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Náutico x Sport: não é só pelo carimbo no passaporte

Na fila do embarque, um timbu e um leão aguardam ansiosamente. Quando passarem pela cabine da Polícia Federal, apenas um deles terá permissão para seguir viagem, seja em direção a Assunção, para comprar umas muambas, ou a Puerto Ordaz, onde a boa é passear pelo simpático parque La Llovizna. A ansiedade é tanta, que o destino é o que menos importa. Contanto, é claro, que haja um novo destino a desbravar. Antes que você se empolgue com a imagem de animais que fazem turismo e deixe a leitura deste post de lado para escrever uma fábula infantil, vamos dar nome aos bois. Digo, bichos.

Náutico e Sport fizeram, na última terça, um clássico histórico. Pela primeira vez, clubes pernambucanos se enfrentaram por um torneio internacional. Tá bom que, para o eliminado do confronto, ter jogado um torneio internacional sem nem sair do país é mais sem graça que dançar com a irmã. Mais sem sal que comida de hospital. Mais sem futuro do que ficar repetindo frases feitas. Se a “fase brasileira” da Copa Sul-Americana já não fazia muito sentido quando as vagas eram distribuídas por mérito, agora mesmo é que não faz mais algum.

Ao celebrar a competente campanha do Náutico no Brasileirão de 2012, muitos se exaltavam ao dizer que o clube havia garantido um lugar na Sul-Americana. Não era bem assim. Para tal, os alvirrubros teriam de ser eliminados prematuramente na Copa do Brasil. O que de fato aconteceu, ao caírem logo na primeira fase, diante do Crac. Eliminação pouco sentida, já que ninguém no clube ou nas arquibancadas do estádio dos Aflitos (por onde ele anda, Milton Neves?) escondia o desejo, a volúpia e a gana pelo torneio continental.

O caminho acidentado que levou o Sport à competição é mais emblemático. O Leão havia sido rebaixado à Série B e caiu na segunda fase da Copa do Brasil, sendo atropelado pelo ABC, que venceu as duas partidas. E se é consenso que o Náutico tirou o pé no mesmo torneio, os rubro-negros nem podem ser acusados de fazer corpo mole, já que a combinação de resultados que o levaria à Sul-Americana era bastante improvável e pouquíssimo aventada àquela época. Difícil explicar como acumular fracassos pode dar direito a uma vaga em uma disputa continental, né? Coisas da CBF.

Como de cavalo dado não se olha os dentes, o Sport aproveitou a chance para se colocar perto de uma vaga na fase verdadeiramente sul-Americana da (nem tão) popular (assim) Sula. Ganhou do Náutico por 2×0, na Ilha do Retiro. Placar construído ainda nos primeiros 45 minutos e que poderia perfeitamente ter sido ampliado após o intervalo, caso o centroavante Roger (AQUELE, ex-Ponte Preta e São Paulo) não vivesse uma fase para lá de improdutiva. O centroavante fez uma boa partida, mas não consegue ir às redes desde o Pernambucano.

O Náutico fez menos feio no segundo tempo, mas pouco ameaçou reagir. Sua defesa ainda dava espaços demais, seu ataque não apresenta um mínimo de poder de fogo e seu meio-campo é pródigo na incompreendida arte de errar passes (de todas as cores, formas e tamanhos). Não à toa, o Timbu, além de segurar a lanterna, conta com o ataque mais frágil, a quarta defesa mais vazada e a pior média de acertos de passe do Brasileiro da Série A.

O de cima desce e o de baixo sobe

Pelas mesmas razões, fica difícil acreditar que o Náutico reaja e se livre do descenso. Não fosse a fase tenebrosa do São Paulo, os olhares de reprovação se voltariam todos para a equipe pernambucana, que tem de tomar um certo cuidado para não bater o recorde do América de Natal, como o pior time da história do Brasileiro de pontos corridos. Embora pareça complicado que os alvirrubros não marquem pelo menos mais 10 pontinhos nas rodadas restantes, apenas dois a mais do que fez até aqui.

