Brasil

O adeus a Marcelo Veiga, um emblema do Bragantino e também um orgulho ao futebol do interior

O apelido de “Ferguson do Interior” misturava uma dose de brincadeira com a reverência por uma relação tão duradoura, dentro das efemeridades vividas no futebol – e ainda mais na carreira de treinador. Marcelo Veiga contabilizou seis passagens pelo Bragantino, alcançando os 516 jogos à frente do Massa Bruta. O técnico esteve mais tempo à frente do Braga que Osvaldo Brandão no Corinthians, e faltaram só 16 partidas para igualar os números de Vicente Feola no São Paulo. É essa a dimensão de um comandante que recusou clubes poderosos e passou cinco anos ininterruptos em Bragança Paulista, vivendo grandes campanhas. É essa história fantástica que todo torcedor, especialmente de times mais modestos, gostaria de contar: a de um treinador que virou emblema do clube e liderou tantos momentos inesquecíveis. É esse o orgulho que carregará para sempre a torcida do Bragantino, no dia do adeus a Marcelo Veiga, um técnico que tanto significa ao futebol do interior.

Antes de ser ídolo do Bragantino como comandante, Marcelo Veiga foi um bom lateral esquerdo, com passagens por diferentes clubes de massa do Brasil. À beira do campo, dirigiu uma penca de times tradicionais e também teve sucessos além de Bragança, sobretudo o título da Série D com o Botafogo de Ribeirão Preto em 2015. De qualquer maneira, foi com o Massa Bruta que o treinador alcançou seus grandes feitos – que não se resumem a troféus, já que abarcam também a longeva relação de confiança. Chegou a conquistar duas vezes o acesso à Série B. O último deles, em 2018, foi um passo essencial à transformação do atual Red Bull Bragantino – mesmo que a nova diretoria não tenha confiado o suficiente em Veiga para a continuidade do projeto.

Aos 56 anos, Marcelo Veiga parecia ainda ter muito a contribuir para o futebol brasileiro, e sobretudo de São Paulo. Vivia um ótimo ano à frente do São Bernardo, mesmo ficando a um triz do acesso no Paulistão. O treinador, porém, foi mais uma das 181,4 mil vítimas da COVID-19 no Brasil. Diagnosticado com a doença em 13 de novembro, o comandante viu sua saúde se deteriorar rapidamente e acabaria internado na UTI da Santa Casa de Bragança Paulista no dia 20. Não resistiu nesta segunda-feira, deixando como legado um rico passado no futebol.

Nascido em São Paulo, Marcelo Veiga começou nas categorias de base do Santo André. Meia nos times juvenis, não demorou a despontar como um bom lateral esquerdo, de qualidade nas bolas paradas – lançado como profissional por Jair Picerni em 1982. Depois de alguns anos no Ramalhão, um dos grandes momentos de sua carreira aconteceu no Ceará, vestindo a camisa do Ferroviário. Chegou a ser capitão e teve atuações memoráveis com a camisa coral durante a conquista do Campeonato Cearense de 1988. Anotou um dos gols na histórica decisão do terceiro turno contra o Ceará, em que o Vozão perdeu a vaga durante a prorrogação, mesmo após golear por 5 a 1 no tempo normal, e também assinalou o tento do título diante do Fortaleza. Tamanho moral permitiu saltos ainda maiores.

O ápice da carreira de Marcelo Veiga como jogador aconteceu no início dos anos 1990. Teve bons momentos no Santos, em chance garantida pelo lendário Pepe, então treinador alvinegro. Vestiu a camisa do clube de seu pai, que faleceu apenas uma semana após o título cearense com o Ferroviário e não viu o filho atuar na Vila Belmiro. Apesar do período de vacas magras na Baixada, deixou seu nome marcado. Depois, Marcelo acabou levado como reforço de peso pelo Internacional. Não emplacou no Beira-Rio, mas fez parte do elenco campeão da Copa do Brasil em 1992. E ainda teve bola para vestir as camisas de outros clubes da primeira divisão do Brasileirão – incluindo Goiás, Portuguesa e Bahia. Já na segunda metade da década, o defensor rodou um pouco mais. Defenderia Joinville, Fortaleza, Atlético Goianiense, Itumbiara e Matonense. De qualquer maneira, o paulista não esperou muito para logo assumir a carreira de treinador.

