Maurício Noriega: Pachequismo não combina com jornalismo
Não é proibido torcer, mas é preciso informar, analisar e criticar com isenção para cumprir a regra básica de que jornalista relata a notícia, não é notícia. Também no esporte
Há uma grande confusão quando se misturam dois termos: jornalismo e entretenimento. Tal água e óleo, não se misturam. Uma coisa é fazer jornalismo que entretenha, outra é fazer entretenimento fantasiado de jornalismo. Quando se trata de jornalismo esportivo e Copa do Mundo sempre se apresenta um dilema para quem trabalha como jornalista nessas coberturas, tanto no masculino como no feminino: como torcer sem distorcer? Vale também para os Jogos Olímpicos.
Atletas e treinadores são a notícia. Os jornalistas são as testemunhas oculares da História, como ensina o Mestre Joseval Peixoto. Esporte é uma área de interesse jornalístico também. A prática do Pachequismo é comum em tempos de Copa do Mundo. Pacheco foi um personagem criado para campanha publicitária de um aparelho de barbear nos anos 1980. Encarnava o torcedor fanático da seleção brasileira. Fez grande sucesso na Copa de 1982. Virou sinônimo de torcida descontrolada e sem filtro e, também, método de certos tipos de cobertura “jornalística”.
Nunca deixei de torcer pela seleção brasileira nas Copas do Mundo, Copas América e outras competições em que trabalhei. Sempre coloquei o exercício do jornalismo como baliza em minha atuação. Em 2014 o Pachequismo inflamou grande parte da cobertura da Copa que retornava ao Brasil. Desde o amistoso contra a Sérvia, antes do Mundial, adotei o tom que entendia ser o correto de análise crítica e isenta, mesmo torcendo para que o Brasil fosse bem no Mundial.
Trabalhei com muitos ex-jogadores nessa cobertura. Eles iam ao gramado, abraçavam os jogadores e adotavam um tom ufanista e assumidamente Pacheco. O importante era que o Brasil estava vencendo, não importava como. Por escala eu fiquei fora do jogo dos 7 a 1. Ufa! Coube a mim a missão de comentar o jogo mais sem sal da Copa: a decisão do terceiro lugar. Minha conduta foi sempre a mesma. Ressaltei as observações feitas desde a estreia (que também comentei), a falta de alternativas, o isolamento do centroavante, o jogo ineficiente de bolas longas invertidas.
Enquanto o Brasil era amassado pela Holanda em Brasília recebi um e-mail do melhor chefe que tive na carreira dizendo, basicamente, que podíamos começar a criticar a seleção. Rapaz, o sangue subiu! Justo eu tinha feito isso jornalisticamente desde o início? A ordem deveria ser passada àqueles que torceram descaradamente durante e agora eram convidados a ser críticos ferozes.
O Pachequismo é refém de sua essência. Embarca no oba-boa, nas campanhas e narrativas, na tentativa de vender emoção a qualquer custo, ainda que fatos e imagens mostrem outra história. Fica feio quando o resultado não vem e acontece transfiguração protocolar do Pacheco em Corneteiro.
Momento da seleção feminina exige frieza na análise
O vexame da seleção brasileira na Copa do Mundo feminina lembrou em alguns aspectos o fiasco dos homens em 2006. Principalmente no que se refere a pachequismo e oba-oba. Não se compara uma modalidade que somente agora começa a gozar de mais investimento e estrutura a outra que chegou àquele Mundial da Alemanha com cinco títulos acumulados e o sexto dado como favas contadas.
A concentração parecia uma rave, o grupo se achava capaz de derrotar a tudo e todos mesmo com estrelas muitas arrobas acima do peso. Quando veio a derrota, muita gente que se esbaldou nas festas começou a falar mal da música e da comida.
O momento exige frieza na análise dos profissionais do futebol feminino. Avaliação criteriosa e profissional e resposta a algumas perguntas. Pode um objetivo individual ser colocado acima do contexto coletivo? Era preciso levar Marta só porque ela é a Marta? Por que ela foi e Cristiane ficou? A passagem da treinadora Pia foi classificada como uma era, a Era Pia. O que ela deixou de concreto após um ciclo de trabalho? Existem treinadores ou treinadoras brasileiras capazes de entregar trabalho no mesmo nível ou superior?
Resta agora o desafio de seguir dando ao futebol feminino espaço e condições para desenvolvimento. As atletas fazem a história e os jornalistas contam.



