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“No Brasil, nada conduz tanto à loucura”: como o pai da sociologia brasileira via o futebol

Florestan Fernandes nasceu em uma família humilde. Filho de mãe solteira, empregada doméstica, nunca conheceu o pai. Mas, apadrinhado por uma família tradicional de São Paulo, aprendeu desde cedo o gosto pela leitura. A oportunidade não lhe garantiu vida fácil, muito pelo contrário. Ainda assim, o maior presente ele já tinha recebido, e estava apenas dentro de sua mente. Barbeiro, engraxate e garçom, só estudou até a terceira série durante a infância. No entanto, insistiu em suas ideias e conseguiu se formar em sociologia. Para se tornar uma das maiores referências em ciências humanas no país.

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O legado intelectual de Florestan Fernandes segue como base no Brasil. Tão importante que é considerado por alguns como “o pai da sociologia no Brasil”. Seus livros servem de bibliografia fundamental. E, embora tenha se debruçado principalmente sobre a sociedade de classes, também pensou o futebol. Algo natural para entender a própria identidade do país, como o próprio professor apontava.

Florestan Fernandes faleceu há exatos 20 anos, por conta de uma doença no fígado. Mas, meses antes de sua morte, deixou um texto muito rico sobre futebol, em sua coluna na Folha de S. Paulo – clique aqui e leia na íntegra. Serve exatamente para entender a importância que o esporte tem na própria constituição dos brasileiros como um povo:

Os povos elaboram sua identidade através de suas paixões ou de seu recolhimento. Às vezes, camadas e classes sociais distintas não se sensibilizam da mesma forma. Elas se distinguem pelas tendências e núcleos de seus prazeres e alegrias. Mesmo nas sociedades diferenciadas, porém, existem convergências que estimulam a comunidade de sentimentos e de valores que passam pela música, pela dança, pelas festas coletivas, pela leitura, pelo esporte, etc.

No Brasil, nada conduz à loucura como o futebol. Durante pouco tempo atividade refinada, irradiou-se por toda a sociedade e tornou-se o emblema da hegemonia popular sobre a “cultura das elites”. Estas submeteram-se ao seu desnivelamento e construíram em torno do futebol uma arena de poder, de lucros e de mando, como atestam carreiras políticas, administrativas e financeiras.

Não é por aí, todavia, que se aprende algo profundo sobre o “caráter nacional”. Este se evidencia no mundo de sonhos e de ilusões que arranca do futebol. Primeiro, no conceito de arte, que lhe é aplicado como qualificação mestra. Segundo, no significado que recebe entre jogadores e nas suas relações com os torcedores.

Há a união pelo clube e a que nasce de acontecimentos maiores, como campeonatos e principalmente copas. Terceiro, a exaltação e a consagração dos grandes futebolistas. […] Trata-se de um mundo no qual o profano, a magia e a religião se confundem e quebra a rotina da miséria, da ignorância e da opressão, ainda que por alguns instantes e graças à fantasia.

A derrota é pior que a dor, porque ela não permite prolongar a vitória sobre o sofrimento e a plenitude de viver, a comunhão com os deuses.

E o motivo do ensaio de Florestan Fernandes? A Seleção. O sociólogo puxou o tema após o empate do time de Carlos Alberto Parreira contra o Canadá, durante a preparação à Copa do Mundo de 1994. Romário anotou o gol dos brasileiros, mas Berdusco deixou tudo igual. Um tropeço no caminho do tetra. Alguns conceitos sobre a equipe nacional permanecem bastante atuais, mesmo 21 anos depois:

O empate possui limitado alcance explicativo. Ele só desvela o que já era evidente. Como não se leva a sério a educação e a cultura, mesmo os treinadores e a cúpula da seleção estão entregues ao encantamento mágico religioso. A nossa seleção teria de vencer por “direito divino”… Abandonamos nossas tradições futebolísticas, em vez de aperfeiçoá-las com afinco. Robotizamos os jogadores, como se não fossem pessoas. Controlamos suas ações fora do campo e priorizamos o autoritarismo dos patronos como fator seletivo. Não afastamos os que já não são os melhores e entronizamos os que deveriam provar que o sejam. O que esperar?

A “garra” e o “jogo de cintura” resolvem. Mas nem sempre! Urge varrer a complacência do futebol, junto com os “cartolas” que o infestaram e os técnicos que andam com a cabeça fora do lugar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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