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‘Não esqueço desse lance’: Ex-técnico de Igor Thiago revela bastidores do início do artilheiro

A história do maior artilheiro brasileiro em uma edição de Premier League por quem o deu conselhos antes do profissional no Cruzeiro

Igor Thiago faz história na Premier League. Seu crescimento estrondoso na temporada o levou a 17 gols em 23 jogos no Campeonato Inglês — o maior número que um brasileiro já atingiu na história da competição. E ainda falta praticamente um turno inteiro para aumentar a contagem.

Quem trabalhou diretamente com Igor Thiago nos seus anos de formação sempre viu o potencial. Célio Lúcio, ex-zagueiro do Cruzeiro, é treinador das categorias de base do clube, comandou o centroavante no sub-20 e contou sua experiência com o jogador em entrevista exclusiva à Trivela.

Célio revela bastidores da transição de Thiago — como é carinhosamente chamado — ao profissional, como ele conquistou os olhos do clube e o processo de lapidação para se tornar o que é hoje. Além de pontuar como ele poderia jogar na seleção brasileira e até em grandes clubes do mundo, como Barcelona e Bayern de Munique.

Quem foi Igor Thiago antes do recorde na Premier League

O centroavante goleador que o Brentford tem popularizado em solo inglês já existia antes. Foram 15 gols na campanha do título búlgaro pelo Ludogorets, além de 29 em 55 jogos pelo Brugge.

Tamanho potencial foi visto pelos Bees, mestres em contratar joias “escondidas” e transformá-las em estrelas. Mas Igor Thiago foi brecado na temporada passada por uma grave lesão no joelho. Foi isso que atrasou a explosão, mas não pôde evitá-la.

Igor Thiago pelo Ludogorets
Igor Thiago pelo Ludogorets (Foto: Imago)

Isso porque algumas das grandes características do jogo do atacante de 24 anos são enraizadas. A força, velocidade e ótima condução, inclusive, foram o que fez o Cruzeiro brilhar os olhos durante um jogo de testes — e, por fim, contratar o jovem na época para o sub-20.

“Na verdade, o que definiu a situação do Thiago foi um trabalho de campo aberto. Ele estava na equipe de baixo e a zaga do time titular era o Gabriel Brazão, goleiro, o Cacá e o Edu, os dois zagueiros de seleção de base na época. Teve uma situação pelo lado esquerdo, ele deu uma arrancada e atropelou os dois e fez o gol. Ali foi a aprovação total. Eu não esqueço de forma alguma”, lembra Célio.

À Trivela, o treinador da base cruzeirense revela que a chegada do atacante foi muito promissora. Tímido, não foi na primeira semana de testes que ele desabrochou, mas na segunda já havia sinais de algumas qualidades que mostravam um futuro promissor no futebol profissional.

Nem mesmo a improvisação do espaço em um corredor de hotel para atender a reportagem por vídeo fez com que o ex-treinador de Igor Thiago deixasse de esbanjar orgulho ao contar as histórias pessoais com o jogador. E um dos grandes elogios que Célio deu, o que, para ele, também explica seu sucesso, é na personalidade.

“Thiago mostrou uma característica muito importante para o jovem que quer vencer: a humildade. Aceitar os conselhos que a gente passava”, começou. E essa mentalidade fez com que trabalhasse mais e colhesse seus frutos.

“A característica mais importante que a gente viu nele foi a força e a condução da bola perto do pé, isso aí foi um diferencial para ele ser aprovado. A partir da aprovação, a gente começou a fazer uma análise melhor dele colocamos alguns pontos para ele trabalhar, como domínio e cabeceio. O Thiago foi muito incisivo nessa questão de aprender. Ele chegava 20 minutos antes e ficava depois do treino”.

Igor Thiago, então, foi se aprimorando. E essa evolução foi notória: na Copinha já era o titular e começou a fazer alguns jogos na Série B pelo Cruzeiro. Mas o mais preponderante, o que ficou marcado em quem trabalhou com ele, foi a dedicação no trabalho analítico de aperfeiçoar os movimentos técnicos do jogo.

