Brasil

No amistoso que celebrou a amizade, o melhor ficou por conta da narração de Rafael Henzel

O intuito da noite era exaltar a amizade. Agradecer a solidariedade que os colombianos ofereceram aos brasileiros nos dias mais difíceis após o acidente com o avião da Chapecoense. Celebrar a vida daqueles que sobreviveram à tragédia. E estender a mão mais uma vez às famílias das vítimas, que precisam de carinho e humanidade para seguir em frente, assim como de recursos financeiros. Por mais que o público no Estádio Nilton Santos tenha ficado aquém da grandeza da ocasião, valeu pela iniciativa. Valeu pela união que as seleções de Brasil e Colômbia reforçaram em campo, com a vitória do time de Tite por 1 a 0. Valeu, principalmente, novos momentos que honraram a memória das vítimas e aplaudiram os heróis que sobreviveram.

A principal parte da festa no Rio de Janeiro ficou por conta das homenagens. Antes do apito inicial, os quatro sobreviventes brasileiros do desastre estiveram no gramado. Neto, Alan Ruschel, Jackson Follmann e Rafael Henzel receberam flores e cumprimentos. O hino da Chapecoense ecoou alto nos alto-falantes, enquanto os presentes gritavam o eterno ‘Vamo vamo Chapê’. O locutor do estádio também agradeceu a atitude dos colombianos. E, ao invés do minuto de silêncio, as arquibancadas respeitaram os mortos com um minuto de aplausos.

Quando a bola rolou, o futebol serviu de complemento. O time de Tite, cheio de jogadores em pré-temporada, não fez um jogo tão impressionante, mas se saiu bem, dentro das circunstâncias. Durante o primeiro tempo, os brasileiros ameaçaram mais, com Dudu e Robinho se movimentando nas pontas, além de Diego Souza abrindo espaços como homem de referência. Já Lucas Lima e William Arão, chegando de trás, levaram algum perigo. Menos constante, a Colômbia esteve mais próxima do gol na primeira etapa. Miguel Borja parou em boa defesa de Weverton, enquanto Mateus Uribe carimbou a trave.

Para o segundo tempo, o Brasil mudou. E o gol saiu logo no primeiro minuto. Fagner cruzou na linha de fundo e Diego Souza tentou completar, parando no goleiro David González. O rebote, porém, sobrou para Dudu, que não perdoou. Diante do posicionamento mais ofensivo da Colômbia, Geromel e Rodrigo Caio demonstravam grande segurança na zaga, ajudados por Walace, em excelente jornada na cabeça de área. Saindo do banco, Gustavo Scarpa, Camilo e Diego tentaram mostrar serviço. Nos minutos finais, os cafeteros desperdiçaram a melhor chance de empate, com Orlando Berrío.

Tite pôde fazer observações que talvez sejam pertinentes para a continuidade de seu trabalho, com variações táticas e algumas opções interessantes para a seleção principal. De qualquer maneira, isso acabou em segundo plano. A renda, cerca de R$1,2 milhão, será repassada às famílias – em montante que pode até aumentar, com ingressos à venda mesmo durante o duelo, apenas para fins beneficentes. O ápice da noite no Estádio Nilton Santos? O momento em que Galvão Bueno emprestou seu microfone para Rafael Henzel narrar um pedaço da partida. Um símbolo do recomeço. Metáfora de como o futebol, entre as coisas menos importantes, sempre consegue ser a mais importante. Ali, afinal, não se relatava um simples jogo. Era a expressão da própria vida a plenos pulmões.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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