Brasil

O mundo sem Ronaldo

O lançamento para Jorge Henrique no contra-ataque contra o São Paulo. A finalização objetiva após vencer Rodrigo na corrida. A dominada após um chutão de Chicão. O corte no zagueiro. O chute encobrindo Fábio Costa. Ronaldo tem mostrado que seu talento não se perdeu entre os tantos departamento médicos que frequentou. E, em relação a técnica, capacidade de improviso e poder de decisão, nenhum jogador no Brasil se iguala ao camisa 9 corintiano.

As duas vitórias contra o São Paulo e o 3 a 1 sobre o Santos são sinais de que o Alvinegro tem condições de bater qualquer equipe do Brasil. Seria o suficiente para colocá-los na lista de candidatos ao título do Brasileirão? Não tão cedo.

Mano Menezes montou um time bastante equilibrado. Felipe não é o goleiro dos sonhos, mas está em nível aceitável. A dupla de zaga é entrosada e eficiente, os laterais alternam seus avanços, Elias é um segundo volante com capacidade de ser meia, Dentinho e Jorge Henrique se encaixaram bem no esquema de jogo. Douglas ainda destoa, mas o time inteiro consegue jogar com solidez para permitir que Ronaldo brilhe.

O que o Corinthians ainda não tem é uma referência de ataque quando o Fenômeno não está em campo. Não precisa ser um atacante genial como o Fenômeno, mas alguém que, na ausência do titular, possa marcar os gols que o time precisa.

Dentinho até faz gols com uma constância aceitável para um segundo atacante, mas ele não tem características de um finalizador nato. A opção automática seria Souza, mas o jogador mostrou no Parque São Jorge o mesmo que já apresentara no Flamengo: é razoável no trabalho de pivô, mas perdeu o instinto artilheiro e, pior, não tem conseguido lidar com a pressão para fazer gols.

Assim, o Corinthians sem Ronaldo é o Corinthians que fez uma campanha eficiente, mas pálida na primeira metade do Paulistão. A solidez coletiva – sobretudo na defesa – assegura o baixo índice de derrotas da equipe, mas falta repertório ofensivo para construir vitórias diante dos adversários mais fortes. No estadual, isso não é tão problemático. O mesmo não se pode dizer do Brasileirão.

Esse dilema é fundamental para o Alvinegro na Série A. É o que pode fazer o candidato a vaga na Libertadores subir para o status de candidato ao título.

Sinais contraditórios

Apostar em um título próximo em cima de um rival – ainda que pouco importante– ou colocar as fichas em um título distante e incerto – só que mais importante? É exatamente esse o dilema entre os clubes que estão na reta final de seus estaduais. Fazer uma força para ganhar o estadual para não deixar o ano passar em branco ou continuar dedicando suas forças a Libertadores ou Copa do Brasil, sob o risco de acabar perdendo.

Dependendo das circunstâncias, até é compreensível alguma dúvida a respeito de que competição deve ter o time titular. Na Libertadores, é inviável, pois o torneio não perdoa concessões. Na Copa do Brasil, na qual os times grandes ainda enfrentam equipes muito mais fracas tecnicamente, dá para aceitar. Só que, se é para poupar gente na Copa do Brasil, é preciso saber fazer isso. Coisa que o Santos não soube fazer.

O Peixe não conseguiu segurar a euforia após vencer o Palmeiras no Parque Antarctica pela semifinal do Paulista. O problema é que, entre este jogo e a final, havia um duelo com o CSA pela Copa do Brasil. Vagner Mancini até ameaçou colocar um time misto priorizando o jogo contra o Corinthians na decisão. Eram os primeiros sinais de problemas.

Em uma situação como essa, o Santos tinha obrigação de resolver o duelo no jogo de ida. Ainda que não conseguisse vencer em Maceió por dois gols de diferença, precisava ao menos voltar para casa com um placar facilmente administrável. Um empate por 0 a 0 não se encaixa nesse contexto, pois um empate normal com gols já classificaria os alagoanos.

Já que a partida de ida não teve gols, era o momento de os santistas perceberem que a chance de eliminação era razoável. E que o CSA merecia toda a atenção possível. Para isso, o Alvinegro praiano precisaria não apenas estar com os principais jogadores, mas também com a cabeça no time alagoano.

No dia anterior à partida, Mancini anunciou que jogaria com os titulares (foram oito), mas admitia que não tinha como evitar que os atletas estivessem com o pensamento na final contra o Corinthians. Era nítida a sensação de que o Santos não achava necessário se esfalfar em campo para passar pelo CSA. Desenhou-se o desastre. Quando os alvinegros perceberam que a eliminação era mais que possível, não tinham como se recuperar da falta de concentração e preparação pré-jogo.

A eliminação em casa para os alagoanos acabou minando a confiança do Santos para o clássico contra o Corinthians. Um erro que pode não ter sido o definitivo na final estadual, mas que contribuiu para a derrota.

Priorizar um torneio não é apenas usar seus melhores nomes. É também entrar em campo com mentalidade de competição.

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Equipe Trivela

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