A transição da base para o profissional foi em um momento conturbado da história da Raposa. O rebaixamento e o turbilhão interno, para Célio, fizeram com que o jogador crescesse a nível pessoal:

“Ele tem muita dedicação, como teve com a gente lá na base do Cruzeiro, no profissional, que foi uma fase muito difícil. Tenho certeza que essa fase difícil deu uma resiliência muito grande para ele, porque o que nós passamos lá na série B… E ele conseguiu ajudar no profissional, fez a transição e isso hoje soma para ele continuar com essa postura“.

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Humildade, evolução e algo maior do que o Brentford?

O camisa 9 do Brentford faz por merecer o debate sobre uma chance na seleção brasileira. Mas, apesar da vice-artilharia da Premier League — atrás apenas de Haaland –, seu time ainda é visto como motivo de dúvidas do público médio. A evolução destacada pelo seu ex-treinador, no entanto, é o que o credencia.

(No Cruzeiro) ele conseguia fazer gols pelo meio, o pivô, com um pouquinho de dificuldade técnica, mas foi crescendo com os trabalhos que a gente começou a fazer com ele. E esse arrasto dele, pela esquerda (na avaliação), é muito parecido com o que ele faz nos gols que eu tenho visto dele na Inglaterra, já era dele“, analisa Célio.

O técnico da base do Cruzeiro ainda reforça a força de Thiago protegendo a bola, arrancando com ela próximo ao pé, e destaca como isso é difícil de se fazer. “Aí entra a questão da idade, da maturação. A gente tem que ter paciência”, completa.

Igor Thiago antes de jogo do Brentford
Igor Thiago antes de jogo do Brentford (Foto: Imago)

Para Célio, há algumas tomadas de decisões em que poderia melhorar, mas o camisa 9 aprimorou sua finalização cara a cara com goleiro, cabeceio e a “vivência do jogo”. Principalmente a questão mental e comportamental. E se estar no Brentford é empecilho em termos de popularidade, o ex-treinador almeja voos maiores:

“Eu vejo o Thiago com a característica do Barcelona, do Bayern de Munique, acho que o Thiago se encaixaria bem ali. São equipes um pouco diferentes. Barcelona, Real Madrid, são mais técnicas, mas no Bayern, acho que o Thiago encaixaria melhor pela característica dele, a forma de jogar, o estilo de jogo, essa questão física dele também”.

Há espaço para Igor Thiago na seleção brasileira?

Carlo Ancelotti já disse que sua convocação para a Data Fifa de março seria algo muito próximo da definitiva para a Copa do Mundo. Igor teria uma única chance, caso seja convocado. Mas há a chance de mostrar características que nenhum outro atacante das últimas listas do italiano mostra normalmente.

O Brasil de Ancelotti tem jogado com um ataque móvel, em mistos de 4-2-4 e 4-3-3. Vinícius Júnior já foi uma versão mais clássica de centroavante: apesar de menos físico, era quem rompia em profundidade. A versão mais popular do ataque brasileiro tem Matheus Cunha ou João Pedro como falsos noves e muita liberdade.

Thiago seria um nome oposto. Com 1,91m de altura, muita força física e capacidade de jogar dentro da área e de costas para o gol, oferece possibilidades diferentes, que podem ser úteis contra adversários específicos. E mesmo torcendo pelo seu ex-comandado, Célio não deixa o cuidado de lado: há pouco tempo.

“A tendência é que ele seja realmente oportunizado por tudo aquilo que tem feito de bom. Tem uma característica diferente, um jogador diferente dos outros que estão na seleção brasileira. Então tem que ser experimentado, mas eu não sei se é o momento ainda, tão próximo de uma Copa do Mundo”, avalia.

O ex-treinador entende que a decisão não só sobre o chamado, mas a forma como o atacante poderia jogar na seleção, depende das ideias de Ancelotti. Mas entende que Igor Thiago reúne algumas das principais características exigidas pelo que o futebol atual: qualidade na pressão pós-perda, voltar para marcar e a intensidade física.

Se o carinho de Célio já era grande ao relembrar a histórias do passado, ele não diminuiu na hora de pensar no futuro que o ex-aluno pode ter. A hora de dar um conselho ao jogador virou quase um desabafo paternal:

“Um conselho para o Thiagão? (risos). Continuar com a humildade dele, é um menino compenetrado, que ouve muito, simples demais. A carreira dele vai ser ainda mais brilhante do que ele pensa. É um ser humano bom, respeitador, que ama a mãe, ama os familiares e as pessoas. Eu tenho certeza que ele vai conquistar muito ainda”.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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