J. Hawilla denuncia propina em contratos: está na hora de abrir a caixa-preta da CBF
Cada vez mais, as revelações da Justiça dos Estados Unidos espalham para diferentes cantos a sujeira do escândalo de corrupção da Fifa. E, nesta quinta, os detalhes divulgados pelos americanos atingem diretamente a CBF. Um dos principais delatores na investigação, J. Hawilla confirmou o pagamento de propina em contratos de direito de transmissão de TV e de patrocínios feitos junto à confederação brasileira. As fraudes se repetiram entre 1991 e 2013, quando Ricardo Teixeira já tinha sido substituído por José Maria Marin na presidência da entidade.
Segundo Hawilla, transmissões antigas da Copa América, da Copa Ouro e da Copa do Brasil estão envolvidas no episódio. No entanto, a justiça americana manteve o sigilo sobre o nome da patrocinadora denunciada por Hawilla. Em 1996, a Traffic participou das negociações que firmaram a parceira entre Nike e seleção brasileira em 1996, em operação histórica no marketing. O acordo com a fornecedora de material esportivo chegou a ser investigado pela CPI da CBF/Nike, encerrada em 2001 sem levar a lugar algum.
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“Em 1991, quando eu fui renovar um contrato para a Copa América, um dirigente associado à Fifa e à Conmebol me pediu uma propina. Eu precisava daquele contrato, pois já havia assumido compromissos. E, mesmo que não quisesse, eu concordei em pagar a propina. Depois disso, e até 2013, outros dirigentes vieram a mim e exigiam propinas para assinar ou renovar contratos. Eu concordei com pagamentos de suborno que seriam feitos a esses dirigentes, por contratos de direitos de marketing e outros direitos associados ao futebol. Eu concordei em pagar subornos por contratos da Copa América, Copa Ouro, Copa do Brasil e pelo patrocínio da seleção brasileira”, afirmou Hawilla durante o depoimento.
Não é de hoje que as denúncias pesam sobre a CBF. Entre os principais escândalos nos últimos anos, há a fraude na assinatura do contrato de patrocínio com a TAM, revelado em 2012, e também o desvio das verbas de um amistoso entre Brasil e Portugal, realizado no Distrito Federal. Este último episódio teve grande importância na saída de Ricardo Teixeira do comando do futebol brasileiro e também envolve Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona que atuou durante anos como executivo da Nike na América Latina. Histórias que, de uma forma ou de outra, se sugerem interligadas.
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No entanto, para que as conclusões sejam tomadas, é preciso abrir a caixa preta da CBF. E, apesar dos pedidos feitos pela CPI do Futebol, que se desenrola no Congresso desde julho, o Supremo Tribunal Federal negou por duas vezes a abertura de documentos e dados financeiros da confederação. Segundo o ministro Marco Aurélio Mello, em setembro, o requerimento não trazia nenhum fato concreto que justificasse a quebra de sigilo, no que seria um ato “desproporcional”. Além disso, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, também tem atrapalhado o acesso a documentos da CPI CBF/Nike, de 2001.
Pois, a partir do depoimento de Hawilla e das revelações da justiça americana, o fato concreto se faz presente. E a liberação do STF pode ser essencial para o esclarecimento das relações obscuras que perduram no futebol brasileiro. Se existe um forte movimento de reforma, para as tão necessárias melhorias, não há melhor oportunidade para que a limpeza se acelere.



