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Há cinco anos, entre as provações e a fé, o Galo negava o impossível para soltar seu maior grito

Há campanhas em que nada abala a confiança de um torcedor. Nem mesmo a maior das provações é capaz de fazê-lo vacilar em sua crença. De fazê-lo negar a certeza de que o título acontecerá, independentemente do sofrimento que se vivia em campo. A torcida do Atlético Mineiro sabe o que é isso, pela sintonia cósmica que ocorreu entre o Galo e o restante do universo naquela Copa Libertadores de 2013. Os alvinegros enfrentaram tantos dramas e riscos ao longo da caminhada que, no fim das contas, tudo parecia parte do destino manifesto que aguardava a tão sonhada taça. Que encerrava a longa espera dos atleticanos por um título de primeira grandeza e que, enfim, botava o clube no topo das Américas. Aflição incessante que culminou em êxtase inigualável na madrugada de 24 para 25 de julho, há exatos cinco anos, dentro do Mineirão.

A conquista do Atlético na Libertadores de 2013 possui dois momentos distintos. O primeiro é o de afirmação. O Galo possuía um elenco cheio de medalhões, taxados como refugos. Tinha um técnico rotulado como azarado. Vinha de um passado na competição continental aquém da grandeza de sua camisa. Por isso mesmo, a campanha maiúscula nas fases iniciais valia tanto. O Galo pulverizava os adversários e impunha respeito, como um dos favoritos. Contava com os gols de Jô, a energia de Bernard, a efetividade de Diego Tardelli. Sobretudo, com a mágica de Ronaldinho Gaúcho, aquela irreproduzível, que só um conhecedor das artes da bola como o bruxo pode demonstrar. Foram cinco vitórias nas cinco primeiras rodadas. E quando perdeu para o São Paulo no último compromisso da fase de grupos, já classificado, o time de Cuca tratou de eliminar os próprios tricolores nas oitavas de final. Primeiro, a vitória dentro do Morumbi, antes da goleada no Independência. O Horto cada vez mais ganhava sua mística à massa alvinegra.

Posto como um dos sérios candidatos ao título da Libertadores, porém, o Atlético precisou encarar outro momento completamente diferente na reta final do torneio continental. Era a etapa do sofrimento. A hora de fazer arder no fogo toda a fé da torcida atleticana, aquela tão calejada pelos títulos que não vinham e pelo sentimento de injustiça em grandes partidas. Naquela ocasião, havia um quê de justiça divina, a começar pelo instante que nenhum torcedor alvinegro se esquece, consumado em 30 de maio de 2013.

O empate por 2 a 2 contra o Tijuana no Estádio Caliente parecia um bom negócio. O reencontro com os Xolos, todavia, guardou uma angústia bem maior do que se imaginava em Belo Horizonte. O gol dos mexicanos abrindo o placar, o empate que saiu pouco antes do intervalo, o desespero pela vitória que não vinha. E, ao final, o temor maior pela derrota que ficou a um triz de romper todas as esperanças. Que ficou a um pênalti de Riascos, já nos acréscimos. Que acabou negada pela perna erguida de Victor, eternizada por todo o sempre na memória dos fanáticos, beatificada pelo milagre acabara de realizar. Santo, posto no altar de adornos alvinegros.

A partir daquele momento, era como se o Atlético Mineiro estivesse imbuído de uma capacidade mística. Como se o Galo fosse tomado por uma imortalidade, que o impedia de sucumbir na sequência da Libertadores. E isso seria testado outras duas vezes na competição. O Newell’s Old Boys de Tata Martino era um time muito forte e, em noite infeliz dos mineiros, ganhou por 2 a 0 em Rosário. A reviravolta aconteceria em outro épico no Independência. Jogando com uma pressão incessante, o Galo abriu o placar aos três minutos, com um passe açucarado de Ronaldinho para Bernard marcar.

O duelo era emocionante. Se o goleiro Nahuel Guzmán realizava defesaças de um lado, os leprosos desperdiçavam contragolpes claros do outro e Victor também aparecia decisivamente. Aos 32 do segundo tempo, os refletores no Horto se apagaram. A pausa forçada tornou-se fundamental para que o nervosismo se dissipasse e se transformasse em intensidade dos atleticanos. Até que, graças aos jogadores que saíram do banco, Galo anotasse o gol necessário para levar a decisão às penalidades, com Guilherme fuzilando no finalzinho. Sobre a na marca da cal, outra vez Victor se agigantou, parando a cobrança de Maxi Rodríguez.

