‘Gol do Flamengo, não, não’: por onde anda o meme vivo torcedor do Internacional
Didão Trovo - Gordinho do Inter, nas redes sociais - divide seu tempo entre o trabalho com empilhadeiras, o Internacional e a paixão por orquídeas
Poucas coisas são mais potentes para mudar a vida de um brasileiro do que um vídeo viral. Somos um país apaixonado por celebridades mundanas – faço essa reflexão enquanto debatemos incansavelmente a história da moça que se recusou a ceder, a uma criança, um assento na janela do avião. O futebol, claro, é terreno fértil para memes, que vão perdurando no tempo enquanto nossas memórias permitem.
A minha, que gosta de caminhos tortuosos, viaja até 2009. Estamos na última rodada do Campeonato Brasileiro. Flamengo e Internacional disputam o título, um torcendo contra o outro. São dois times de longos jejuns e, portanto, duas histórias irresistíveis para a imprensa: o Flamengo não vencia desde 1992, e o Inter segue tendo conquistado seu último Brasileirão no longínquo 1979.
Foi por isso que o Profissão Repórter, programa de Caco Barcellos & seus promissores estagiários, decidiu dedicar uma edição à reta final do Brasileirão daquele ano. Foi fácil escolher um personagem colorado para seguir com câmeras e microfones: o carisma do empresário Sinval Trovo, a quem todos conhecem como Didão, engolia os outros.
O problema é que, com a vitória do Flamengo sobre o Grêmio no Maracanã, o Inter acabou perdendo a taça. Didão, que cantava alto, é avisado, diante das câmeras, que o adversário fez um gol. O ânimo vai embora e ele, resignado, lamenta: “Gol do Flamengo, não, não, não.”
A imagem correu os fóruns do Orkut, a principal rede social da época, e virou um dos memes clássicos do futebol brasileiro.
— Eu viajo bastante, desde piá, desde criança. No ano de 2009, o Inter estava com um time bem bom e andei viajando. Na penúltima rodada, eu estava em Recife para ver Inter e Sport lá. Eu sempre fui meio agitadão, torcedor fanático. Lá em Recife, como mundo afora, tem muito colorado. E o Thiago Jock, do Profissão Repórter, me viu como um torcedor diferente, se apresentou e disse que gostaria de acompanhar. Eu disse que topava com o maior prazer representar meu Colorado — diz ele.
— Nós tivemos a competência de ganhar lá. O repórter pediu meu contato e disse que, como o campeonato estava em aberto, iriam para Porto Alegre na última rodada e pediu para me acompanhar. Eu disse: ‘Claro, com o maior prazer’.
— Eu até pensei, quando aconteceu isso, que os torcedores colorados iam ficar p… Mas cara, foi uma coisa espontânea, não foi… Como eu vou muito no jogo, me dou bem com o pessoal das torcidas, eles sempre me mandam os memes” — conta, enrolado em uma bandeira do Inter.
Futebol e flores
A paixão pelo Inter veio desde cedo na vida de Didão, que nasceu um ano antes do título brasileiro. Além de ter uma empresa de empilhadeiras, ele concilia o futebol com outro hobby: colecionar orquídeas.
— Eu tenho um hobby de colecionar orquídeas desde a década de 90, vai fazer 30 anos, mais ou menos. Desde a época que saía para acampar com os escoteiros e pegava a orquídea no mato – uma coisa que, hoje, sou totalmente contra. Sou presidente da Federação Gaúcha de Orquidófilos, a entidade-maior do Sul, que tem 30 associações em cidades filiadas — conta.
Minha curiosidade aflora — não estou tentando fazer uma piada botânica — e sinto que preciso entender mais sobre o mundo da orquidofilia. Pergunto se existem competições, ou se os encontros são apenas para trocar conhecimento.
— Tem competição, a gente leva pras exposições e temos os juízes federados. A federação tem um quadro de juízes, que é treinado periodicamente nos critérios. Inclusive, nós temos aqui, no Rio Grande do Sul, o prêmio de Orquidófilo do Ano. Temos associações na serra, no litoral… E o orquidófilo que ganha mais prêmios no Rio Grande do Sul ganha um troféu diferenciado e o status de orquidófilo do ano.
O universo das orquídeas não é tão diferente assim do futebol, afinal.
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Vencendo com gentileza
Virar um meme involuntário tem o potencial de causar danos irreversíveis na vida das pessoas, mas Didão parece uma boa lição de como lidar com isso. Nas redes sociais, ele assumiu o personagem e assina como @gordinhodointer. E não guarda mágoa da torcida do Flamengo — pelo contrário.
— Eu vou seguido ao Rio, nos jogos contra o Flamengo. A torcida do Flamengo com nós, colorados, é muito receptiva. A gente toma cerveja junto, antes de entrar no estádio. É muito legal. Que bom que foi numa situação contra o Flamengo. Se fosse contra um Fluminense ou um Palmeiras da vida… O Flamengo é uma torcida aliada nossa.
Encerro a entrevista com um clichê de repórter, tentando encadear os dois assuntos, e pergunto o que ele prefere: ser eleito orquidófilo do ano ou, enfim, ganhar um brasileirão.
— Eu sou Inter desde que eu nasci e orquidófilo desde 94. Antes de nascer, já sabia que meu sangue era colorado. Já era um destino de antes de eu nascer.



