Mauricio Noriega: o futebol-raiz não tem dono
Para defender suas preferências em relação à forma de ver o jogo, muita gente no Brasil se apropria de uma expressão sem base para fazer dela sua bandeira
Afinal, o que é futebol-raiz? Essa expressão tem sido utilizada por muita gente no Brasil que reivindica direitos autorais sobre o termo. Torcedores, dirigentes, jornalistas, apresentadores, ativistas digitais, lacradores de plantão. Vira e mexe, quando algo polêmico acontece num jogo, vozes se levantam em defesa do que elas entendem ser o futebol-raiz.
Para alguns, futebol-raiz é brigar no estádio e fora dele. É xingar todas as gerações dos torcedores adversários e tratá-los como inimigos de morte.
Para outros, futebol-raiz é a resenha em volta de uma mesa bem iluminada contando histórias e bebericando e falando palavrões a torto e a direito, chamar para a porrada.
Há quem entenda que o futebol-raiz é um quebra-quebra generalizado dentro de campo, ou uma provocação agressiva aos torcedores adversários por parte dos simpatizantes rivais e dos próprios jogadores. Ou então jogar faca, cortador de unha, pilha, cinzeiro, copo em atleta adversário ou, pior, invadir o campo para tentar agredir um jogador do time contrário.

Há quem identifique entre as características do futebol-raiz fazer emboscada para jogador em CT, em avenida ou agredir atletas profissionais em suas horas de folga.
Para quem acha que futebol-raiz é fazer debates ensaiados e com participantes fantasiados ou declaradamente torcedores de times, uma pesquisa na internet revelará que isso já era feito no tempo da TV em preto-e-branco. Houve uma resenha esportiva em que o apresentador abria uma garrafa de cerveja de verdade em pleno cenário, enchia um copo, virava um gole e soltava um “ahhhhh” sem cerimônia ao vivo e em cores em plena noite de domingo. Mesa Facit, Mesa Redonda, todos esses programas faziam há mais de 40 anos e com mais sinceridade o que se repete hoje com outra embalagem sob o argumento de retratar o futebol-raiz.
Para mim, futebol-raiz era o Túlio Maravilha fazendo suas provocações e apostas que hoje talvez fossem chamadas de pueris.
Futebol-raiz era o Canal 100.
Futebol raiz eram as gerais do Maracanã e do Mineirão, era a Coreia no Beira-Rio, o Olímpico sem segundo andar, o Tobogã no Pacaembu e o Pacaembu sem Tobogã, o velho Mangueirão.

Futebol-raiz é revisitar entrevistas de jogadores dos anos 1960 e 1970 após os jogos, ouvindo Pelé, o Rei do Futebol, falar com absoluta humildade sem nunca dizer que sabia que o jogo seria difícil.
Futebol-raiz é lembrar da Rádio Mulher dos anos 1970 em São Paulo, essa, sim, pioneira em fazer transmissão de futebol com equipe 100% feminina. Sem discursos e sem narrativas, mas com ótimas profissionais, da motorista até a comentarista de arbitragem. Em 1975!!!!
Futebol-raiz é o trem da Central despejando a massa nas rampas do Maracanã sem divisão de torcida, camisas e raças misturadas com um único objetivo: ver um jogo de futebol.
Mas há quem ache que tem propriedade sobre o termo e os comportamentos do tal futebol-raiz, que para essas pessoas é o que eles acham que o futebol deve ser.
Pelé comemorava gols socando o ar, nunca adversários ou chutando bandeirinhas de escanteio. Mesmo quando foi chamado de todos os termos racistas possíveis e imagináveis na final da Libertadores contra o Boca, comemorou com raiva após uma atuação de gala sem atacar nenhum símbolo rival.
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Futebol-raiz é extravasar na comemoração sem arrancar a camisa.
Futebol-raiz é gandula que só devolve a bola e não fica empurrando jogador.
Futebol-raiz é levar filho e filha para o estádio e se preocupar apenas com o exagero deles no consumo de pipoca.
Futebol-raiz é torcer para o seu time e saber apreciar um craque mesmo quando ele joga pelo adversário.
Futebol-raiz é traçar aquele sanduba de origem duvidosa na porta do estádio sabendo que pode não dar tempo de chegar em casa são e salvo.
Futebol-raiz é tirar onda do amigo que torce para o adversário e continuar sendo amigo dele para sempre.

