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O historiador que pensou o futebol brasileiro e, durante a ditadura, jogou pelo Bolívar no exílio

Joel Rufino dos Santos faleceu nesta sexta, aos 73 anos. Não sem antes deixar um vasto legado à historiografia e à literatura brasileira. O carioca escreveu dezenas de livros. Muitos deles infantis e de ficção. Porém, sua principal contribuição está na maneira como aprofundou os estudos sobre cultura africana e sua herança no país. Coautor de “História Nova no Brasil”, na década de 1960, ajudou a dar uma nova leitura sobre a construção da identidade nacional. E sem ignorar o futebol neste processo. Rufino dos Santos foi um dos primeiros a dar a devida importância ao esporte dentro dos processos políticos e sociais. Não à toa, seu livro “História Política do Futebol Brasileiro”, de 1981, é uma referência na área.

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Antes de se mergulhar nos meandros do futebol além das quatro linhas, Rufino dos Santos era apaixonado pela bola. “Sempre me interessei por poucas coisas, futebol, livros, samba, e minha infância foi isso. Jogava bola o dia inteiro. Se alguém me chamasse: ‘Ah, vai lá em casa!’, perguntava: ‘Tem bola lá?’. Uma obsessão por futebol que se manteve por toda a vida. Uma paixão, digamos assim. As brincadeiras de criança, eu pouco fiz. Meu negócio era bola, dormia com ela”, declarou, em entrevista ao Democracia Viva. E o garoto tinha qualidade nos pés, a ponto de ganhar sobrevida em um dos períodos mais difíceis de sua vida graças ao esporte. Perseguido político nos primeiros anos da ditadura militar, o historiador viu-se obrigado a se exilar do país. A Bolívia acabou sendo o seu primeiro destino. Seu ganha-pão? O futebol.

Fora do país, conviveu com outros tantos intelectuais brasileiros, como os atores Juca de Oliveira e Gianfrancesco Guarnieri, que se sustentavam vendendo roupas usadas. Já Rufino dos Santos ganhou uma chance de treinar no Bolívar, comandado pelo técnico Vinícius Ruas, outro exilado no país vizinho e seu conhecido no diretório acadêmico. A inteligência do escritor com a bola permitiu que se juntasse ao time, permanecendo no hotel com o restante do elenco e ganhando um ordenado por semana. Aguardava um contrato de três meses, que nunca foi firmado, depois que o carioca optou por se exilar no Chile – onde conheceu Pelé, em uma excursão do Santos, e chegou a afirmar: “Achei que se, além de tudo, ele fosse politizado, seria Deus”.

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Apesar da mudança, Rufino dos Santos participou de alguns jogos pelo Bolívar. Aos 23 anos, atuava no meio de campo e, graças também à amizade com o treinador, virou titular. A ponto de enfrentar em um amistoso o Botafogo, time de outro velho conhecido: João Saldanha, seu colega de ideologia no Brasil. E o técnico alvinegro, avisado do “negrinho inteligente que organizava o time” não teve muitas dúvidas sobre o que fazer com o adversário: “Ah, Joelzinho? Ele é do nosso partido. Aquilo não vai dar trabalho nenhum”.

Em depoimento para o documentário da exposição “Política F. C. – o futebol na ditadura”, o intelectual comentou o episódio: “Essa minha passagem de jogador profissional é interessante para mostrar que o exilado se virava, do jeito que fosse. Eu sabia mais como jogar bola do que jogava propriamente. Tem uma sutileza”.

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Meses depois, Joel Rufino dos Santos deixou o exílio e se juntou à luta contra a ditadura militar. Foi preso e torturado. Através da Lei de Anistia, em 1979, pôde se reintegrar à vida acadêmica. Para, dois anos depois, já publicar a “História Política do Futebol Brasileiro”. No livro, o historiador retrata o crescimento do futebol no país, desde as influências do imperialismo em sua institucionalização através de Charles Miller até a popularização entre as massas a partir da expansão das cidades brasileiras. Depois disso, voltou a escrever sobre o esporte, ainda que de maneira menos extensa. A ponto de publicar, logo após a eliminação da Seleção na Copa de 2014, um artigo na Folha de S. Paulo sobre a decadência do futebol-arte no país. Últimas palavras de quem pensou bastante o futebol brasileiro.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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