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Gabriel Jesus, os novos tempos e a efemeridade dos ídolos

O Palmeiras não está acostumado a revelar jogadores. Sua fama sempre foi de comprador, mesmo nos tempos de ouro – Dudu e Ademir da Guia, por exemplo, vieram de Ferroviária e Bangu. Orgulha-se da tradição em formar goleiros, mas, quando tudo dá certo, não deveria ser necessário que eles assumissem o protagonismo de um grande time campeão. Sim, Marcos é uma exceção. É diferente com jogadores de linha, principalmente atacantes. O gol é o ápice e o goleiro é responsável por evitá-lo. Os atacantes, por fazê-lo. Alívio versus êxtase. E poucos atacantes saíram das categorias de base alviverdes para, figurativamente, conquistarem o mundo. Sim, Gabriel Jesus é uma exceção.

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Difícil saber até onde Gabriel Jesus pode chegar. O garoto tem apenas 19 anos, mas já mostrou várias qualidades: velocidade, habilidade, faro de gol e uma boa cabeça para não se perder entre Ferraris e champanhes. Apresentou o suficiente para o Manchester City pagar € 33 milhões por ele. Atendeu ao chamado de Guardiola e terá um dos melhores técnicos do mundo acompanhando o seu desenvolvimento. Fez 68 jogos (e 26 gols) pelo Palmeiras. Pode chegar a 93 este ano, caso a seleção olímpica dispute pelo menos a medalha de bronze, e o Verdão, a final da Copa do Brasil.

O acordo entre os clubes prevê que ele fique no Brasil até o fim do ano e se apresente aos ingleses na época do Natal (trocadilho intencional). Pode ser estendido para que ele atuasse em uma eventual Libertadores, mas esta não é a realidade no momento. A realidade no momento é que Gabriel Jesus encerre sua passagem pelo Palmeiras com menos de 100 jogos. É possível um jogador tornar-se ídolo de uma torcida com menos de 100 jogos?

Não sei. Gosto de tratar idolatria como um sentimento pessoal. Alguns palmeirenses amam Valdivia, outros odeiam, e um terceiro grupo o aturaria se o seu salário e o número de confusões que cria fossem cortados pela metade. Não vou estabelecer critérios para que seja aceitável um torcedor amar um jogador de futebol. De qualquer forma, precisa ser possível. Ou melhor: o futebol brasileiro exige que seja possível.

Porque, do contrário, a carência de ídolos, que já existe, viraria uma epidemia crônica. Ou só seriam amados jogadores folclóricos, medianos raçudos e que estão na parte final da carreira. Uma jovem promessa de verdade, como Tite caracterizou Gabriel Jesus, corre contra o tempo. Quando surge, o chão do restaurante já está sendo varrido, o dono já colocou Roupa Nova nas caixas de som, e o garçom pergunta com frequência se ele está satisfeito. Nunca tem muito mais do que 100 jogos para completar a paquera.

Gabigol tem 152 partidas e está de saída do Santos. Lucas Moura foi embora do São Paulo com 128. Lucas Silva fez 84 jogos pelo Cruzeiro. Gerson, 63 pelo Fluminense. Malcom ficou na casa dos 70. Isso não se aplica apenas às pratas da casa. Luan chegou jovem, da Catanduvense, apareceu 141 vezes com a camisa gremista e enfrenta um interesse cada vez mais forte da Europa. Dez anos atrás, Tevez deixou o Corinthians sem ter passado dos 78 duelos. Neymar só conseguiu chegar a 225 pelo Peixe porque houve um mirabolante plano para mantê-lo no Brasil além do que seria normal.

Alguns conseguiram preencher correndo o cartão de respostas do vestibular de ídolos, outros pararam no meio do caminho. Não fizeram o bastante em pouco tempo. A dificuldade é gigante, como se todos fossem integrantes dos Beatles e tivessem que compor 500 músicas em dez anos. Não é para qualquer um. Na melhor das hipóteses, Gabriel Jesus conquistará três títulos pelo Palmeiras antes de se colocar à disposição de Guardiola. Mas só disputou sete. Dificilmente marcará 50 gols. Nunca brilhou em um clássico. Mas, até agora, só disputou 16, oito como reserva, oito como titular. Fez o bastante? Mais uma vez, cada torcedor sabe por quem seu coração bate.

As razões são aquelas mesmas que vocês já conhecem. O Campeonato Brasileiro não consegue atingir todo o seu potencial, há problemas estruturais, de organização e de calendário, os clubes são frágeis financeiramente e precisam vender jogadores para respirar. Não têm dinheiro para pelo menos se aproximar dos salários que são pagos em outros países. Em meio ao processo que nos levou à situação atual, os aspirantes a jogador de futebol profissional cresceram com os grandes da Europa no imaginário. O auge é ali, o dinheiro é ali, a atenção e a badalação estão ali. Não aqui. Aqui é para os românticos, para os fracassados e para os preguiçosos. Não dá para competir, e são anos de trabalho para reverter este cenário.

Na época em que tudo é acelerado, em que notícias sobrepõem-se incessantemente, em que o interesse por um filme, uma série ou um livro varia de acordo com o próximo filme, série ou livro, em que a meia-vida de relacionamentos amorosos está menor, em que se descarta as coisas com facilidade porque há coisas demais, em que tudo precisa ser intenso, os ídolos do futebol brasileiro também são efêmeros. Aparecem e desaparecem em um piscar de olhos. Aproveite o seu enquanto você puder.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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