido pela embaixada da Suécia e se refugiou no país escandinavo.

O estádio parecia estar iluminado para uma noite de futebol. Ainda não sabíamos que o haviam transformado em uma enorme sala de tortura, humilhação e morte. Passamos por uma fileira de soldados. Logo seguimos por um longo corredor cujas paredes eram formadas por corpos humanos, os braços estendidos para o ar, os rostos voltados para as paredes de pedra do corredor do estádio. Chegamos ao que parecia ter sido um dos vestuários, agora transformado em sala de tortura. Um militante uruguaio acabava de ser castigado. Um oficial veio recolher nossos documentos de identificação. A sessão de tortura iniciou-se. O interrogatório girava em torno de um suposto esconderijo de armas, o qual era completamente desconhecido para nós. Diante da resposta negativa, o oficial decidiu que, juntamente com o militante uruguaio, devíamos deixar o estádio.

Todas essas viagens foram feitas em uma camioneta, onde íamos acompanhados de dois ou três soldados armados, sempre seguidos de perto por um caminhão com mais soldados. A última viagem levou-nos às margens do rio Mapocho. Os soldados mostravam-se nervosos e agiam com violência. Já não havia dúvida sobre qual seria o nosso destino. Luiz Carlos tentou argumentar com os soldados, mostrando-lhes o absurdo e o inumano de tal situação. Mas naquele momento já não regia nenhuma lei, nem a dos homens nem a de Deus. O uruguaio encaminhou-se para a beira do rio e jogou-se nas águas, sendo imediatamente metralhado por um soldado. O oficial mandou Luiz Carlos fazer o mesmo. Um soldado seguiu-o e disparou demoradamente. Depois foi a minha vez. Das três balas que me atingiram, uma pegou de raspão na cabeça, fazendo-me perder os sentidos por algum momento. Quando recuperei a consciência, senti-me levado pela leve correnteza do rio, ouvi as vozes dos soldados, vi as luzes dos caminhões refletirem-se nas águas do rio, iluminando os corpos inertes de meus companheiros. Era o único sobrevivente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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