Brasil

Não ter Ronaldinho e Kaká pode ser a opção pela tática

Não se esperavam surpresas na convocação da Seleção Brasileira para a Copa das Confederações. Felipão surpreendeu. Mais por quem ficou fora do que por quem entrou. Ronaldinho, arrebentando no Atlético Mineiro, ficou fora. Kaká, testado por Mano e Felipão e jogando pouco (quantitativa e qualitativamente) no Real Madrid, também ficou fora. Quem entrou foi Bernard, o que não chega a ser uma grande surpresa, embora ele nunca tenha jogado com o atual técnico da seleção. E a opção de Scolari faz sentido, se pensarmos do ponto de vista dos melhores momentos do time sob o seu comando.

Ao deixar Ronaldinho de fora, Felipão opta por jogadores “trabalhadores”. Não que Ronaldinho não trabalhe, mas precisa de um sacrifício maior de seus companheiros para que ele possa render. No Atlético Mineiro, esse trabalho é muito bem feito e ele rende. Na seleção, é muito mais difícil criar esse sistema que o beneficie. Foi o que se viu nos jogos que o jogador esteve em campo. O time não conseguiu render bem, embora seja, inegavelmente, muito acima da média. E a sua ausência não significa que Ronaldinho esteja fora dos planos. Pode e possivelmente deve ter novas oportunidades de ser convocado.

O problema de Kaká é outro. Mostrou falta de ritmo nos dois jogos que fez sob o comando de Felipão. Não foi mal, ao contrário. Foi bem, embora tenha sofrido para fazer a função tática pedida pelo técnico, como um meio-campista aberto no 4-4-2 em linha armado por Felipão. A falta de jogos no Real Madrid, e jogos que vá além de razoavelmente bem, também pesa. A sua ausência.

Bernard é um jogador que se sacrifica muito pelo time. Consegue ser versátil, aparece bem, recupera na marcação e, se precisar, tem mais capacidade, por característica, de fazer a função de meia aberto pelos lados do campo – algo que foi pedido a Oscar e Kaká, que conseguiram ser apenas razoavelmente bons.

Explica em parte a convocação de Hulk também. Primeiro, porque ele não foi mal nos jogos que fez com Felipão. Segundo, porque pode exercer essa função de meia aberto pelos lados no esquema pensado por Felipão. É um dos poucos jogadores brasileiros que tem característica de ponta, mas que sabe recuperar na marcação e fechar espaços. Lucas, do PSG, é mais jogador, mais habilidoso e mais capaz de surpreender e está cada vez mais aprendendo a trabalhar taticamente para fechar as duas linhas de quatro do PSG – fazia isso antes da sua contusão, que o tirou dos últimos jogos do time.

No ataque, a opção por Leandro Damião é, basicamente, por falta de opção. Alexandre Pato é melhor, mas não consegue ter estabilidade, sequência – antes por lesões, agora por opção do técnico. Fred parece a única opção para jogar como centroavante, e Neymar é sempre um nome certo.

Experiência na defesa

Nenhum goleiro brasileiro convocado tem menos de 30 anos. O titular deve ser Júlio César, 33 anos, e seus reservas, Diego Cavalieri e Jefferson, têm 30. Diego Alves, do Valencia, faz temporada instável no clube espanhol. Se goleiro é cargo de confiança, Felipão tratou de trazer dois jogadores que confia: Cavalieri, pelo histórico, e Jefferson, pelo que trabalhou com o técnico.

Entre os zagueiros, Thiago Silva e David Luiz parecem consolidados como titulares e Dante surgiu como uma opção de confiança, pelo bom futebol que tem apresentado no clube e que mostrou também na seleção. Réver foi chamado porque Dedé caiu de produção e passou a sequer jogar. E como tem ido bem pelo Atlético, foi chamado. E parece um dos jogadores que merecem a convocação. Jean fez boa partida contra a Bolívia, mas é pouco. Parece uma opção equivocada e pela falta de alternativas. Valeria mais apostar em um lateral de fato, mas é uma opção de confiança do técnico.

Entre os volantes, Ramires pode surpreender por ficar fora, mas é relativamente compreensível. Não por futebol, que Ramires tem de sobra, mas pelo que se falou sobre a decepção de Felipão com o comportamento do jogador. Ramires ficou fora dos jogos contra Itália e Rússia, nos dias 21 e 25 de março, respectivamente. O jogo contra a Rússia foi no dia 25, segunda, e Ramires jogou pelo Chelsea no dia 30, contra o Southampton, pela Premier League. A atitude teria irritado Felipão, segundo pessoas próximas, especialmente porque Lucas, do PSG, se apresentou machucado e ficou junto ao grupo, inclusive sendo avaliado pelos médicos da seleção.

Ralf, que vem novamente fazendo uma boa temporada pelo Corinthians, foi deixado de fora. Parece não ter a confiança do técnico. Os chamados foram Fernando, do Grêmio, que é bom jogador, embora não faça um ano tão bom em 2013, Luiz Gustavo, versátil jogador do Bayern Munique, forte, também com bom chute de fora da área, Paulinho, que é unanimidade nesse momento, e Hernanes, da Lazio, que é capaz de dar mais qualidade ao meio-campo e fez bons jogos pela seleção com Felipão.

A pressão está em Felipão

Sabemos que Felipão não apresentou muitas novidades táticas nos últimos anos em seus trabalhos, ainda que tenha adotado o 4-2-3-1 da moda em seu trabalho no Palmeiras. O 4-4-2 que Felipão armou contra Itália e Rússia, com duas linhas de quatro, parece uma boa opção para o Brasil, mas precisa de treino. Felipão nunca foi um treinador “tático”, mas é preciso dar os méritos por ter experimentado um esquema pouco tradicional no Brasil, ainda mais na seleção.

O técnico deve usar a Copa das Confederações para tentar fazer dar certo. Parece uma opção acertada, mas a crítica será pesada se ele não conseguir fazer o time render assim, sem ter Ronaldinho ou mesmo Kaká, que são jogadores de peso.

Veja a lista de convocados do Brasil para a Copa das Confederações:

Goleiros: Júlio César (Queens Park Rangers-ING), Diego Cavalieri (Fluminense-BRA), Jefferson (Botafogo);

Defensores: Thiago Silva (Paris Saint-Germain-FRA), Réver (Atlético Mineiro), David Luiz (Chelsea), Dante (Bayern Munique-ALE), Daniel Alves (Barcelona-ESP), Marcelo (Real Madrid-ESP), Jean (Fluminense), Filipe Luís (Atlético de Madrid-ESP);

Meio-campistas: Hernanes (Lazio-ITA), Luiz Gustavo (Bayern Munique-ALE), Paulinho (Corinthians), Fernando (Grêmio), Oscar (Chelsea-ING), Jadson (São Paulo), Lucas (Paris Saint-Germain-FRA), Bernard (Atlético Mineiro);

Atacantes: Neymar (Santos), Fred (Fluminense), Leandro Damião (Internacional), Hulk (Zenit-RUS).

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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