Nos seus 65 anos, Serginho tem um grande presente: enfim, é visto como gente boa
Durante os 20 anos de duração de sua carreira profissional, Sérgio Bernardino deve ter se acostumado muito a ouvir duas coisas. Elogios, pela capacidade que tinha de mandar a bola para as redes, fosse do jeito que fosse. E reações irregulares – indo da incredulidade bem humorada à censura – ao gosto que tinha pela irreverência, pelas confusões, pela vida boêmia. Muito tempo se passou. E hoje, neste 23 de dezembro em que completa 65 anos, Serginho pode olhar contente para trás: ao ser mencionado numa conversa sobre futebol, Serginho Chulapa (apelido dado a ele pelo narrador Silvio Luiz, pelo pé tamanho 44 que tem) é sinônimo de bom humor e risadas. Além do mais, é ídolo de duas grandes torcidas paulistas. Ou seja, ficou o lado bom.
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E o lado bom, goleador, de Serginho caminhou sempre paralelo ao lado irascível (às vezes, ruim). No bairro paulistano da Casa Verde, onde nasceu e cresceu, Serginho foi mais um jogador a ter infância difícil – até hoje o incomoda a lembrança do pai falecido, cuja relação com os filhos era tensa, às vezes violenta. Chulapa por várias vezes reconheceu: não fosse o futebol, poderia ter ido para o crime. Só que, no futebol, Serginho aproveitava as opções que a várzea lhe oferecia: jogava pelo Vasco da Gama ou pelo Cruz da Esperança, times do bairro natal. Aos 17 anos, foi visto por um treinador da base do São Paulo. Começava aí o caminho para escapar dos tempos duros – e a primeira grande história de sua carreira.
São Paulo: o primeiro ato
Desde a estreia pelo São Paulo, em 6 de junho de 1973, contra o Bahia, num amistoso, em chance dada pelo técnico Telê Santana (numa primeira passagem rápida e ruim pelo time do Morumbi), Serginho virou sinônimo de gols. Não de técnica: de gols. Graças ao seu corpanzil respeitável (1,91m), o centroavante conseguia proteger dos zagueiros a posse de bola – para, a partir daí, fazer sua típica jogada, girando o corpo para chutar. Sua movimentação desengonçada, usando muito os braços, rendeu mais um apelido: “Tamanduá-bandeira”, vindo do narrador Osmar Santos.
Assim ele se tornou símbolo de São Paulo nos anos 1970: campeão paulista em 1975 (e goleador do campeonato estadual, com 22 gols), novamente bicampeão paulista em 1980 e 1981, campeão brasileiro em 1977. De Terto e José Carlos Serrão a Heriberto e Paulo César “Capeta”, do amigo Muricy ao desafeto Waldir Peres – desafeto por, titular absoluto, não abrir espaço para Toinho, reserva e amigo – Chulapa era a referência são-paulina na área. E resumiu seu estilo à perfeição logo após a final do Paulista de 1981, contra a Ponte Preta – quando, só para não perder o costume, deixou o dele nas redes: “Eu não joguei bem. Mas centroavante não tem de jogar bem. Tem é de fazer gols”. E ele fez: 242 em 399 jogos. Ainda hoje, 36 anos depois de deixar o Morumbi, o maior goleador da história do São Paulo Futebol Clube.
Paralelamente à figura do goleador, vinha a figura do malandro. Às vezes, protagonista de histórias saborosas: em 1973, num rápido empréstimo ao Marília para ganhar experiência. Nos meses que passou no MAC, arrumou namoro com uma cidadã de Marília. Não haveria problemas, não fosse o pai da moça um sujeito bravíssimo, que o ameaçava matar caso voltasse à cidade para buscar a amada do momento. Resultado: após a volta ao São Paulo, já em 1974, dali por diante, Serginho evitaria ao máximo jogar partidas lá. Se já tivesse cartões amarelos, dava um jeito de ser expulso; se não, buscava as suspensões. Se ficava longe da amada, também ficava longe da perseguição do pai dela.
