Brasil

O mito do planejamento

Definir os objetivos para a próxima temporada, escolher um bom treinador rapidamente, planejar o elenco, correr atrás de contratações e oferecer estabilidade, mesmo com eventuais contratempos. É o famoso planejamento, presente no discurso, muitas vezes ausente na prática. Os primeiros seis meses do ano ilustram que, ao contrário do que normalmente se pensa, clubes e técnicos ainda são incapazes de trabalhar com continuidade.

Entre as 20 equipes da primeira divisão, só sete atingiram seis meses completos de parceria com um treinador. Goiás e Figueirense estão com o terceiro técnico, enquanto o Ipatinga, tido como candidato à lanterna do Brasileirão, já tem em Ricardo Drubscky o quarto comandante no ano.

Se são os clubes que estão acostumados a deixar os treinadores na mão, acentuou-se a quantidade de situações inversas. Gallo, Joel Santana, Caio Júnior, Abel Braga e Roberto Fernandes encontraram melhores situações de trabalho e, assim, resolveram se transferir, mesmo sob contrato. Das equipes “prejudicadas”, apenas o Flamengo e o Náutico já se encontraram. Figueirense e Internacional ainda estão longe de atingirem seus objetivos do início da temporada.

Os treinadores, que tanto pregam pelo trabalho de longo prazo, nem sempre estão mentalmente preparados para suportar uma temporada inteira à frente de um clube, absorvendo derrotas e confiando na força de um suposto planejamento. Geninho, Cuca e Emerson Leão foram demissionários e admitiram não ter mais ambiente para seguir após eliminações na Copa do Brasil (caso dos dois primeiros) e Libertadores. 

Nota-se, então, que uma parcela razoável do futebol brasileiro – clubes e treinadores – ainda está desacostumada a enxergar uma temporada como um período longo onde turbulências e desilusões são naturais e devem ser superadas. No entanto, nem sempre o planejamento como um todo, seja em ter um elenco forte, seja em oferecer estabilidade, funciona. Aí, rompe-se a união entre clube e treinador, imaginando uma melhora.

Nesse contexto, pode ser louvada a manutenção do trabalho de Celso Roth. Após trocar Vágner Mancini por algumas diferenças de vestiário, a direção, que havia trazido Roth, resistiu às duas eliminações traumáticas – na Copa do Brasil e no Gaúcho – e entendeu que o melhor era manter o treinador. Com exatamente um mês para preparar a equipe para o Brasileiro, ele montou um time duro de ser batido e que vem testando seus limites com uma boa campanha na competição. 

Entre os clubes “sobreviventes”, fica claro que a receita da continuidade traz, quase sempre, bons resultados também. Adílson Batista (Cruzeiro), Luxemburgo (Palmeiras) e Muricy (São Paulo) comandam os maiores favoritos – ao lado do Flamengo – para o título do Brasileirão. Some, ainda, Renato Gaúcho na final da Libertadores, e Nelsinho Baptista, campeão da Copa do Brasil, e você chegará aos nomes de cinco dos sete treinadores que se mantêm. Sinal de que sucesso e um bom planejamento caminham próximos.  

Palmeiras entre os quatro

O isolamento do Flamengo na liderança e o avanço do Palmeiras na tabela foram os maiores da rodada. Superando a famosa ressaca de título, os palmeirenses tiveram mais uma partida convincente contra o Náutico e chegaram ao objetivo de alcançar os primeiros colocados. Daqui por diante, a equipe de Vanderlei Luxemburgo é favorita para ao menos uma vaga na próxima Libertadores.

Nos últimos dois jogos, Náutico e Vasco, o Palmeiras esteve longe de ser brilhante, não criou dezenas de chances de gols, nem deu espetáculo. Mas foi seguro. Deixou claro, sempre, que era superior e controlou assim a partida.