Já na decisão, o Olimpia. O Rey de Copas. O adversário cuja história na Libertadores falava por si. Mas que não amedrontou o Atlético Mineiro rumo ao maior jogo de sua história. Com os gols de Alejandro Silva e Wilson Pittoni, em meio ao caldeirão no Defensores del Chaco, a ida mais uma vez maltratou os ânimos da massa atleticana. Entretanto, não negou a sua fé. Não dilacerou aquela certeza de que, sim, desta vez poderia acontecer. Se a finalíssima não se daria no Independência, o amuleto da sorte do Galo, o jeito seria transformar o Mineirão no coração pulsante de outros tempos, tomado pela multidão nas arquibancadas. A crença de que se tornaria real, esta já era suficiente para empurrar os alvinegros à noite história.

As provações, como em toda aquela reta final de Libertadores, voltariam a perseguir os pensamentos da torcida do Atlético. O primeiro tempo começou com a iniciativa do Atlético, que tentou botar os paraguaios contra a parede, mas tinha problemas na hora de criar chances mais claras. Pior, o Olimpia bem que poderia sair em vantagem, com Victor salvando um contragolpe dos franjeados. Faltava objetividade ao Galo, que não contava mais com aquele Ronaldinho brilhante, que via seus companheiros de ataque pecarem pelo excesso de erros. Até parecia que a taça se distanciava, diante da apatia dos anfitriões.

O “eu acredito” só voltou a ecoar mais forte quando o intervalo serviu para esfriar e erguer a cabeça do Atlético. O time voltou com outra postura para o segundo tempo e, logo nos primeiros instantes, anotou o gol que trouxe alívio, com Jô estufando as redes. A deixa para que o sangue fervesse nas veias dos jogadores de Cuca e eles passassem a atacar sem deixar os adversários respirarem, parando apenas nas defesas de Martín Silva. O problema é que, do outro lado, o Galo também precisou prender a respiração. Quando Ferreyra saiu de frente para o gol, o sonho quase desmoronou. O gol inacreditável que o centroavante perdeu serviu de sinal maior. Sim, aquela seria mesmo a noite redentora. A noite libertadora aos atleticanos.

O Atlético, que parecia deixar suas energias fugirem de si, voltou a recuperá-las. Ressuscitou nos cinco minutos finais do segundo tempo. Martin Silva continuava fazendo o impossível. Impossível que o Galo adorou refutar ao longo daquela Libertadores. O desafogo aconteceu aos 42, quando Leonardo Silva apareceu na área para resolver. O massacre atleticano até dava a impressão de que o terceiro tento viria ainda no tempo regulamentar. Não veio, e nem mesmo na meia hora extra da prorrogação, na qual os mineiros seguiram amassando os franjeados.

A vitória por 2 a 0, mais uma vez, levaria a decisão para os pênaltis. Seria lá que a Libertadores definiria o seu campeão. Mas a marca da cal, afinal, não era o possível portal ao inferno do quase atleticano. Servia como um purgatório, pronta a purificar os alvinegros através de seu credo e de sua paixão. E o caminho dos céus outra vez seria conduzido pelas mãos de Victor, capaz de defender a cobrança de Miranda, antes que a trave sacramentasse a conquista inédita quando Giménez desferiu seu chute. O estampido no poste metálico do Mineirão retumbava como o sino que abriu os portões do paraíso ao Galo. Seria abafado pelo grito da massa. Estavam realmente todos acordados. O sonho, com requintes de pesadelo em vários momentos, mudando de direção bruscamente ao épico, era mesmo de verdade.

O Atlético deixava para trás qualquer coadjuvantismo. Qualquer frustração ou sentimento de inferioridade. Reafirmava-se como um grande, e de uma das formas mais fantásticas para botar as mãos na Libertadores. Em uma equipe com destaques em vários setores, não havia exatamente protagonistas, mas salvadores que auxiliaram passo a passo na jornada. Jogadores dotados de capacidades praticamente sobre-humanas, entre a maestria de Ronaldinho no início da campanha, os milagres de Victor ao final, os tentos agônicos de Guilherme e Leonardo Silva, a artilharia de Jô. Marcos Rocha, Réver, Richarlyson, Pierre, Josué, Bernard, Tardelli: todos de alguma maneira importantes. Todos elevados por Cuca, da superstição à superação que possibilitou a consagração da história.

De tanto reverter a lógica, o épico do Atlético na final parecia até óbvio. Os requintes de crueldade se aliviavam pelos ritos de passagem, marcados por cada esboço do impossível negado. O Galo, no papel, era mais time que seus adversários na reta final. Em campo, nem sempre foi, mas conseguiu se agigantar como um time copeiro, justo nos instantes mais aflitivos. Tijuana, Newell’s Old Boys e Olimpia guardam calafrios e palpitações entre as lembranças dos atleticanos. Mas nada comparado à catarse do triunfo sufocante em cada compromisso. Batismos de fogo a uma fé inabalável, que já viveu dias amargos, mas não experimentara tamanha glória. Forte e brigador como nunca, o Galo redimiu sua gente em três apoteoses à meia-noite.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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