Brasil

Neymar, Oscar e Lucas: três meninos mimados

Neymar Oscar e Lucas acordaram hoje em algum lugar do planeta com uma medalha de prata para a qual não sabem que destinação dar. Viajaram a Londres – e a Manchester – para voltar com uma de ouro, tiveram seu caminho extremamente facilitado, mas, mesmo assim, não conseguiram. Voltam para casa sem o brinquedo que foram buscar. O que, para crianças mimadas como eles, não é muito comum.

Oscar, pelo menos, acordará em breve em Londres de novo. Jogará (jogará?) em um time grande europeu. Terá este desejo atendido, como vinha tendo com todos os anteriores. Quando surgiu, queria jogar no time de cima. Nunca fez por merecer, e quem disser algo diferente é porque simplesmente nunca assistiu suas partidas no time principal.

Mas queria, e, como muitos jogadores promissores de sua geração, foi educado a ter o que quer. Entrou na Justiça, onde acabou derrotado, mas mesmo assim mudou de time. E acabou jogando. No momento certo, no momento em que jogaria se tivesse sido bem orientado. Seu único título relevante, pasme o leitor, é o Brasileiro de 2008 pelo São Paulo – não, ele não jogou. Quando jogou, teve que se restringir a dois Gauchões. Mas, em breve, será rico.

Como será rico, mais rico, aliás, Lucas. Que joga no time em que Oscar não conseguiu jogar, mas que, na seleção em que Oscar é titular, tem direito a quinze minutos de jogo por vez. Será mais rico que Oscar, talvez duas vezes mais rico que Oscar. Sem que tivesse em qualquer momento apresentado futebol para isso. O mundo do futebol, porém, opera por uma lógica esquisita, e times tradicionais e outros endinheirados resolveram que valia a pena pagar por ele mais do que se dispõem a pagar por jogadores já consagrados – Modric, por exemplo, que o PSG poderia ter comprado pelo mesmíssimo dinheiro que investiu em Lucas.

Neymar é um caso à parte porque ficou rico enquanto ainda joga no Brasil. Até quando, nem Deus, se ele existe, sabe, porque o presidente do Santos não revelaria esta informação a alguém inferior a si próprio. Neymar, pelo menos, tem um título reluzente em seu currículo, uma Libertadores. Conquistada, como já se disse aqui, sem nenhuma dificuldade, mas conquistada. Desde então, porém, vive de dribles. E de fracassos. Ainda é desejado na Europa, mas não se vê mais seu nome nas manchetes com a mesma frequência. Até um perna de pau de luxo como Leandro Damião merece mais linhas decomentário. Claro, isso só acontece porque o Santos já disse que não vende, ou que pelo menos não vende barato. Neymar, porém, nada tem com isso, e daqui a pouco se cansará dos brinquedos que já tem. E de ter que trocar passes com Juan e Felipe Anderson.

Três meninos mimados, que desde que o futebol entrou em suas vidas tiveram o que quiseram, do jeito que quiseram e na hora em que quiseram. Só esqueceram de avisar os mexicanos que não era permitidio frustrá-los. Se para Lucas, que mal viu a cor da grama, o efeito pode não ser tão grande, para Neymar e Oscar há novo fracasso para o currículo – magro em sucessos. E com esses que vamos jogar a Copa do Mundo no Brasil. Com esses e com outros meninos mimados que surgirão. E que não poderemos criticar porque, se o fizermos, estaremos sendo “do contra”, “anti-brasileiros”.

Oscar é craque? Difícil dizer, visto que, se é evidente que tem recursos técnicos, estes só aparecem quando o adversário não marca. Lucas, por outro lado, não precisa nem de marcação para não jogar, embora, sem que haja qualquer padrão nisso, por vezes arrebente mesmo contra marcações fortes. Um joga quando deixam, o outro, quando quer. Nunca se sabe, porém, quando jogarão.

Neymar, mais uma vez, é caso à parte. Joga sempre, mas para si. Quando não dá certo, apressamos em dizer que a culpa é do time, ou do técnico. Ajudamos, desta forma, o menino a achar que já é Messi, que está suficiente o que está fazendo.
E a culpa pode mesmo ser do técnico, como foi na final olímpica. O Brasil de Mano Menezes é ainda pior que o de Dunga porque nem ao menos tem um grupo definido, um esquema de jogo. O que só piora as coisas, porque, de um lado, poupamos os meninos da responsabilidade que tiveram, mas, por outro, acaba caindo nas costas deles o peso todo, inclusive o dos erros que não cometeram.

Todo profissional jovem precisa de orientação, técnica e profissional. Como fazer bem seu trabalho, como não repetir os erros cometidos anteriormente por outros. E como lidar com as expectativas e frustrações. No caso do jogador de futebol, a segunda parte deveria ser a mais importante, mas é impossível de acontecer. Porque jogadores promissores nascem com cancros grudados a suas bolas. Chupins que precisam agradá-los para se apoderar de parte de seu futuro. E que nunca dirão a eles que precisam melhorar dentrou ou fora de campo, porque isso poderia irritar – crianças mimadas se irritam à toa.

E muito depois do que deveriam, quando chegam a times em que são apenas coadjuvantes com alguma perspectiva de serem protagonistas, esses meninos vão ter que aprender na porrada tudo o que poderiam ter aprendido com tranquilidade a vida toda.

Torçamos por Ancelotti e por Di Matteo. Torçamos para que Neymar deixe o país e vá para um time em que receba finalmente algum tipo de treinamento para a vida. Porque, de um jeito estranho e torto, é dessa maneira que fizemos o futuro de nosso futebol depender de estrangeiros.

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