Só que, às vezes, a esperteza demasiada engolia o esperto. Foi assim, principalmente, em 12 de fevereiro de 1978. São Paulo e Botafogo-SP se enfrentavam, no estádio Santa Cruz, pela terceira fase do Campeonato Brasileiro de 1977 – sim, só terminou em 1978. O time de Ribeirão Preto fazia 1 a 0, até os 45 minutos do segundo tempo, quando Serginho (vice-artilheiro do torneio àquela altura) empatou. Frustrou-se: o auxiliar Vandevaldo Rangel apontou impedimento, e o juiz Oscar Scolfaro anulou o gol. Furioso, o atacante não só foi para cima de Vandevaldo, como deu-lhe um pontapé que o deixou mancando. O ato impensado rendeu suspensão de catorze meses, depois encurtada para 11. Serginho ficaria fora da reta final do primeiro título brasileiro do Tricolor, fora da Copa de 1978 para a qual era fortemente cogitado. Até hoje, 40 anos depois, o lamento pela suspensão se resume numa frase do paulistano, refletindo os vários jogos em que a força física, um de seus pontos fortes, foi fundamental no Mundial da Argentina: “1978 era a minha Copa”.
Outra confusão em que saiu perdendo envolveu um desafeto seu. Foi em 3 de maio de 1981, na decisão do Campeonato Brasileiro. Em pleno Morumbi, contra um São Paulo mais aquinhoado tecnicamente, o Grêmio já tinha o 1 a 0 de seu título. A partida já estava no final. Leão, goleiro gremista, agarrou uma bola e ficou no chão, para que o tempo passasse. A antipatia do arqueiro com Serginho era mútua (e ainda é, aliás). Serginho, perto da área, mal no jogo, sofrendo com furúnculos no ânus, com vários algodões na região. Àquela altura, o sangue já era visível. A piada quicou e Leão aproveitou. Deitado, provocou: “Que é isso, negão, ‘tá menstruado?!”. Foi o bastante para o pavio curto de Chulapa explodir: chegou, pisou no rosto de Leão, foi expulso. Mais um momento em que Serginho não soube usar a malandragem inteligente da qual já era sinônimo.
Após os previsíveis puxões de orelha, Serginho se recompôs. Continuou titular do São Paulo. Mas, em 1982, algo se perdeu. Na Seleção Brasileira, andava sempre nas convocações de Telê Santana rumo à Copa do Mundo. Pelas discordâncias de Telê com Reinaldo, já se tornou reserva imediato de Careca, opção preferencial a princípio. Às vésperas da Copa, porém, Careca sofreu séria lesão muscular e foi cortado. Caminho aberto para Serginho ser titular. Porém, se o atacante sente até hoje que 1978 era a sua Copa, também é o primeiro a concordar com as críticas sobre suas atuações na Espanha: reconhece que seu estilo mais corpulento não combinou com o tipo de jogo daquela equipe. E também reconhece que se policiou até demais, para controlar o temperamento na Copa. Fez dois gols, contra Nova Zelândia e Argentina. Mas foi visto como decepcionante na campanha brasileira em 1982.
Simultaneamente, no segundo semestre, passou a perder importância no São Paulo, indo e voltando do banco de reservas. Era hora do fim do primeiro ato de sua carreira: nove anos depois de chegar ao Morumbi, Serginho saiu. Para ganhar nova idolatria.
Santos: o segundo ato
Porque foi chegar ao Santos, no começo de 1983, aos 29 anos, escolhido a dedo e merecendo gasto generoso do presidente Milton Teixeira, que Serginho Chulapa se adaptou rapidamente. Gols não faltaram: já no Campeonato Brasileiro, foi novamente artilheiro, com 22 gols. Tendo a seu lado nomes técnicos, como o meio-campista Pita, ou firmes, como o zagueiro Márcio, o centroavante se viu novamente no confortável papel de referência, de homem-gol, daquele em quem a torcida sempre confia. E Serginho merecia a confiança. A prova definitiva disso veio em 2 de dezembro de 1984: foi o autor do”.
Não bastassem os gols, a irreverência que fazia a torcida rir continuava intacta. Em fatos ainda hoje curiosos. Como os dois ocorridos em Corinthians 0x0 Santos, na primeira fase do Campeonato Paulista de 1983. Numa ação para promover um disco bissexto de sambas que gravou (“Camisa 9”, de 1983), Serginho entrou em campo no Morumbi de fraque e cartola por cima do uniforme. Jogo iniciado, já no segundo tempo, eis que Serginho começa a trocar socos com o zagueiro Mauro, do Corinthians. Foi o início de uma briga generalizada que tomou conta do gramado, sendo mais comentada do que o jogo em si. Ficaram mágoas? Que nada: já na noite daquele domingo, 31 de julho de 1983, Serginho e Mauro, ambos da Casa Verde, estavam abraçados, curtindo um samba na quadra da Camisa Verde e Branco, tradicional escola de samba paulistana, a agremiação do coração de Chulapa – até hoje, vez por outra, lá está ele nos desfiles da Camisa durante o Carnaval.
