Brasil

‘Sou um pouco crítico por isso’: Luisão comenta decisão de Ancelotti e dá conselho a Neymar

Ex-zagueiro da seleção brasileira compara crise atual com 2002 e critica experimentos constantes de Ancelotti

Luisão viveu a seleção brasileira de dentro: esteve nas edições de 2006 e 2010 da Copa do Mundo, passando por títulos de Copa América e das Confederações. Com essa bagagem, o ex-zagueiro do Benfica não tem papas na língua quando o assunto é o Brasil de Carlo Ancelotti. Em entrevista exclusiva à Trivela, ele foi direto: racionalmente, não acredita num título na Copa do Mundo.

Ele dá sua versão sobre a polêmica preparação para o Mundial na Alemanha, relembra a crise pela não convocação de Neymar por Dunga e, vendo Vinicius Júnior como protagonista em 2026, revela que sofreu ataques por sair em defesa do brasileiro após o caso de racismo sofrido pelo atacante de Gianluca Prestianni, jogador do Benfica — onde o ex-zagueiro é ídolo.

Crise na CBF, Neymar e o que esperar da seleção brasileira na Copa do Mundo?

“O futebol sempre pode ser revertido, desde que haja união”, começa o ex-defensor do Cruzeiro. A principal pulga atrás de orelha sobre o trabalho de Ancelotti é o fato de que, em nenhum dos 10 jogos, o italiano repetiu a formação.

“O que me causa dúvida não é a qualidade do Ancelotti, nem dos jogadores, mas os experimentos constantes. A gente saiu dois anos atrás numa preparação, aí começa o trabalho do Ancelotti, que é um excelente treinador, porém também fazendo testes e não repetindo uma equipe ideal. Acho que é muito difícil (vencer a Copa).”

Para Luisão, a comparação com o ciclo de 2002, quando o Brasil chegou à Copa América sem os principais jogadores, perdeu para Honduras e virou campeão mundial meses depois, não se sustenta. A natureza das crises é diferente.

Luisão e Lúcio em entrevista coletiva durante a Copa do Mundo de 2010
Luisão e Lúcio em entrevista coletiva durante a Copa do Mundo de 2010 (Foto: IMAGO / Fotoarena)

“Naquela época, foi mais uma crise esportiva, dentro de campo. Jogadores não foram, os principais. Já hoje a gente tem uma crise mais de gestão dentro da CBF, o que atrasou toda a preparação. Uma foi esportiva pela ‘guerrilha’ e alguns jogadores que não quiseram ir. Agora, foi uma crise dentro da CBF que causou troca de treinadores, má preparação, má gestão. E isso nos atrasou em dois anos.”

O ex-zagueiro também não poupa críticas à falta de consolidação do elenco. Quando perguntado sobre a zaga ideal, foi cirúrgico: “Não improvisaria o Danilo. Levaria central de raiz. Marquinhos, Bremer, Léo do Flamengo e Fabrício Bruno do Cruzeiro. Quatro zagueiros de raiz.”

O tema Neymar rendeu um dos momentos mais reveladores da conversa. Luisão discordou da postura de Ancelotti de afirmar publicamente que não precisava conversar com o camisa 10 e foi contundente.

“Sou um pouco crítico ao Ancelotti por falar que não precisa conversar com o Neymar. Tem jogadores que você tem que ligar e tratar de maneira diferente, porque são casos diferentes. É um ídolo, um jogador acima tecnicamente, que pode fazer a diferença e que vem passando não só por lesões, mas talvez com a cabeça um pouco complicada. Eu ligaria para ele.”

E, olhando para os últimos jogos do camisa 10, Luisão disse que começa a ter esperança. O zagueiro atendeu à Trivela no dia 17 de abril, antes, por exemplo, d polêmica com Robinho Júnior, e via o crescimento do desempenho em campo como positivo:

“Já o vejo diferente dos primeiros jogos. Não é aquele Neymar que a gente está acostumado, porque o tempo passa também, mas acho que até a Copa, mantendo esse ritmo… Quem dera eu estivesse do lado dele para falar: ‘Diminui os holofotes fora de campo, para com a discussão com torcedor, com juiz, com jogador, e foca no que está fazendo, que está melhorando a cada jogo.'”