Marcelo Veiga também começou a ganhar bagagem na casamata rodando pelo interior de São Paulo. Dirigiu equipes como Lemense, Matonense, Guaçuano e Taquaritinga. O comandante chegou a voltar ao Ferroviário em 2004, para a Série C. Pouco depois, iniciaria sua forte relação com o Bragantino. Logo nesta primeira passagem, recolocou o Massa Bruta na elite do Paulistão em 2005, encerrando uma ausência de dez anos na primeira divisão estadual – em intervalo no qual o clube se manteve parcialmente na Série A do Brasileirão. Seria o início de uma longa história de amor.

Depois do sucesso, Marcelo Veiga deixou o Bragantino, passando por Francana e Portuguesa. Voltou para fazer um pouco mais de história em Bragança, levando o time às semifinais do Paulistão em 2007. O Massa Bruta seria eliminado apenas por ter campanha inferior à do Santos, após dois empates sem gols. Na sequência, Marcelo Veiga ainda dirigiu Paulista e América de Natal, este na historicamente negativa campanha do Brasileirão de 2007. Sem durar muito no Machadão, retornou ao Braga pouco depois. E transformaria sua sorte no desfecho do ano: o Bragantino ainda faturou o título da Série C de 2007, numa edição na qual o Bahia era o principal concorrente.

Esta foi a passagem mais duradoura de Marcelo Veiga pelo então chamado Estádio Marcelo Stéfani, que até mudaria de nome para Nabi Abi Chedid durante o intervalo. Foram quase cinco anos ininterruptos comandando o Massa Bruta, de 2007 a 2012. Nessa época, chegou a negar propostas de Corinthians e Santos. Passou bons anos no Braga e ensaiou o acesso à Série A, ficando a três pontos de subir à elite do Brasileirão em 2011. O clube também se estabilizou na primeira divisão do Paulistão, disputando os mata-matas em 2012. Além disso, ajudou a revelar alguns nomes de destaque – incluindo Paulinho, Romarinho e o zagueiro Felipe. A partir de então, a relação do treinador com a agremiação se tornaria mais esporádica.

O sucesso de Marcelo Veiga não se limitou ao Bragantino, cabe frisar. Ao longo da última década, o treinador dirigiu clubes como o Remo, a Portuguesa, o Guarani e o Mogi Mirim. Uma forte relação seria construída no Botafogo de Ribeirão Preto. Foram duas estadias no Pantera, a primeira delas deixando boa impressão com a caminhada até os mata-matas do Paulista de 2013. Já em 2015, o treinador lideraria uma campanha de destaque nacional, com o título do Botafogo no Brasileirão da Série D.

Por fim, o último grande trabalho de Marcelo Veiga aconteceria mesmo no Bragantino – como haveria de ser. O treinador evitou que o time caísse na Série C em 2017. Mais notável, chegou às quartas de final do Paulistão em 2018 e liderou a campanha do acesso à Série B na sequência do ano, surpreendendo o favorito Náutico nos mata-matas. Todavia, o fraco desempenho no Paulista de 2019 acelerou a saída de Veiga. No momento em que aconteceu a fusão com a Red Bull, os novos donos preferiram demitir a comissão técnica e trazer Antônio Carlos Zago, que tinha se destacado no estadual com o Red Bull Brasil. Ao menos, dois meses depois, Marcelo Veiga receberia merecidamente o título de Cidadão Bragantino.

Marcelo Veiga dirigiu o Ferroviário em parte da Série C de 2019. Já neste ano de 2020, quase levou o São Bernardo de volta à elite do Paulistão, caindo apenas no jogo do acesso contra o São Bento. Já na Copa Paulista, mesmo com o treinador internado, o Bernô alcançou as semifinais diante da Portuguesa. Jogará a segunda partida nesta quarta. E os atletas certamente terão um motivo a mais para lutar dentro de campo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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