Já outros momentos fizeram Serginho, novamente, correr riscos. Por exemplo, a agressão ao fotógrafo Ignácio Ferreira, da revista “Placar”, logo após a derrota santista para o Flamengo, na final do Campeonato Brasileiro de 1983, levando outros santistas a também entrarem na briga. Ou uma acusação de agressão a Nancy, sua esposa na época – assunto que também incomoda o ex-jogador, ainda hoje. E se fosse necessário, ele lembra, a partida decisiva do Paulista de 1984 também seria “melada” em caso de derrota do Santos. Até porque nomes de sangue quente não faltavam naquele time campeão paulista: o supracitado Márcio, o volante Dema e Rodolfo Rodríguez, outro estandarte santista daqueles tempos, que definia assim o temperamento do colega: “Serginho não foi feito para perder”.
Talvez Serginho também não tenha sido feito para deixar o Santos. Porque, de 1983 em diante, sempre que se viu longe da Vila Belmiro, entrou em más fases. A primeira, em 1985: comprado pelo Corinthians, que ambicionava formar um time estelar para o Campeonato Brasileiro, o centroavante se entrosou com alguns (como Casagrande, até hoje um bom amigo), mas ficou isolado por outros, que ainda levavam as mágoas do Paulista ganho pelo jogador e perdido pelo clube em 1984. As atuações foram decepcionantes, e na volta ao alvinegro praiano, em 1986, Serginho foi claro: “Estou de volta ao Santos, após um período de férias no Corinthians”.
Serginho também teve período menor no Marítimo, de Portugal, em 1987: cinco jogos, quatro gols, e ele logo retornou à Vila. Iludiu-se ao deixar o Santos motivado por um projeto que o levou ao Malatyaspor, da Turquia, em 1988: mesmo sendo acompanhado do goleiro Carlos e do atacante Éder, ele teve problemas vários (da falta de adaptação aos salários não pagos) e não sossegou enquanto não deixou Malatya para voltar à Baixada Santista. E por mais que tenha passado por outros times paulistas na reta final da carreira – Portuguesa Santista (1991), São Caetano (1991 a 1993) e Atlético Sorocaba (1993) -, também criou com o Santos um elo tão forte quanto o que já tinha com o São Paulo. Elo justificado dentro de campo: com 104 gols em 204 jogos nas quatro passagens (1983 e 1984, 1986, 1988 e 1989 a 1990), foi por muito tempo o maior goleador do clube após o fim da carreira de Pelé.
E o elo ainda segue, desde 1993. Mesmo com uma passagem pela vizinha Portuguesa Santista ali e outra pela Sãocarlense acolá, Serginho fica lá, na comissão técnica, na Vila Belmiro ou no CT Rei Pelé, sendo uma espécie de símbolo do que é o Santos – em 2015, disse sempre ter sido seu time do coração à TV Tribuna: “Quando eu era moleque, saia da escola para ver o Santos no Pacaembu. Sempre foi. Mas mesmo assim, jogando lá (São Paulo), eu nunca falei nada. Eu fui profissional. Depois que eu saí, falei que era santista”.
Ainda viveu momentos tensos. Em 1994, veio a agressão ao repórter Gilvan Ribeiro – então trabalhando no jornal paulista “Diário Popular”, hoje desativado -, após derrota para o Corinthians no Campeonato Brasileiro, numa das várias passagens como técnico santista. Nas passagens de Emerson Leão pelo Santos, afastamento voluntário: “Se ele entra por uma porta, eu saio por outra”.
Mas o tempo, só ele, foi apurando o senso de malandragem. E hoje, se merece presentes pelos 65 anos, Serginho já os tem. É ídolo de duas grandes torcidas: os santistas o adoram, e não há são-paulino com mais de 50 anos que não se lembre de seus gols. E ao invés de ser lembrado como alguém encrenqueiro, é lembrado como sinônimo de bom humor no futebol brasileiro. Um bom humor conhecido pelos amigos da Casa Verde. E que eles retribuíram sempre, em anedotas como vê-lo deixando um bar e gracejando: “Lá vai o maior centroavante do futebol brasileiro: não tem outro com mais de 1,90m…”.



