Brasil

Mesmo jogando mal, Brasil pode aprender com vitória

A vitória do Brasil sobre o Uruguai foi a que teve o futebol menos empolgante até aqui na Copa das Confederações. Um time sem criatividade do time brasileiro, um excesso de cruzamentos, Neymar bem marcado e poucas alternativas de jogo. Foi o adversário mais duro para o Brasil, mais até que a Itália, mesmo que a Itália seja bastante melhor que os sul-americanos. Mesmo com tudo isso, foi uma boa lição para o Brasil e, se aprendida, ajudará muito esse time, que ainda está verde.

O time tem poucos jogadores experientes, menos ainda jogadores testados em competições de nível internacional. Não falo da Libertadores, que Neymar já venceu, e venceu jogando muita bola, mas um torneio de seleções. É claro que a experiência de jogadores como Fred e Neymar em seus clubes é importante, mas o tipo de competição que se disputa em um torneio internacional de seleções é um pouco diferente. E uma vitória sofrida como foi contra o Uruguai pode ser uma ótima chance de perceber que o buraco é bem mais embaixo. Há quem diga que a derrota ensina mais que a vitória. Penso que a vitória em circunstâncias como a desta semifinal contra o Uruguai também pode ensinar muito. Basta estar disposto a aprender e rever os próprios erros.

O Brasil se viu em uma situação que deve encontrar muitas vezes daqui até a Copa do Mundo: defesas muito bem armadas com marcação intensa sobre seu principal jogador, Neymar. O que fazer nesse caso? É preciso ter opções de jogo. A Seleção Brasileira não teve. Jogou incontáveis bolas na área, quase sempre sem perigo. O time tentou se movimentar, mas foi insuficiente. Oscar fez uma partida ruim, o time não sabia muito bem como vencer a marcação do Uruguai, bem encaixada no ataque brasileiro – a ponto de Diego Lugano, que está em péssima fase técnica, não ter sequer corrido risco de ficar em um mano a mano com os brasileiros.

Não dá para ficar naquela choradeira desgraçada de “eles vieram párea se defender”, “jogaram atrás da linha da bola” e aquele blá blá blá. Se defender também é jogar futebol e dar ao adversário aquilo que ele quer seria burrice. Nenhum adversário vai fazer isso com o Brasil. Nem a Espanha. Se os dois times se enfrentarem, a Espanha tentará ficar com a bola o tempo todo e tirar toda e qualquer chance do Brasil com a bola no pé. A defesa espanhola é fazer isso: não deixar o adversário ter a bola. Não deixar ter espaço. Não deixar jogar. Será preciso imaginar o que fazer com isso.

Os atacantes brasileiros estão prontos para se dedicar mais na marcação e fazer pressão na saída de bola do adversário? Felipão parece estar tentando fazer isso, mas ainda é pouco. Porque contra o Uruguai, o Brasil não soube o que fazer mesmo tendo a bola, mesmo tendo 68% da posse. Chutou 19 vezes, mas muitas delas foram sem perigo. Falta mais poder de criação ao time e isso passa, claro, pela atuação de Oscar, mas também no time buscar alternativas de jogo. Fred é um excelente jogador e pode se movimentar para abrir espaços para os companheiros. Hulk, embora seja importante em vários aspectos táticos, faz uma péssima Copa das Confederações. Bernard pode entrar jogando? Lucas pode ser uma opção? Hernanes daria mais força ao meio? São todas opções válidas, mas seria preciso se preparar para isso. Não basta mudar a escalação.

O Brasil tem evoluído visivelmente durante a Copa das Confederações. O jogo contra o Uruguai pode servir para um retrocesso, que leva o time a ser medroso e se portar apenas para contra-atacar, algo que era especialidade, por exemplo, do time de Dunga – que era bem mais seguro defensivamente – ou pode tentar se armar para martelar as defesas adversárias com criatividade.

A Espanha faz a bola rodar o tempo todo, faz o rival ter que correr muito o tempo todo atrás da bola, com movimentação intensa e trocas de passes intermináveis. O que o Brasil faz? O time ainda não parece ter alternativa. Os melhores lances do Brasil contra o Uruguai foram em bolas longas e bolas paradas. Paulinho fez um lançamento fantástico para o primeiro gol, quando Neymar chutou e Fred pegou o rebote do goleiro Muslera, e o próprio Neymar cobrou o escanteio que Paulinho completou para a rede. Foi suficiente contra o Uruguai, mas poderia não ser.

Um eventual jogo com a Espanha será um grande teste para o Brasil. Será importante porque será um desafio jogar contra um time que não dá a posse de bola. O Brasil costuma ser bom em contra-ataques, mas sabe que não pode depender só deles. As bolas paradas e um lançamento longo pode eventualmente servir em um jogo como esse, mas é bom ter mais alternativas. Chutes de fora da área, por exemplo, algo que é característica de Hulk e ele pouco usou. O time não tem tantos chutadores assim, mas é uma arma que o time precisa trabalhar.

O jogo contra o Uruguai foi ruim. Paulinho e Neymar foram decisivos, Fred marcou um gol importante, mas o time não foi bem o suficiente. Sorte que conseguiu os gols, que o Uruguai não é tudo isso, apesar da atuação magnífica de Edinson Cavani. Mas a Seleção Brasileira tem jogadores com capacidade de ir além do que fizeram. Talvez a vitória no sofrimento mostre que o time tem muitos defeitos a corrigir e precisa de alternativas de jogo. Bernard pode ser uma boa opção em casos assim, Paulinho é cada vez mais um craque fundamental ao time, Neymar tem aparecido bastante. Falta algo ao time e o que faltam são essas opções. Trabalhar nisso será fundamental, independente de ganhar ou perder domingo. Mas se achar que a vitória contra o Uruguai foi heroica, aí o problema será grande. Talvez seja possível aprender a lição.

Fundamental é lembrar que o Brasil entrou na Copa das Confederações sem um time e sairá dela com um. Falta muito, mas não dá para achar que o saldo é ruim. Felipão conseguiu dar uma cara à equipe, independente de gostar ou não dela – como questionar a presença de Hulk no time titular ou o excesso de faltas, duas críticas justas, inclusive. O fundamental é que a Seleção Brasileira trabalhe para continuar em evolução e chegar com um time ainda mais forte daqui a pouco menos de um ano, no dia 12 de junho, quando estreia na Copa do Mundo em São Paulo. Não importa quem será o adversário, possivelmente não será uma das melhores seleções do mundo e é mais provável que seja um adversário como foi o Uruguai nesta quarta-feira no Mineirão. E é bom que o Brasil saiba como se virar nesse tipo de jogo, sem depender só bola parada, ou de um lançamento longo de um dos seus melhores jogadores.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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