Brasil

Com a morte de Zagallo, também morre um pedaço do futebol como nós o conhecemos

Com um vida dedicada ao futebol desde os anos 1940, Zagallo foi responsável por inovações no esporte tanto como jogador como treinador

Na noite da última sexta-feira (5), às 23h40, no Rio de Janeiro, morreu um pedaço do futebol como nós conhecemos. Aos 92 anos, Mário Jorge Lobo Zagallo morreu e, com ele, uma parte importante do que representa o futebol brasileiro e mundial. Foram cerca 60 anos dedicados ao esporte. Revolucionário como jogador e pioneiro como treinador, o Velho Lobo é um dos principais personagens do último século e nome essencial na transformação do futebol ao longo do anos, além de ter contribuído para o esporte se tornar parte fundamental da raiz e da cultura brasileira.

Desde o fim dos anos 1940 no futebol, entre a base no América e, depois, no Flamengo, Zagallo foi revolucionário como ponta-esquerda e ajudou a moldar a posição. Rápido e driblador, o então jogador também chamava a atenção pela sua inteligência e pela disposição para contribuir coletivamente com o time. Como o próprio definiu em recente entrevista para a “Fla TV”, ele “era um jogador de 100 metros, corria o campo todo naquele setor”, fazendo o “vai e vem”.

Não á toa, Zagallo também foi importante para o Flamengo nos duelos com o Botafogo de Garrincha. Auxiliando o lateral Jordan, o Velho Lobo ajudava a marcar ponta-direita que viria a ser seu companheiro de ataque na seleção brasileira e, depois, no próprio Botafogo. No tricampeonato do Flamengo entre 1953 e 1955, Zagallo teve papel fundamental. Mais do que “apenas” pelos gols, o ponta-esquerda passou a ser fundamental para o time pela sua disposição para marcar – algo virou obrigação para todo jogador da posição nos dias de hoje.

Em 1958, na Copa do Mundo da Suécia, Zagallo viveu a sua redenção e mostrou ao mundo como estava a frente do seu tempo, assim como o time de Feola. Era o ponta-esquerda quem recuava para os famosos avanços de Nilton Santos pelo lado do campo. Na final, contra a Suécia, a melhor representação de como ele era, de fato, “um jogador de 100 metros”: salvou um gol que poderia ter colocado os suecos na frente do placar, quando o jogo estava empatado em 1 a 1 Depois, marcou o quarto gol do Brasil e fez o cruzamento para Pelé marcar o quinto e garantir a título histórico para o país. Como Nelson Rodrigues definiu depois daquele hoje, “Zagallo estava em todos os lugares ao mesmo tempo”.

Zagallo foi bicampeão do mundo em 1958 e 1962 com a seleção brasileira (Foto: FIFA via CBF)

Zagallo era o último remanescente dos titulares de 1958

Gylmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Se o Brasil, hoje, carrega cinco estrelas no peito da camisa da seleção, esta história foi iniciada com estes onze nomes. Zagallo era o último remanescente vivo dos titulares do título de 1958, na Suécia. Antes, há pouco mais de um ano, Pelé também nos deixou.

Assim, a morte de Zagallo também representa o fim simbólico de um time que foi determinante para a história do desenvolvimento do futebol no Brasil como esporte e como parte essencial da cultura nacional. Pelo rádio, estes onze nomes marcaram um país e deram início a uma trajetória que, hoje, é mundialmente famosa.

Zagallo também foi inovador como técnico

Como treinador, Zagallo foi tão revolucionário como era quando atuava em campo. No seu primeiro trabalho na beira do gramado, já marcou época no Botafogo, com um bicampeonato Carioca e o título da Taça Brasil de 1968. Este bom trabalho já o gabaritou para assumir a seleção brasileira a poucos meses da Copa do Mundo de 1970. E, em pouco tempo, ele mostrou, mais uma vez, como seria essencial para o futuro do futebol – não só brasileiro, mas mundial.

Quatro anos antes da Holanda de 1974, a Zagallo já apresentava ao mundo um “futebol total”. Comandando um dos melhores times de todos os tempos, o Velho Lobo conquistou o seu terceiro título mundial, no México. Com um sistema de jogo que variava do 4-3-3 para o 4-4-2, o time de Zagallo apresentava situações então pouco usuais e que hoje são comuns no futebol, como os dois volantes, com um mais fixo e outro que sai para o jogo, e o lateral que fecha a zaga por um lado, enquanto o outro avança ao ataque.

Zagallo durante homenagem feita pela CBF antes da Copa do Mundo de 2022 (Foto: CBF/Lucas Figueiredo)

Inteligente e estrategista, Zagallo marcou a história dentro e fora de campo e se tronou um personagem fundamental para transformar o futebol no esporte como conhecemos hoje. Com a morte de Zagallo, também se foi uma parte importante do que nós, brasileiros, e apaixonados por futebol do mundo todo crescemos vendo como uma referência sobre o assunto. Presente no bicampeonato de 1958 e 1962, campeão como técnico em 1970, treinador histórico e vitorioso no Rio de Janeiro, por Fluminense, Botafogo e Flamengo, auxiliar no treta de 1994 – e seu tetra particular, o único no mundo -, técnico em 1998 e novamente auxiliar em 2006. Zagallo viveu uma vida dedicada ao futebol e, principalmente, a seleção brasileira. Se a camisa canarinho é reconhecida mundialmente hoje, Zagallo tem parte nisso. Se o Brasil é o “país do futebol”, Zagallo fez parte disso. Se o futebol é o que é hoje, também se deve a nomes como o de Mário Jorge Lobo Zagallo.

Foto de Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues é jornalista formado pela UFF e soma passagens como repórter e editor do Lance!, Esporte News Mundo e Jogada10.
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