É bom se resguardar quanto ao êxodo na janela de transferências. Henrique já se vai para o Barcelona e deixará uma lacuna de difícil preenchimento. Gladstone, seu substituto, é um jogador superestimado e que poucas vezes provou o nome que algumas pessoas lhe dão no futebol. A saída de mais jogadores, como Leandro, Valdívia e Kleber, pode pôr à prova a capacidade de Luxemburgo.

De qualquer forma, o Palmeiras, recuperando o foco, volta a ser um dos caçadores ao título. Tem uma equipe que vai se tornando mais segura no meio-campo, aprendendo a ditar o ritmo e, quando possível, não correndo riscos. Em 30 minutos de jogo contra o Náutico, tinha 70% de posse de bola, por exemplo. 

O inimigo corintiano

Há alguns clubes com morada segura na Série B. Um desses é o Avaí que, a despeito disso, vem se colocando, após oito rodadas, como o maior candidato a perseguidor do Corinthians e naturalmente ao acesso. À frente do time azzurro, como chamam os torcedores, está Silas, ex-meia do São Paulo e que vai mostrando capacidades como treinador em sua segunda oportunidade na carreira – a primeira foi no Fortaleza.

Em entrevista à Folha de São Paulo na última quinta-feira, o treinador ressaltou o objetivo real do acesso após nove anos do Avaí na segundona. Em 2001 e 2004, quando só dois clubes subiam através de um quadrangular final, o clube chegou às decisões, mas bateu na trave. Agora, vê a possibilidade de chegar à primeira divisão com naturalidade.

Invicto na Série B, com quatro vitórias e quatro empates, o Avaí traz, na verdade, uma invencibilidade de 18 jogos, desde o dia 09 de março, quando perdeu pelo Campeonato Catarinense. Na competição, aliás, teve ótima participação, ainda que não levando o título. Para se ter uma idéia, o Avaí somou os mesmos 46 pontos do Figueirense, somando turno e returno, mas quem foi à final foi o Criciúma.

Na segundona, o Avaí vem de três resultados expressivos, sendo duas goleadas e uma vitória de virada dentro da Ressacada. O elenco do qual Silas dispõe é compatível com o que exige a Série B. São jogadores experientes e competitivos, que além de ter qualidade, têm rendido o que espera o torcedor.

Nesse contexto, podem ser citados os meias Marquinhos e Válber, o volante Batista, o goleiro Eduardo Martini, o zagueiro Emerson e o atacante Vandinho. Este, artilheiro do Campeonato Catarinense, foi mantido no clube após grande esforço da direção. Tem recompensado com mais gols e bom futebol – são quatro na Série B. É bom ficarem de olho no Avaí, hoje vice-líder e candidato ao acesso pelo que mostrou em oito rodadas. 

Veja os treinadores que passaram pelos clubes da Série A em 2008 

Atlético-Mg: Geninho (pediu demissão) e Alexandre Gallo

Atlético-Pr: Ney Franco (demitido) e Roberto Fernandes

Botafogo: Cuca (pediu demissão) e Geninho

Coritiba: Dorival Júnior

Cruzeiro: Adílson Baptista

Figueirense: Alexandre Gallo (se transferiu), Guilherme Macuglia (demitido) e PC Gusmão

Flamengo: Joel Santana (se transferiu) e Caio Júnior

Fluminense: Renato Gaúcho

Goiás: Caio Júnior (se transferiu), Vadão (demitido) e Hélio dos Anjos

Grêmio: Vágner Mancini (demitido) e Celso Roth

Internacional: Abel Braga (se transferiu) e Tite

Ipatinga: Emerson Ávila (demitido), Moacir Júnior (demitido), Giba (demitido) e Ricardo Drubscky

Náutico: Roberto Fernandes (se transferiu) e Leandro Machado

Palmeiras: Vanderlei Luxemburgo

Portuguesa: Vágner Benazzi

Santos: Emerson Leão (pediu demissão) e Cuca

São Paulo: Muricy Ramalho

Sport: Nelsinho Baptista

Vasco: Alfredo Sampaio (demitido) e Antônio Lopes

Vitória: Vadão (demitido) e Vágner Mancini

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