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Carlinhos mostrou o que é um ídolo que ama seu clube de verdade

Pacientemente, o garoto observava com admiração os últimos momentos de um símbolo de seu clube, que desamarrava em campo pela última vez suas chuteiras. Arthur Antunes Coimbra tinha apenas 16 anos e, além do privilégio de fazer parte do Flamengo e ser apontado como grande promessa da base rubro-negra, estava ao lado de Luiz Carlos Nunes da Silva, o Carlinhos, na despedida do ídolo como atleta. O Violino, como era conhecido o meio-campista que tinha como último cenário de sua carreira o Maracanã, então entregou o par de chuteiras ao garoto, em um daqueles momentos ritualísticos a que todos os grandes ídolos têm direito. Um momento marcante para a futura maior estrela da história da Gávea, para Carlinhos e para o próprio clube. Vítima de insuficiência cardíaca, Carlinhos deu adeus à massa rubro-negra nesta segunda-feira, aos 77 anos, deixando para trás memórias marcantes no futebol, todas elas como a história de cima, com a camisa do Flamengo. Acima de tudo, deixando um exemplo do que é o verdadeiro ídolo que ama seu clube.

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Pelo talento que tinha, a tranquilidade com que jogava e a calma com que se relacionava com os companheiros, Carlinhos poderia ter vestido qualquer camisa e escrito sua história no futebol de uma maneira ou de outra. Quis as circunstâncias de vida que tudo isso acontecesse no Flamengo, sua “segunda casa”, como ele próprio dizia. A primeira vez que entrou pelos portões da Gávea aconteceu cedo, começando ainda nos infantis do clube. Estreou em 1955, com apenas 17 anos, e por toda sua carreira como jogador não defendeu outra camisa, aposentando-se em 1970 após 15 anos de dedicação e três títulos conquistados – o Rio-São Paulo de 1961 e os estaduais de 1963 e 1965. Todos esses anos já foram suficientes para que o Violino ficasse marcado na história do clube, mas sua relação com o Fla estava longe de estar acabada. Foi como técnico que Carlinhos estabeleceu de vez seu status de ídolo, de símbolo, de basicamente uma instituição do clube.

Quando assumiu o cargo de treinador do Flamengo no início do Brasileirão de 1987, Carlinhos já acumulava duas passagens bem rápidas pelo comando técnico do rubro-negro. Os anos como atleta e a boa relação mantida lá dentro o tornaram um nome seguro a que o clube podia recorrer em momentos difíceis, em que algum incêndio precisasse ser apagado. Em 1983, esteve à frente da equipe por alguns jogos, e em 1987, antes de assumir definitivamente a posição, também foi o interino por poucas partidas. Em sua primeira real oportunidade como treinador definitivo, escreveu mais um grande capítulo na história do Fla, com o título nacional na Copa União de 1987. Permaneceu por mais um tempo no clube e teve entre 1991 e 1993 sua segunda passagem longeva, em que conquistou o Brasileirão de 1992. Retornaria em mais três oportunidades, em 1994, 1999 e 2000, conquistando nessas duas últimas o bicampeonato estadual.

Então promessa da base, o jovem Arthur Antunes Coimbra recebeu de Carlinhos o par de chuteiras de sua despedida como jogador
Então promessa da base, o jovem Arthur Antunes Coimbra recebeu de Carlinhos o par de chuteiras de sua despedida como jogador

Se fora das quatro linhas o líder do título de 1992 era Carlinhos, dentro de campo foi Júnior a figura de respeito e comando daquela conquista. As palavras do ídolo rubro-negro após a morte do ex-técnico, em entrevista ao jornal Extra, corroboram a imagem que publicamente se tem do Violino. “Falava sempre aquilo que a gente gostaria de escutar como motivação. Ele foi um dos responsáveis por eu ter jogado até os 39 anos. Gratidão eterna. A última vez em que estive com ele foi quando o Flamengo colocou o busto dele merecidamente lá na Gávea. Mais um mestre que se foi. Mais do que um treinador, um amigo, uma pessoa extremamente verdadeira. Rubro-negro de boa cepa”, afirmou Júnior, que teve suas palavras reforçadas por seus ex-companheiros daquela conquista, entre outras figuras da história do Flamengo, na boa repercussão feita pelo jornal carioca.

Seu jeito pacato e relaxado era ótimo para essa relação com os atletas, mas é também o motivo pelo qual Carlinhos não foi reconhecido como deveria como treinador. Nos anos 1990, foi praxe associar o técnico à figura de “tampão”, e a falta de reconhecimento real pela sua capacidade se deve muito ao fato de que não se tratava de uma figura vaidosa, espalhafatosa, de repercutir seus próprios feitos e exaltar sua imagem em público. Sempre chamado para resolver as coisas no time da Gávea e, quase sempre, acabando dispensado pelo clube, nunca virou as costas à sua segunda casa. Como apontou Márvio dos Anjos em seu texto no Globo Esporte, é verdade que o Violino comandava um time forte em 1987 quando conseguiu a conquista da Copa União, mas seu título no Brasileirão de 1992 se deveu muito à sua habilidade de enxergar bem o jogo e de saber montar a equipe, tomando decisões inconvencionais e corajosas, mas que funcionaram maravilhas e resultaram na glória ao fim da competição. O bom trabalho à frente do Guarani, que incluiu a derrubada de uma sequência invicta do Palmeiras de Luxemburgo, em 1996 – uma das poucas vezes em que sua relação com o futebol não teve o Flamengo no meio (a outra foi pelo Remo) – , foi também comprovação de sua competência, embora tenha durado pouquíssimo tempo.

O tamanho dos feitos de Carlinhos pelo Flamengo pode ser dimensionado pelo fato de que o Violino recebeu ainda em vida a homenagem que merecia. Sobretudo em uma cultura de reconhecimentos póstumos, que o ex-meio campista e treinador tenha ganhado um busto e uma praça com seu nome na Gávea, em 2011, é sinal claro da imensidão que sua figura representou e seguirá representando para o clube. Quem pensa em Carlinhos, pensa imediatamente em Flamengo, e esse é basicamente o maior estágio de idolatria que um jogador ou técnico pode almejar para sua carreira. Conquistando isso em um time de milhões, de títulos e ídolos incontáveis, o Violino automaticamente estende seu significado para todo o esporte. Em tempos em que a construção de um ícone está cada vez mais escassa, com as relações entre jogadores e clube cada vez mais líquidas, o vínculo do ídolo rubro-negro com o clube tem tudo para apenas ganhar mais significado com o passar dos anos. Como se fosse possível ser mais Flamengo que Carlinhos.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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