O adeus de Buffon reflete até como o Brasil foi privilegiado por seus goleiros nas últimas três décadas
O aprimoramento de goleiros evoluiu no Brasil, enquanto o mercado esteve mais protegido ao interesse estrangeiro, o que permitiu a consagração de ídolos em vários clubes de massa

A aposentadoria de Gianluigi Buffon nos faz olhar para a história. Um dos melhores goleiros de todos os tempos pendurou as luvas e, como num exercício automático, se pensa em qual o seu tamanho nos livros do futebol. É um lugar privilegiado e muito grande, que permite, com argumentos totalmente compreensíveis, colocá-lo como o maior de todos os tempos. A própria trajetória longuíssima de Buffon se cruza com as de outras tantas lendas e o italiano vence basicamente todos os duelos. Inclusive, há alguns brasileiros que o fazem companhia nessa caminhada. Taffarel o antecedeu e o sucedeu no Parma. Dida e Júlio César foram adversários de peso na Itália.
E o exercício de pensar sobre o maior goleiro da história, também de forma natural, se reflete para dentro do Brasil. A missão de debater quem é o melhor camisa 1 do país em todos os tempos talvez seja inclusive mais árdua. Afinal, o futebol brasileiro pode se considerar privilegiado na posição, sobretudo durante as últimas três décadas. A quantidade de goleiros que se tornaram lendários em seus clubes desde os anos 1990 é imensa. É mais fácil pensar num arqueiro recente que esteja de maneira incontestável no topo da história do seu time do coração do que um jogador de linha. Reflexos do tempo e da posição.
A longevidade e a preservação
Um dos fatores importantes nessa ideia é como, de certa maneira, os goleiros preservam uma longevidade que se tornou bem mais rara em jogadores de linha. E não é apenas uma questão de como suas carreiras duram, mas também da forma como continuam atrelados aos clubes. Na posição, ainda há uma preservação que remete a tempos mais distantes, de meados do Século XX, quando os jogadores passavam uma década inteira na mesma casa. Hoje, é mais fácil ver arqueiros de “um clube só” do que jogadores de linha. Ser goleiro não deixa de ser um cargo de confiança. E, da mesma maneira, é uma posição menos bombardeada pelo interesse estrangeiro.
É verdade que o Brasil teve alguns goleiros revolucionários que abriram portas para o país no exterior. A história de Jaguaré rumo ao Barcelona e ao Olympique de Marseille é pioneira. Em sua primeira passagem pelo Parma, Taffarel se tornou o único goleiro estrangeiro em 15 anos dourados do Campeonato Italiano e inaugurou uma era a tantos compatriotas mais. Esse fluxo se tornou mais intenso desde então, tão bem retratado pelo moral que Alisson e Ederson possuem na Premier League. Ainda assim, a demanda por goleiros brasileiros no exterior se sugere menor do que a capacidade local de formação.
Parece totalmente factível pensar num Weverton como titular absoluto de algum clube importante da Europa. Entretanto, numa posição que não necessariamente é o centro dos investimentos dos clubes estrangeiros, sobretudo quando há limites em relação aos extracomunitários, permanecer no Brasil também é uma ótima opção. Há estabilidade, a vantagem de seguir vivendo no próprio país, reconhecimento dos times. Não à toa, alguns goleiros brasileiros que não deslancharam no exterior acabaram voltando e se tornaram imensuráveis por aqui – a exemplo de Cássio ou então de Jefferson.
Sim, alguns dos maiores goleiros brasileiros das últimas três décadas deixaram o país e se provaram na elite do futebol mundial. Entretanto, atuar no exterior não necessariamente era essencial para o reconhecimento de um grande goleiro. Dida chegou a ser melhor do mundo nos tempos de Milan, mas já tinha seu lugar na história garantido antes disso, pelo que fez no Brasil durante os anos 1990. Da mesma maneira, alguns goleiros brasileiros com longas trajetórias no exterior, inclusive com passagens por grandes clubes, não estão na primeira prateleira do que se produziu no país. Doni costuma ser o exemplo mais lembrado.
