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Jorge Jesus deixa o Fla como um técnico inesquecível: cabe ao clube trabalhar por seu legado, e não achar que vai repeti-lo

As homenagens dedicadas pelos jogadores do Flamengo a Jorge Jesus, logo após a conquista do Campeonato Carioca, pareciam ganhar contornos de adeus. Não havia qualquer admissão pública de que a negociação com o Benfica estava encaminhada e até mesmo o presidente rubro-negro apostava na permanência. Mas não é difícil entender os motivos que levam o treinador, prestes a completar 66 anos, de volta ao seu país. Ocupar a lacuna no banco de reservas do clube possivelmente não será tão simples, mas o que o lusitano deixa ao Fla é muito maior. Pode até ser que, no calor do momento, surjam algumas mágoas em alguns flamenguistas. Mas não será preciso muito tempo para que prevaleça apenas reconhecimento ao Mister.

Jorge Jesus chegou ao Flamengo como uma aposta alta e cara, que não tinha garantias de que daria certo. O comandante era referendado por seu currículo e também pelo estilo de jogo agressivo que costuma cultivar, bem mais condizente com o elenco que os rubro-negros tinham à disposição. Porém, o salto de qualidade não se sugeria automático dentro de um clube que sofria golpes seguidos em sua confiança e não conseguia apresentar um futebol condizente ao seu investimento. Jesus treinaria uma equipe de alto potencial, mas realidade muito aquém das projeções. E era um comandante de temperamento forte, que minou outros trabalhos por causa de seus atritos e posicionamentos.

O sucesso instantâneo de Jorge Jesus no Flamengo se dá, obviamente, muito por conta de seu sucesso esportivo. O elenco não demorou a captar o que ele propunha e a comprar suas ideias. Os mais velhos da equipe respaldaram o método de trabalho “moderno” do português, ao mesmo tempo que os mais jovens deixaram a vaidade de lado para se empenhar. Atletas que pareciam com os dias contados na Gávea se transformaram e praticamente todos passaram a render em seu mais alto nível – ou até além do que haviam feito na carreira. Não é preciso entrar em detalhes no que foi o 2019 do Flamengo, entre o futebol extremamente agressivo que devastou adversários e os títulos que carimbaram aquela revolução interna.

Mais importante, Jorge Jesus compreendeu o que era o Flamengo. Sua personalidade forte, antes vista com desconfiança, se casou ao espírito de uma torcida que vive o clube intensamente. A paixão que o lusitano exibe por seu trabalho foi essencial para cativar. E ele também provocou uma reviravolta no ânimo, que tanto se pedia, depois de derrotas apáticas em diversas competições. O treinador logo entregou aos rubro-negros o Flamengo que eles sonhavam e isso era retribuído com arquibancadas cheias, com calor nas ruas, com uma energia que também contribuía para motivar toda aquela mudança. Não é comum ver a massa se derretendo ante um técnico, em meio aos gritos de “Olê, Mister”.

A história se firma com conquistas e lá se vão cinco para a conta, incluindo a tão almejada Libertadores (da maneira mais emocionante possível) e um Brasileirão irreparável. Se havia uma química desde antes entre Jorge Jesus e a torcida do Flamengo, os troféus ampliaram os sentimentos como uma paixão avassaladora. Mas com os rubro-negros conscientes que talvez não durasse tanto tempo assim, apesar das juras de amor. A própria demora na renovação do treinador abria a porta a este pensamento.

Jorge Jesus renovou, com um salário até menor do que sua pedida inicial, entendendo o contexto. Mas não era o papel passado que garantia um matrimônio eterno. E a saída um tanto quanto anunciada, mas paradoxalmente repentina, se insere num cenário muito específico. É a chance de voltar para seu país, em meio a uma pandemia que afasta o português de sua família. Vai ganhar um salário que supera o que recebia no Rio de Janeiro, com menos riscos de impactos sobre o clube por causa da moeda. Retorna a uma agremiação que ele conhece muito bem e com a qual possui uma relação forte, por mais que tenha a trocado pelo maior rival depois. E atende o pedido de um amigo, o presidente Luís Filipe Vieira, que anda precisando de ajuda urgentemente.

O Benfica oferece um desafio mais árduo a Jorge Jesus do que ele encarava no Flamengo. Os encarnados enfrentam uma crise em diferentes frentes, o elenco ainda está distante de satisfazer e a torcida não vai venerá-lo como acontecia com os rubro-negros, por seu próprio passado conturbado. O Campeonato Português não atravessa sua fase mais relevante dentro da Europa e vai ser difícil repetir as boas campanhas da passagem anterior nos torneios continentais. Mas não deixa de ser um retorno bem cotado ao futebol europeu, numa carreira como treinador que não deve ter tantos anos pela frente. E a história já estava cumprida no Fla.

