Brasil

O futebol sobrevive

Quarta-feira à noite, Estádio do Vale, Novo Hamburgo, interior do Rio Grande do Sul. Foi esse o palco da final do primeiro turno do Campeonato Gaúcho, chamada de Taça Piratini. O Novo Hamburgo, o time da casa, decidia o título contra o Caxias, que eliminou o Grêmio na fase anterior. Um jogo que representa muito para o futebol. Mais do que isso, dá um caminho para os estaduais.

A partida entre Novo Hamburgo e Caxias foi marcante. Emocionante em campo, com duas torcidas fanáticas por seus clubes, mesmo sabendo que ambos estão distantes dos dois mais ricos e famosos times do estado, Grêmio e Internacional. Não importa. Ambos conseguiram chegar à decisão, o que representa muito para esses times. Depois de tomar um gol de Vanderlei no primeiro tempo, o Noia – como é carinhosamente conhecido o Novo Hamburgo – empatou de uma forma que roteiristas de filmes não conseguiriam imaginar.

Uma ambulância foi usada para atender um torcedor que passou mal. Enquanto ela não voltou ao estádio, o jogo não poderia ser reiniciado. A decisão da Taça Piratini ficou parada no tempo, com torcedores tensos. Quando a ambulância finalmente voltou, a torcida aplaudiu, algo inusitado. E foi depois disso que Mendes, com a cabeça enfaixada, empatou e levou tudo aos pênaltis, o momento mais dramático do futebol.

O Caxias venceu e o volante Mateus – o único que errou entre os cobradores do time grená – afirmou após o jogo e na festa do título que “só bate quem erra”, justificando seu acerto. Uma confusão de palavras, já que claramente o jogador quis dizer o contrário, “só erra quem bate”. De qualquer forma, ele entrou para a história com a frase. Tanto que a hastag #sobatequemerra virou febre no Twitter naquela quarta-feira à noite, quase entrando na quinta – afinal, foi ali, no Twitter, que o jogador publicou a frase que já nasceu clássica.

Sem um grande clube, a Taça Piratini teve uma grande final, um grande desfecho. Mesmo com as federações explorando ao máximo fórmulas terríveis para os campeonatos estaduais, com o início dos jogos no meio de janeiro e justificando dizendo que os pequenos precisam dos grandes, precisam da renda, da visibilidade. Uma justificativa que parece cada vez menos plausível.

Esse pensamento leva times como o Paulista, de Jundiaí, a cobrar R$ 80 por um ingresso para o jogo contra o Santos em casa. Ou o Catanduvense cobrar quase R$ 100 por um ingresso em jogo contra o Palmeiras. Com isso, públicos pequenos em estádio no interior. A suposta “festa do interior” para ver os times grandes ficou só no papel. Morta por dirigentes que só pensaram no lucro. Tudo porque as federações dizem que os pequenos clubes precisam disso. Na verdade, quem precisa do circo são as federações.

O Rio Grande do Sul é um dos palcos onde é possível encontrar diversos jogos de muita rivalidade e que conseguem fazer bons jogos. Neste domingo, São Paulo e Rio Grande se enfrentaram pela segundona. A vitória por 5 a 4 do São Paulo teve taça dada pela rádio Nativa, como informaram os excelentes guris do Toda Cancha. Um clássico. Vive por si. Não depende de Grêmio ou Inter. Não dependem sequer de estar na primeira divisão.

Em São Paulo, Botafogo e Comercial fizeram o famoso Come-Fogo. Um clássico local que merece atenção de toda a população da região. Clássicos regionais são usados como motivos para manter os estaduais. Talvez tenham razão, mas pelos motivos errados. As rivalidades regionais são importantes. As mais importantes, porém, são as que não são repetidas no Campeonato Brasileiro, como Caxias e Juventude, clássico de Caxias do Sul, ou Brasil e Pelotas. Ou ainda São José e Taubaté, rivalidade forte do Vale do Paraíba.

Esses clássicos precisam sobreviver. Só que o estadual tenta matá-los, colocando os times grandes e os priorizando, tentando fórmulas que os coloquem nas decisões. Os times do interior precisam ter mais força entre si, valorizar os jogos entre eles. Os grandes podem participar em um momento diferente. Os times espalhados pelo país não precisam dos grandes para formar grandes campeonatos que aticem suas torcidas.

Os estaduais podem sobreviver. Há times, há tradição, há futebol. Há sangue correndo nas veias de fanáticos torcedores pelo interior do Brasil. Só não podemos deixá-los em estado vegetativo como está agora.

CURTAS

– Kaká jogou uma boa partida pelo Real Madrid e muito já se falou sobre uma possível volta do jogador à Seleção Brasileira. Futebol ele tem. E sem ter grandes craques – Ganso é o único garantido na posição de meia. Sendo assim, mesmo não sendo um titular absoluto do Real Madrid, é um jogador para se contar.

– Robinho é outro que continua fazendo um bom papel no Milan, mas ficou fora da lista de Mano. Não é um nome que resolveria os problemas do time, mas tendo qualidade técnica e experiência, algo que muitos dos convocados não têm, o ex-jogador do Santos parece merecer a chance.

– No jogo contra a Bósnia, na quarta passada, muito se criticou os volantes da Seleção. Uma crítica que, mais uma vez, parece exagerada. Sandro não foi bem, embora seja bom jogador. Reflexo do que tem acontecido no clube, onde não é titular – Scott Parker, que virou capitão da Inglaterra, dominou a posição desde o início da temporada. Fernandinho, porém, foi muito bem mais uma vez. Fez ótimos passes e deixou ao menos duas vezes os companheiros na cara do gol. Arma o jogo vindo de trás, como no Shakhtar, onde era meia ofensivo e virou volante. Elias entrou muito bem no jogo, melhorou a saída de bola e também fez passes importantes, deixando companheiros em condição de marcar.

– Ainda assim, há quem diga que o problema da Seleção são os volantes. Arouca pode ter chance, mas não é (muito) melhor do que qualquer um que esteja lá. Não é melhor, certamente, que Lucas Leiva, por exemplo. Tanto que o Santos de 2011 melhorou quando Adriano entrou no time da VIla, fazendo a função de primeiro volante e deixando Arouca mais livre para jogar. O problema da Seleção passa longe dos volantes.

– O Santos sofreu para vencer um Corinthians reserva, mesmo com seus principais jogadores em campo. O time do Santos é ótimo, mas não é melhor do que o do Corinthians ou de outros concorrentes no Brasil, como Fluminense e Vasco. Sem Neymar e Ganso, o time fica atrás desses concorrentes.

– Nesta quarta, começa a Copa do Brasil. Um dos campeonatos mais legais do território nacional. E será ainda melhor no ano que vem, quando mais times participarem.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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