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A evolução técnica
O que auxilia também a produção de ídolos em massa entre os goleiros brasileiros é a evolução técnica da posição. O Brasil se tornou um país de ponta no treinamento de goleiros, especialmente a partir dos anos 1990. Muitos goleiros excelentes deram um passo além através desse aprimoramento, enquanto o trabalho desde as categorias de base também avançou bastante. Numa posição com pouca rotatividade e grande durabilidade, foi possível apreciar verdadeiros paredões por muito mais tempo.
Tal capacidade de produzir goleiros criou inclusive uma proteção ao mercado nacional dentro do Brasileirão. A invasão de arqueiros estrangeiros no país é muitíssimo menor que a de jogadores gringos de linha nos últimos anos. Foi-se o tempo em que parecia compensar a aposta num Henao ou num Tavarelli, goleiros renomados no exterior, mas de talento duvidoso. A qualidade que se tem no Brasil é muito grande. Geralmente vale mais apostar no desenvolvimento de jovens vindos das categorias de base do que necessariamente trazer um medalhão de fora.
E as conquistas auxiliam nesse processo de glorificação dos goleiros brasileiros. Antigamente, talvez fosse mais comum encontrar clubes locais campeões que contavam com goleiros questionáveis. Nas últimas décadas, a base de qualquer time vencedor depende muito de quem protege o gol. E, com o nível cada vez mais alto da posição, isso faz muita diferença. Praticamente todos os times que ganharam a Libertadores ou o Brasileirão nos últimos tempos contaram com goleiros excepcionais. Deram um salto na história também por aquilo que fizeram nessas campanhas, mesmo aqueles que não eram exatamente os mais regulares. Um goleiro inspirado passou a fazer mais a diferença.
O debate sobre quem é maior
Longevos ou de auges excelentes, é fato que muitos goleiros cavaram seu espaço na história do futebol brasileiro durante o período mais recente. Certamente você poderá pensar em pelo menos um arqueiro memorável do seu clube, talvez mais de um, que conversem no mesmo tom com os mitos cultuados em períodos mais antigos. E nem precisa fechar essa discussão apenas nos chamados “grandes”: muitos clubes de projeção mais regional também ganharam suas lendas. Arqueiros que superaram fronteiras e se tornaram conhecidos nacionalmente, em alguns dos casos.
Dida pode ser citado em três clubes – Vitória, Cruzeiro, Corinthians. Há uma profusão de nomes em São Paulo: ainda Cássio e Ronaldo no Corinthians; Velloso, Marcos e Weverton no Palmeiras; Rogério e Zetti no São Paulo; por períodos mais curtos, Fábio Costa e Rafael Cabral no Santos. Os debates em Minas Gerais são acalorados entre Fábio e Victor, sem esquecer de outros vitoriosos como Gomes e Everson. No Rio Grande do Sul, há marcas profundas pelas Libertadores protagonizadas por Danrlei ou Clemer, enquanto Grohe e Alisson são xodós mais recentes. Os cariocas aplaudiram ídolos como Júlio César, Carlos Germano, Jefferson e Diego Cavalieri. O Paraná teve uma baita escola, que vai de Vanderlei a Bento. E isso sem renegar outros amados de Norte a Sul – Magrão, Harlei, Marcelo Boeck, Vinícius e por aí vai.
Os argumentos para a discussão sobre quem é o melhor goleiro do Brasil nos últimos 30 anos partem muito das experiências pessoais, das vivências, da própria idolatria – até do clubismo, se você quiser. Todo mundo vai ter um nome para defender com mais carinho ou para elevar na lista, por aquilo que viu da arquibancada ou do sofá. Certo é que o futebol brasileiro não pode reclamar da sorte (e da capacidade de formação) que teve ao longo do período. Ninguém chega a competir com um Buffon, tudo bem. Mas só de alguns serem recordados no debate já vale demais.