A derrota para um grande rival só piora o astral do clube, quando vencê-lo pintava como a última cartada para tirar forças sabe-se lá de onde e escapar da degola. Desnecessário dizer que ver os rubro-negros se arriscando no portunhol e com boas chances de ocupar justamente o seu lugar na primeira divisão beira a crueldade e o sadismo.

Sim, porque o Sport, mesmo oscilando, parece estabilizado no G4 da Série B. A temporada que começou com eliminações vexaminosas no Nordestão e na Copa do Brasil e a terceira final consecutiva do estadual perdida para o Santa Cruz, pode ter um final feliz, que para muitos soava bem duvidoso. A virada se deu pelas mãos de Marcelo Martelotte, treinador “roubado” justamente do rival tricolor. Um cidadão que ainda não convence muita gente em Pernambuco, mas caminha para ter um ano de grandes realizações, trabalhando em dois dos três grandes clubes do estado.

Como a diferença do Sport para o quinto colocado (no momento, o América-MG) ainda é de discretos quatro pontos, é bom não se empolgar antes do tempo. Algumas vitórias recentes foram conquistadas na base do sufoco, onde tem brilhado com regularidade o atacante Marcos Aurélio (AQUELE, ex-Atlético-PR, Santos, Coritiba e Internacional). A boa nota é que o time voltou a se impor dentro de casa, onde costumara ser impiedoso, mas vinha tropeçando muito nos últimos anos (que o diga o ABC, citado há alguns parágrafos).

Deixar o Náutico para trás em uma competição importante redobraria o ânimo da equipe. Mas há de se perguntar se, no caso do Sport avançar algumas casas no tabuleiro da Sul-Americana, o elenco não se mostraria limitado demais para conciliar as duas tarefas. Mas se é para ficar na dúvida, é bem melhor encarar essa aí do que a outra, que versaria sobre como a decepção afetaria as ambições para o resto do semestre.

Um paspalho na contramão da história

Se o ineditismo de um confronto pernambucano por um torneio internacional já foi superado, a partida de volta guarda um significado ainda mais histórico: pela primeira vez, a Arena Pernambuco, novo reduto alvirrubro, receberá um clássico. Chegou a hora de conferir se o Náutico conseguirá passar aos rivais a mesma sensação de desconforto que despertava quando os recebia em seu antigo estádio. O problema é que, para instituir um clima de caldeirão, as arquibancadas terão de estar bem tomadas. O resultado da ida pode ter desanimado muita gente.

No que dependesse de Evandro Carvalho, presidente da Federação Pernambucana de Futebol, nenhum destes momentos históricos estaria acontecendo. Enquanto representantes de Náutico e Sport valorizavam o clássico inesperado, o dirigente passou quase uma semana tentando convencer alguém a aderir à sua ideia estapafúrdia de pedir para que os pernambucanos enfrentassem outros clubes brasileiros nesta fase da competição, pregando que a eliminação obrigatória de um dos dois clubes seria prejudicial ao futebol do estado.

Vale lembrar que o emparelhamento dos confrontos entre os brasileiros seguia o mesmo molde dos últimos anos, sendo definido pela colocação dos clubes no Brasileirão anterior. Mas pra que respeitar as regras, se elas não nos interessam, não é, Evandro? Também não passou pela cabeça do presidente que tanto Sport e Náutico poderiam acabar eliminados por outros clubes do país e que assim nenhum deles levaria a bandeira de Pernambuco América do Sul afora. Felizmente, ninguém deu muito trela para a loucura dele.

A FPF deveria concentrar o mesmo empenho em coordenar com as autoridades governamentais e policiais uma série de ações preventivas, para que o clássico entre pela história só por boas razões. Mesmo com a torcida do Sport tendo direito a uma pequena porcentagem dos ingressos vendidos, fica o temor por um encontro entre torcidas organizadas no metrô de Recife, que ainda não foi testado em uma ocasião assim.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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