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O que falta ao São Paulo sobra ao Corinthians: inteligência na movimentação

Um dos mantras que se ouve das arquibancadas quando um time vai mal é o grito de “raça, raça, raça”. É uma forma que a torcida acredita estar cobrando mais vontade do time em campo. Uma cobrança que muitas vezes é bem pouco inteligente, porque nem sempre correr muito é solução. No Morumbi, o São Paulo recebeu o Corinthians e sofreu exatamente com isso. O time se esforçou, correu muito, mas correu e se posicionou mal. O adversário, por sua vez, foi inteligente no posicionamento e pareceu confortável mesmo sem a bola. Parecia saber o que fazer em cada situação do jogo, enquanto o São Paulo, mesmo com muita técnica e bons jogadores, pareceu correr, correr, correr e só conseguir ficar impedido e bater cabeça. O placar de 1 a 0 para o Corinthians acabou sendo um cruel retrato disso.

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O São Paulo viu-se diante de um tabu por não ganhar do Corinthians no Morumbi desde 2007, no ano do rebaixamento alvinegro. É claro que recordes e retrospecto não entram em campo, ao menos em tese. Mas os jogadores, mesmo não tendo nada a ver com essa história, sabem que a pressão pelos tabus existe naqueles que estão ali em campo. Sabem que mesmo sem ter participado de toda essa história – exceto por Rogério, que participou sim -, a cobrança será em cima dele, que está ali para ser cobrado.

O Corinthians tem mostrado desde o começo do ano que é um time que sabe o que faz. Não é brilhante, mas é um time bastante eficiente, bem posicionado e com bons jogadores. Joga um futebol de intensidade e que tem qualidade. Por isso tem sido elogiado mesmo quando não joga tudo que sabe, como foi contra o San Lorenzo. Mas ali foi que o time mostrou também uma das suas virtudes. Mesmo em um jogo de xadrez como foi contra os argentinos, o time foi consciente do que precisava fazer.

Neste domingo, no Morumbi, o São Paulo foi melhor do que na estreia da Libertadores na Arena Corinthians, no primeiro clássico do ano. Se naquele jogo faltou, de fato, raça, desta vez o pedido das arquibancadas parece ter vindo no automático. O time, que teve Ricardo Centurión como principal destaque, correu, e correu muito.

Centurión, por exemplo, esteve presente dos dois lados do campo, puxou bons ataques, mostrou habilidade e, mesmo errando muitos passes, foi o único a realmente levar perigo à defesa corinthiana. Ganso, ao contrário, acerta muitos passes, mas foi muito pouco efetivo. Não conseguiu criar chances porque esteve sempre bem marcado, muito bem bom posicionamento do Corinthians.

É claro que o gol corinthiano no primeiro tempo, aproveitando, novamente, o bom posicionamento, e não a correria desenfreada, ajudou muito. Em uma cobrança de lateral, Guerrero apareceu fora da área, na ponta. Estava sendo marcado por Edson Silva, zagueiro, tirado da área. O atacante inverteu o jogo para o outro lado, onde Danilo estava livre, com Michel Bastos bobeando na sua marcação. Danilo, de pé direito, finalizou no canto de Rogério, que viu a bola passar perto. Foi o seu 11º gol em clássicos, o sexto só contra o São Paulo. Eram só 10 minutos de jogo, mas isso acabou determinando o rumo da partida, porque permitiu ao Corinthians exercer a sua inteligência e bom posicionamento em campo, enquanto o São Paulo partiu para uma correria e, algumas vezes, uma tentativa de bolas na área.

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Com 68,7% de posse de bola, o São Paulo esteve o segundo tempo quase inteiro com a bola nos pés. Poderia ter chegado ao gol de empate em algum lance, já que o Corinthians, mesmo bem posicionado, abriu mão demais de ficar com a bola. Um risco calculado, é verdade, porque o time parece explorar um ponto fraco do São Paulo, que é insistir demais nas jogadas pelo meio. Centurión era quem quebrava isso e por isso eram dele os lances que surpreendiam a defesa corinthiana.

Um dos problemas de posicionamento do São Paulo se reflete em uma estatística que o time insiste em estar entre os primeiros: os impedimentos. Como o time corre muito e, por vezes, se afoba, acaba ficando muitas vezes em impedimento. Neste domingo, foram nove impedimentos, muitos deles pelo time correr errado em campo. Em alguns ataques, o São Paulo tentou colocar velocidade, mas os jogadores sem a bola não pareciam saber para onde correr, como abrir o jogo, como fazer a defesa do Corinthians ficar desconfortável.

Um lance, porém, poderia ter mudado tudo isso. Um chute forte de Michel Bastos que bateu no braço de Gil. O zagueiro protegeu o rosto e tinha o braço na frente do rosto. O árbitro Leandro Bizzio Marinho marcou a falta e mostrou cartão amarelo ao zagueiro. Como ele já tinha um, por reclamação, acabou expulso. Os são-paulinos reclamaram pênalti, porque Gil estava dentro da área, enquanto os corinthianos reclamavam que o zagueiro só se protegeu de uma pancada. Um lance que gera discussão, mas que não pareceu falta.

O bandeirinha, então, chamou o árbitro e avisou que Gil estava dentro da área. De fato, estava. A bola foi colocada na marca do pênalti. Muita discussão depois, Rogério Ceni cobrou forte, mas muito mal. A bola foi defendida por Cássio e ainda explodiu na trave. Nada de gol. E daí em diante, o São Paulo conseguiu fazer pouco. Tentou na base do abafa, enquanto pode, mas não conseguiu criar chances claras. O Corinthians, com um a menos, só se preocupou em se defender. Se fosse um time da NBA, provavelmente a sua defesa gritaria “defense, defense, defense”, porque é assim que parece que o time gosta de se posicionar.

Correr é importante, vontade também é. Mas sem inteligência, correr demais só leva a se cansar. Isso é algo que o São Paulo precisará rever, especialmente contra o Corinthians, se não quiser continuar sendo vítima do alvinegro nos próximos jogos. E o próximo encontro pode ter caráter decisivo, porque será na última rodada da fase de grupos da Libertadores. O Corinthians parece saber o que fazer e seu plano costuma funcionar. No dia 22 de abril, novamente no Morumbi, os dois times voltarão e se enfrentar e devemos emoções à flor da pele.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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