Brasil

Mauricio Noriega: James expõe carência de ídolos do torcedor brasileiro

Longe de ter se transformado no craque que prometia, o bom meia colombiano provoca o imaginário dos fãs

Antes de mais nada, que fique claro: torço pelo sucesso de James Rodriguez no São Paulo. Assim como torço pelo sucesso de qualquer atleta. Bons jogadores fazem bons jogos e bons jogos geram grandes campeonatos, diversão, emoção, assunto.

O barulho provocado pela notícia da contratação do meia colombiano de 32 anos por um dos principais times do Brasil provoca uma reflexão sobre a carência de ídolos do torcedor brasileiro. James Rodriguez despontou na Copa do Mundo de 2014.

Foi artilheiro do Mundial, anotando seis gols, um deles vencedor do Prêmio Puskas como mais bonito da temporada, marcado contra o Uruguai. Aos 23 anos, chamou a atenção com as características históricas do camisa 10 canhoto sul-americano: técnica, habilidade e soluções diferentes.

O Real Madrid desembolsou 75 milhões de euros para tirar James Rodriguez do Monaco após a Copa. Ele fez 125 jogos pelo clube merengue, marcando 37 gols. Desempenho muito próximo ao que havia mostrado pelo Porto, com 32 gols em 108 partidas. Foram seus melhores momentos na Europa.

Após a passagem pelo Real, James teve um bom início no Bayern de Munique, mas não se transformou no craque que o mundo esperava. Passou sem destaque por Al Rayan, Everton e Olympiacos, até ser procurado pelo São Paulo. Ele não joga desde 9 de abril deste ano e a última temporada em que fez mais de 30 partidas foi a de 2018.

Por que a carência de ídolos? É preciso contextualizar

Após a Copa de 2002 o futebol brasileiro foi progressivamente se afastando das melhores práticas, principalmente da Europa. A geração dos Ronaldos, de Rivaldo, Cafu e Roberto Carlos se despediu no Mundial de 2006 e a partir dessa disputa a seleção brasileira inicia um período de distanciamento do território nacional.

Londres passou a ser a sede dos jogos da seleção, mais do que o Maracanã. Nesse período começa a era Messi e Cristiano Ronaldo, a Premier League e a Champions capturam o domínio técnico do futebol, instalando e determinando tendências. A TV bombardeia o torcedor brasileiro com jogos espetaculares e lances fantásticos dos principais nomes e deixa evidente a diferença entre o jogo praticado nos grandes torneios europeus e no Brasil.

A passagem fenomenal de Ronaldo pelo Corinthians foi uma das provas irrefutáveis da carência. Em 2009, longe da melhor condição física, mas sempre genial, ele chacoalhou o mercado ao ponto de até hoje vários clubes brasileiros tentarem, sem êxito, repetir o impacto daquela repatriação.

Em 2013, com a disputa da Copa das Confederações, antecipando a Copa do Mundo, o torcedor brasileiro pôde ver ao vivo, depois de muito tempo, grandes estrelas internacionais. A seleção fazia amistosos longe de casa e o intercâmbio internacional entre clubes era quase inexistente.

Lembro da excitação de todos os brasileiros que puderam ver ou narrar e comentar jogos de craques como Pirlo, Buffon, Chielini, Balotelli, Iniesta, Xavi, Casillas, Sergio Ramos, Suárez, Cavani, Forlán. Além dos jogadores brasileiros que brilhavam na Europa, como o próprio Neymar, Thiago Silva, Daniel Alves. Tudo que víamos pela TV e a garotada emulava nos videogames estava ali, ao nosso alcance.

Em 2014, com a Copa, essa sensação de pertencimento foi catapultada com a chegada de todos os grandes jogadores do planeta. O futebol é feito de ídolos. A mídia precisa deles, as marcas idem. O Santos, mesmo sem ter uma das maiores torcidas do Brasil, cravava grandes índices de audiência quando tinha Neymar jogando o fino da bola por aqui.

Como o jogo praticado se afastava cada vez mais, principalmente, do padrão Champions, passamos a viver não apenas a carência, as a sofrência de grandes ídolos. A Copa América de 2019 foi a prova disso, com a passagem festejada de nomes como Sánchez, Vidal, Suárez, Cavani, Cuadrado, o próprio James Rodriguez, Di Maria, Aguero e, claro, Messi.

Contratações de atletas de sucesso na Europa por times brasileiros amenizam a carência de ídolos. Sejam brasileiros que retornam ou jogam em grandes times daqui pela primeira vez, casos de Marcelo, Kaká, Dani Alves e Hulk.

A tentativa do São Paulo é válida. James Rodriguez não é mais um ativo cobiçado na Europa. Com 120 gols marcados em 453 partidas por clubes, estava livre no mercado. O atleta sabe que precisa de uma oportunidade para mostrar que ainda é capaz de jogar bem na liga mais importante e competitiva fora da Europa. Aos 32 anos, ainda pode provar que sua capacidade técnica indiscutível tem condições de oferecer a um time bem treinado a dose de talento que falta para buscar voos mais altos.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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