Por tudo o que Jorge Jesus provocou no Flamengo, suas marcas já estariam gravadas. Os rubro-negros podem se colocar como francos favoritos ao bicampeonato brasileiro, até pelo amplo elenco em tempos de maratona, e também possuem condições de sonhar com mais uma taça na Libertadores. Mas, entre surfar na onda (que, apesar de tudo, não trazia garantia de que os mesmos títulos se repetiriam nas grandes competições) e viver em um entorno mais movediço no âmbito pessoal ou voltar para casa e assumir um desafio esportivo maior, Jesus abraçou a segunda opção. Apesar de poder mais, avaliou que a missão no Flamengo estava cumprida. Faltou apenas ser mais claro quanto aos seus pensamentos, o que gera a insatisfação dos flamenguistas. Mas este sentimento tende a não durar diante da gratidão pelos feitos.

O próximo passo ao Flamengo será a manutenção. Aproveitar as ideias de Jorge Jesus e entregar o elenco a um técnico que possa dar continuidade ao trabalho. Faltam nomes no mercado brasileiro, não só pelo lastro, mas também pela proposta de jogo. Mas os rubro-negros não deveriam se prender ao fato de que encontrarão um comandante do mesmo calibre de JJ, aqui ou em qualquer lugar. Há outros caminhos a pensar, não só a Europa, e os próprios vizinhos sul-americanos apresentam opções válidas. Talvez sejam mais interessantes de analisar e, dentro da realidade de cintos apertados nas finanças, soa mais realista. O calendário atropelado do futebol brasileiro, a situação sanitária do país e a própria tendência de perder competitividade na compra de jogadores aumentam as barreiras a uma nova aposta europeia.

O maior mantenedor do legado de Jorge Jesus não precisa ser o novo treinador. A diretoria tem por obrigação buscar um técnico que não seja contratado apenas por nome ou por qualquer outra afinidade que fuja do campo de jogo. De qualquer maneira, o Flamengo deve contar com seus próprios jogadores nesse processo transicional. Os medalhões devem aproveitar a sua própria experiência para dar sequência ao modelo e respaldar o substituto. Muito provavelmente o novo comandante não terá a personalidade de JJ ou mesmo sua energia dentro dos vestiários. As lideranças terão que contribuir, ainda que a relação não seja igual.

Já a diretoria do Flamengo necessita entender o contexto, não perder tempo com qualquer ressentimento pela mudança de postura de Jorge Jesus. Dá para seguir crescendo sem o mentor do projeto, até pelo nível que os rubro-negros apresentaram no último ano. Avaliar muito bem o sucessor é a tarefa principal. Mas também será importante ponderar possíveis perdas do elenco, num cenário econômico que não favorece. Manter o equilíbrio do time. E evitar disputas internas, especialmente de vaidades entre dirigentes, que muitas vezes atrapalharam o ambiente do departamento de futebol.

Se o Flamengo quiser apenas encontrar ‘o novo Jorge Jesus’, não vai conseguir. Não dá para se apegar no sebastianismo quando ele já aconteceu uma vez. O clube terá que mover outras pequenas peças, sem mais a cabeça principal em seu tabuleiro. Mas não é preciso achar que a saída de Jorge Jesus significa o fim de uma era, da mesma forma como não se menospreza tudo o que ele realizou. A palavra de ordem deveria ser ponderação. As bases estão aí e não haveria maneira melhor de reforçar a escolha acertada de JJ do que ampliar seu sucesso além da permanência do português.

A semente do trabalho de Jorge Jesus não se restringe ao Flamengo. Que se pese as condições excepcionais do time, o treinador indicou o caminho para exibir um futebol de alto nível dentro da realidade brasileira, seja por seu estilo de jogo ou mesmo pela forma como aproveitou os seus homens. É possível enraizar isso num momento em que os principais clubes do Brasil têm que renovar suas ideias e assumir riscos dentro de campo, muito mais do que fora deles. Diante da contenção de gastos e de possíveis perdas de jogadores a outros mercados, o Brasileirão precisa mais de personalidade para fazer do que de renome.

O Flamengo está um passo à frente nisso, com ou sem Jorge Jesus. Depois de tantos anos com erros diversos, parece muito mais simples repetir a fórmula com suas adaptações à sequência da equipe. O clube tem vários elementos ali, a não ser o de um treinador que potencializou o entorno com suas decisões. É vital entender que, para continuar sendo vitorioso, o desempenho fulminante não precisa se repetir. Não criar pressões desnecessárias também passa por essa continuidade, e aí entra bastante a torcida. Por toda a exposição que há sobre o clube, tal empolgação segue por inércia. Por isso, cabe ao torcedor criar consciência que, embora não seja insubstituível, o Mister não será repetível.

É isso, aliás, que garante o lugar dele na memória. Toda aquela intensidade à beira do campo e toda aquela paixão no convívio não seguirão na Gávea – a não ser que o Flamengo faça uma escolha que, neste momento, não parece palpável ou não está tão clara. Jorge Jesus, afinal, é único por suas virtudes e sua maneira de pensar o futebol. Foi essa erupção que provocou a simbiose com o Flamengo e que gerou uma passagem curta mas inesquecível. Cabe ao rubro-negro perceber que deu uma sorte tremenda nesta relação passageira e preservar o reconhecimento que sempre dedicou ao Mister – por aquilo que já ficou e por aquilo que ainda pode aumentar com a casa arrumada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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