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Léo Moura tem o direito de escolher e se arrepender, mas as desculpas não colaram

“Confesso pra vocês que na vinda do hotel para cá, não consegui me segurar. Chorei no ônibus. Quando cheguei aqui e vi toda aquela torcida no portão… Entrando em campo com minhas filhas… Queria aproveitar ao máximo esses últimos minutos com a camisa do Flamengo. Até amanhã ainda estou lá no CT. Sexta é que não… Vai ser estranho acordar e não ir mais lá treinar com meus companheiros. É o lado triste de não poder defender mais o Flamengo. Aliás, não como jogador, porque como torcedor defendo com unhas e dentes”. As palavras de Léo Moura emocionaram em sua despedida do Flamengo, no início de março. Para, pouco mais de três meses depois, parecerem um passado muito distante.

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Ninguém questiona os sentimentos do lateral naquele momento. Dez anos com a mesma camisa, servindo a mesma torcida é caso raro. Ainda mais na intensidade vivida por Léo Moura em boa parte de sua passagem da Gávea. No entanto, não dá para negar que a história de sua volta ao Brasil ficou bem mal contada. Primeiro, pela postura de Eurico Miranda em colocar a responsabilidade da escolha pelo Vasco sobre o próprio jogador, dando os detalhes das conversas. Depois, pela palavra do presidente ser corroborada por Romário, um dos intermediadores nas negociações. E, agora, pela própria explicação de Léo Moura. Que, na verdade, não esclarece tanto, dizendo que pensou no Vasco e depois que não aceitou.

Da mesma maneira, Léo Moura também tem todo direito de escolher seu destino. É um jogador profissional e, se queria mesmo voltar para o Rio de Janeiro, passava por seu caminho um dos quatro grandes clubes da cidade – todos já no seu currículo, diga-se. As negociações com a diretoria do Flamengo para a renovação de seu contrato já tinham sido difíceis e a saída do lateral no início do ano foi até mesmo um processo natural de uma relação duradoura, mas bastante desgastada. O “não” do Flamengo, se o veterano realmente procurou o ex-clube, é bastante compreensível.

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No entanto, se realmente cogitou o Vasco como hipótese, Léo Moura deveria ter pensado nas consequências desde o início. Ainda mais se tem pendências com a atual diretoria cruzmaltina. Se o problema fosse o medo de não receber e a vontade de voltar ao Rio de Janeiro realmente pesasse, por que não se aposentar ou tirar um período sabático, que fosse? A esta altura, diante de tudo o que foi colocado à mesa, falar de “identificação” com o Flamengo soa tardio. Se Léo Moura diz que errou, o sentimento cabe só a ele. Mas é demagógico ir com a maioria e ainda se voltar contra o Vasco, criticando o clube por acreditar em sua palavra. Será que o rubro-negro realmente pode achar que, depois de tudo, agora é o que realmente vale?

A crise pessoal de Léo Moura acontece justamente na semana em que faleceu Carlinhos. Um dos maiores flamenguistas de todos, que se dedicou ao clube como jogador e técnico. E que, curiosamente, foi o último superado pelo lateral na lista de jogadores com mais partidas pelo clube. Ao escrever que “a Nação não merecia isso jamais”, Léo adota uma generalização que talvez não caiba. Se ele resolvesse defender o Vasco, nenhum rubro-negro iria mudar sua opinião sobre o Flamengo. Não é ele que faria um torcedor mais ou menos flamenguista – e, pelo baixo rendimento nos últimos meses, muita gente não gostaria de ver seu retorno, apesar da má campanha no Brasileirão. O que o lateral deveria ter mais consciência é o peso que sua atitude teria para si. E, desculpas aceitas, tudo ainda pega muito mal. Especialmente para quem se disse “torcedor” pensar em defender o rival.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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