A conclusão é de quem respeita o jogador mas cobra postura: “Não está ainda no nível ideal para uma Copa do Mundo, mas já está começando a fazer por merecer.”

Da polêmica em 2006 a 2010 sem Neymar

Nas duas Copas em que Luisão esteve presente, houve polêmica. Primeiro, em 2006, depois do pentacampeonato e com uma geração que, no papel, formava um dos melhores times da história, houve decepção. A eliminação nas quartas de final para a França culminou nos debates sobre uma suposta má preparação da Seleção.

O ex-zagueiro não concorda com as críticas. Os treinos abertos, que recebiam legiões de torcedores, fãs de outros países e até mesmo show do Neguinho da Beija-Flor, foram o grande centro da polêmica, mas Luisão entende que a forma como a história foi contada é errada:

“Onde a Seleção vai, sempre há uma multidão atrás, mas depois a gente já se concentrava no hotel. Acho que a gente teve uma folga só. A narrativa não foi tão feliz. Não foi desleixo, foi uma experiência de que é melhor ficar mais fechado, porque quando tem ídolos como Ronaldinho, Ronaldo, vai ter sempre uma multidão. E é aquela coisa: se tivesse vencido, ninguém falaria nada”, opina.

Luisão marca Neymar em treino da seleção brasileira, em 2011
Luisão marca Neymar em treino da seleção brasileira, em 2011 (Foto: IMAGO / Fotoarena)

Depois da suposta “farra que causou o fracasso” em 2006, como foi falado na época, Dunga chegaria para comandar a seleção de forma quase militar. Luisão relembra que era uma abordagem diferente, de fato, mas sem o “terrorismo” retratado. “Ele nos fechou, mas isso nos deixou mais soltos”, lembra. Era um time fechado, mas que ainda jogava bingo e fazia churrasco entre si.

A grande polêmica com Dunga, no entanto, foi a não convocação de Neymar e Paulo Henrique Ganso, astros em ascensão em 2010. Mas Luisão não achou justa a crítica sobre o treinador pela ausência da dupla:

“Eu acho que o jogador da qualidade de Neymar e Ganso poderiam fazer alguma diferença, mas eles estavam muito novos, aquela Copa não era ainda para eles, por isso não acho justo essa colocação. Acho que o Neymar estava bem até um certo nível, mas não tão pronto para uma seleção brasileira, para competir numa Copa do Mundo, contra os melhores”.

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‘Sofri ameaças por defender o Vini e manteria minha postura

Um dos momentos mais fortes da entrevista veio quando o assunto chegou ao posicionamento de Luisão em defesa de Vinicius Júnior no caso de racismo envolvendo a Champions League. O ex-zagueiro não recuou um milímetro.

“Mantenho, porque não foi nada contra a instituição Benfica. Foi contra o ato de racismo. Manteria em qualquer circunstância.” As consequências vieram rápido:

“Sofri depois, pelas redes sociais, pessoas me chamando de macaco. E até de dentro do clube também, falando que eu não devia ter tomado essa postura. Eu falei: não mudo. Não fiz nada que não seja do meu caráter.”

Para Luisão, a reação de parte da torcida é compreensível no calor da emoção, mas não justifica o silêncio. “O torcedor, no calor da emoção, pode te agredir por palavras, mas depois sabe o que significa racismo ou preconceito.”

E quando a conversa chegou à pergunta final — o Brasil vai ganhar essa Copa? — Luisão foi honesto da forma que só quem viveu a competição por dentro consegue ser.

“O lado emocional diz que sim. O racional diz que não.”

Uma frase curta que resume tudo: a esperança de um torcedor apaixonado e o diagnóstico frio de quem conhece o futebol de dentro. Para Luisão, Vini será o principal jogador do Brasil na competição, mas o caminho até o título passa por muita coisa que ainda não está resolvida.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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