Futebol-raiz é bola na rede véu de noiva dos estádios e não usar as redes para fazer ameaça e espalhar ódio e intolerância.
Futebol-raiz era quando os portões dos estádios eram abertos aos 35 minutos do segundo tempo e quem não tinha dinheiro para comprar o ingresso entrava feliz da vida para ver dez minutos de jogo e voltava para casa inteiro e ainda mais feliz da vida. Era ouvir rádio no carro ou no ônibus e até mesmo a pé para escutar a entrevista do craque do jogo e não a mesma ladainha dos técnicos depois de cada partida. Era ver os grandes personagens dos jogos perambulando entre um programa e outro de domingo para falar sobre os clássicos. Era ver o Zico e o Dinamite se respeitando mesmo sendo os craques dos maiores rivais. Era o Rivellino voltando a pé do Morumbi para sua casa, debaixo de chuva, após perder o título de 1974, e nunca ter visto o Luís Pereira zombar disso. Era a capa do Jornal dos Sports ou da Gazeta Esportiva promovendo um grande jogo com uma aposta entre jogadores que pagavam as apostas em uma nova capa no dia seguinte.
Cada um tem o seu futebol-raiz enquadrado em alguma parede da memória. Muita gente está construindo o imaginário de futebol que prefere e vai buscar no termo futebol-raiz a justificativa para isso. Geralmente chama de mimimi quem pensa diferente.
A raiz dos problemas do futebol passa pela instalação do discurso bélico. Também por culpa da mídia. Como chamar Libertadores de guerra e dizer que catimba é coisa apenas de argentinos. Em algum momento, o futebol passou a catapultar o desvio de comportamento de alguns cidadãos que o utilizam para praticar sua violência enraizada.
O que é futebol-raiz para você?
Podem surgir centenas de teorias e explicações melhores que a minha para o termo futebol-raiz. Melhor é chamar apenas de futebol. É agradecer por viver num período da História em que o esporte mais popular do planeta é correr atrás de uma bola e não escapar de leões ou ver gladiadores se matando.

Atualmente, minha versão favorita do futebol-raiz é ligar a TV e o rádio, estourar uma panela de pipoca, separar um copo de cerveja ou de vinho e ficar brincando com meus amigos pelo WhatsApp.
Há muitos anos, meus arroubos de futebol-raiz eram ir ao Pacaembu ver um Portuguesa e Juventus pelo simples prazer de ficar pegando no pé do juiz. Admito que soltar uns palavrões numa arquibancada de cimento é das experiências mais libertadoras que existem.
Houve um tempo em que minhas andanças pelo mundo do futebol-raiz incluíram jogar alguns torneios de várzea com meu irmão de vida Piriquito. Ganhávamos 50 reais por participação e mais 50 por gol marcado num campo de terra dura à beira de um morro numa cidade próxima a São Paulo. Todo sábado de manhã, vestiário impregnado de cheiro de éter (nunca fui adepto de drogas e certamente há poucos mais caretas que eu nesse aspecto). Juntamos alguns trocados, mas o objetivo nem era esse, era apenas jogar bola. Até que um dia, após uma discussão, um jogador foi expulso e saiu de campo bufando. Voltou girando uma corrente cujos aros eram do tamanho de uma bola de tênis e foi para cima do juiz, que correu mais que o Bolt. Mas na volta chegou com um revólver calibre 38 para tirar satisfações com o valentão, que largou a corrente e fez o Bolt comer poeira.
Na boa, se isso é futebol-raiz, fecho com o balde de pipoca e a zoeira sadia.



