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O Palmeiras sobreviveu à tarde de sofrimento, emblemática sobre aquilo que não quer reviver

No ano em que completou 100 anos de história, o Palmeiras viveu uma de suas tardes mais desesperadoras. Uma partida que eternizará o primeiro gol alviverde no Allianz Parque, mas que queria ser esquecida pelos torcedores. A aflição de lotar a nova casa para apoiar compulsivamente, mas não pela alegria da vitória, e sim pelo alívio de escapar do rebaixamento. O fantasma de cair pela terceira vez, justo quando as promessas eram de deixar os desgostos no passado. No fim das contas, a noite chegou serena para os palmeirenses que não reviveram as trevas que imaginavam. Após 90 minutos simbólicos, diante de tudo aquilo que o Palmeiras não quer enfrentar de novo na próxima centena de anos.

Emblemáticos porque o Palmeiras não fez o que precisava para depender só de si. Um clube que flertou sério com o rebaixamento durante boa parte da campanha e tinha afastado dele no segundo turno, mas reatou o namoro justo na reta final. Escapou, é claro. Mas o empate por 1 a 1 com o Atlético Paranaense não teria sido suficiente se o Vitória tivesse um pouco mais de competência na rodada final e vencesse. A forma como o gol do Santos no Barradão foi comemorado, já depois que a bola tinha parado de rolar no Allianz Parque, simbolizou a impotência.

Emblemáticos também pelo melhor jogador em campo. Fernando Prass fechou o gol e evitou o pior, assim como já tinha acontecido em outras rodadas do campeonato. Compensou as fraquezas de um sistema defensivo cujo ponto baixo era justamente o mais experiente, Lúcio. A volta do goleiro no segundo turno já tinha sido o principal trunfo dos palmeirenses. E a maneira como ele evitou ao menos três gols certos do Furacão (que, apesar das acusações prévias, se empenhou bastante para vencer) ressaltou os problemas que por pouco não rebaixaram os palmeirenses.

Emblemáticos pelo herói da tarde. Valdívia é, sim, um jogador muitíssimo técnico. Mas que sofre com problemas físicos recorrentes e, mesmo lesionado, seguiu para o sacrifício no duelo decisivo. Correndo em câmera lenta, o camisa 10 acabou sendo o melhor jogador de linha do Palmeiras, o que diz muito sobre as limitações do elenco. Um esforço compensado com muitos aplausos e ovações merecidas. Que, no entanto, demonstram que a montagem do time precisa ir muito além. Não é um jogador talentoso, mas baleado, que deveria se sobressair tanto em um jogo tão vital.

Emblemático pela forma como saiu o gol de empate. De pênalti, em um lance que sequer pode se elogiar a criatividade do ataque alviverde – e no qual se pode contestar a decisão do árbitro. Poucos foram os lampejos de lucidez em meio a tanto sufoco. E Henrique tratou de converter a cobrança. Um atacante longe de ser o sonho dos torcedores, mas que cumpriu os objetivos dentro de suas limitações evidentes.

Emblemáticos, por fim, pela maneira como a torcida do Palmeiras se portou ao apito final. Ao invés de comemorar, preferiu protestar: “Vergonha, time sem vergonha”. Apenas alguns jogadores foram celebrados, entre eles Prass e Valdívia. Também alguns garotos da base, que demonstraram uma entrega rara entre boa parte dos medalhões. Que entraram na fogueira e foram valentes, para ajudar na conquista de pontos vitais à salvação.

O Palmeiras não passará mais um ano na Série B. Porém, terá outros dois sob a gestão de Paulo Nobre, que apresentou muito mais erros do que acertos em seu primeiro mandato no Palestra Itália. Ao longo do centenário, foram três treinadores, contratações a rodo, diferentes metas. Um planejamento mutante que precisa ser repensado urgentemente, se o clube não quiser outra temporada de tanto sofrimento. Acertar a casa, agora, é a prioridade.

Os alviverdes saem aliviados do Allianz Parque, não fortalecidos. Até possuem o direito de festejar, embora o primordial seja repensar tudo deu de errado. Fernando Prass e Valdívia se sobressaíram no teste de fogo e deverão ser as lideranças no novo ano. Ainda assim, as únicas certezas do Palmeiras neste momento são a grandeza de sua história e a força de sua torcida. Que mais uma vez foram ultrajadas, por uma série de problemas que não se evitaram nem com as quedas vividas nos últimos 12 anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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