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O Cruzeiro tenta se eximir dos próprios erros, mas comete outro ao demitir Marcelo Oliveira

A pressão vivida pelo Cruzeiro é inegável. A eliminação na Libertadores veio do jeito mais atordoante possível, com o time apático atropelado pelo River Plate no Mineirão. Para piorar, o time vive um péssimo início no Campeonato Brasileiro, ocupando a vice-lanterna após a derrota para o Figueirense. Obviamente, há uma necessidade de mudanças na Toca da Raposa. Mas que não precisava necessariamente de uma atitude tão radical quanto à tomada pela diretoria nesta terça: demitir Marcelo Oliveira, o técnico bicampeão nacional com os celestes. E não é que as perspectivas melhorem muito, já que o substituto confirmado pela diretoria é Vanderlei Luxemburgo, mandado embora do Flamengo há uma semana.

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Marcelo Oliveira não está isento de culpa, é claro. Os maus resultados recentes passam por suas ordens. As críticas sobre a forma como o time se porta nos mata-matas não são tão recentes assim, da mesma maneira como o treinador merece ser contestado por algumas opções de jogadores que fez. Mas como responsabilizar apenas ele por um elenco que se desmanchou nos últimos meses? Depois de perder muitos dos principais protagonistas do bicampeonato brasileiro, o técnico fazia um trabalho de reconstrução. Que até começava a mostrar resultados, ainda que a noite de pesadelo contra o River Plate no Mineirão tenha desprezado isso. Só não precisava jogar tudo fora.

A reposição do Cruzeiro não foi à altura do que Marcelo Oliveira perdeu no início do ano. Assim como algumas apostas do clube não se encaixaram no elenco de imediato, ao contrário do que aconteceu na montagem da base bicampeã brasileira. A principal tarefa de Marcelo Oliveira seria repensar os próprios conceitos, sobre a maneira como o time se comporta em campo e o encaixe de alguns jogadores mais novos. Nada que não pudesse fazer, para um treinador que conseguiu reciclar a equipe dentro da própria campanha dos títulos nacionais, que necessitou da regularidade ao longo de 76 rodadas. Não dava para sonhar muito com o tri. Mas, focando na Série A, ainda tinha chão para recuperar o fôlego.

A atitude da diretoria do Cruzeiro é o que mais incomoda. Primeiro, pelas próprias declarações do presidente Gilvan de Pinho Tavares, que nos últimos dias rechaçou os méritos de Marcelo Oliveira para dizer que os próprios dirigentes montaram o time bicampeão brasileiro – composto por várias apostas e nomes desacreditados, que, na verdade, só renderam tanto pelo trabalho do técnico. Além do mais, os cartolas também tentam se eximir dos erros pela própria reformulação do grupo neste ano. Não só pela sangria ocorrida, como nos próprios equívocos nas contratações, com muitos nomes para o centro do ataque e para as laterais, enquanto a zaga sofreu com os problemas e as opções ruins que sobraram.

O Cruzeiro não precisava dar tantas brechas e ser apático contra o River Plate. Mas fica bem mais difícil de cumprir a missão quando Dedé segue lesionado, Bruno Rodrigo não reencontra o futebol seguro de anos atrás, Manoel está longe de ser o que brilhou no Atlético Paranaense e Leandro Damião só é decisivo no Campeonato Mineiro. E, ao que parece, a vinda de Vanderlei Luxemburgo não dá muitos indicativos de que a diretoria buscará novos nomes para melhorar o elenco, já que o clube tem seus problemas de investimento ao sequer conseguir um patrocínio máster. Se a justificativa é a de que o técnico era o problema, ter que trabalhar com as opções atuais não traz tantas perspectivas aos cruzeirenses. Até porque a maioria tem consciência que, apesar da qualidade de Gabriel Xavier ou De Arrascaeta, é muito difícil esperar que eles repitam Éverton Ribeiro ou Ricardo Goulart.

Luxa, por mais que tenha um excelente histórico na Toca da Raposa na célebre Tríplice Coroa, atualmente virou um treinador paliativo. Cumpre as expectativas nos primeiros meses, para cair de nível na virada do ano. Acaba se perdendo em meio ao próprio embalo, como ficou bem claro no Flamengo. Ainda que o treinador não possua outros interesses de bastidores, como acontecia na Gávea, é difícil esperar algo revolucionário na sequência do Brasileiro. O que ele pode realmente trazer de novo? Nada que o próprio Marcelo Oliveira não pudesse fazer melhor.

Diante de tudo isso, a demissão de Marcelo Oliveira parece um desrespeito. Não pelo momento delicado que o técnico vive, uma semana após perder a mãe. E sim por toda a maneira como a diretoria cruzeirense menospreza o seu trabalho e os seus resultados, com quase 70% de aproveitamento. As peças não são as ideais, mas o técnico poderia repensar o coletivo para uma semana que já se desenha decisiva, pegando Flamengo e Atlético Mineiro entre quarta e domingo. Luxemburgo contará com mais paciência de seu entorno. Algo que Marcelo Oliveira precisava, e que poderia ajudar o próprio clube. Mas a diretoria preferiu lavar as mãos diante da degringolada que faz o bicampeão brasileiro frequentar a rabeira da tabela.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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